Espetáculo virtual gratuito reflete sobre a violência doméstica contra a mulher

Cia Prisma apresenta a montagem “Des-amor-daçar” nesta quinta-feira (29), sob direção de Herê Aquino

Legenda: Atriz Luisete Carvalho em cena de "Des-amor-daçar": sensibilidade para falar de tema incômodo
Foto: Raphael Camarão

Os números assustam e paralisam. 105.821 denúncias de violência contra a mulher foram registradas apenas no ano passado no Brasil. As informações são de um estudo realizado pelo Observatório da Mulher Contra a Violência, divulgado no último mês de março.

Apesar da vultosa quantidade de ocorrências protocoladas, o rastro de silenciamento entre elas ainda se perpetua. Muito desse mutismo se deve à própria configuração instaurada com a pandemia de Covid-19, responsável por confinar, entre quatro paredes, agressor e vítima. 

É a partir dessa amarga perspectiva de espraiamento de hostilidades e novas rotas de dor que a Cia Prisma apresenta um espetáculo cujo intento é refletir sobre a temática para combater os atos que a sustentam. A montagem “Des-amor-daçar” estreia nesta quinta-feira (29), às 19h, em apresentação única, por meio do canal do Grupo Expressões Humanas, no YouTube.

Legenda: No palco, os atores Raimundo Moreira e Luisete Carvalho costuram histórias envolvendo as diversas violências domésticas contra a mulher
Foto: Raphael Camarão

Sob direção de Herê Aquino, o trabalho é um projeto recente, nascido da vontade de falar sobre uma questão que se agravou profundamente a partir do cenário pandêmico. “Eu, enquanto diretora de teatro, me movimento com o que me afeta enquanto artista, cidadã e mulher. A vida impõe questões que nos provocam e nos fazem refletir sobre elas. Isso faz parte do fazer artístico”, explica Herê.

No palco, os atores Raimundo Moreira e Luisete Carvalho costuram histórias envolvendo as diversas violências domésticas contra a mulher, transitando entre ficção e realidade com vistas a multiplicar o teor reflexivo e de aproximação com o público. 

A peça integra o projeto #HereAquiNoMundo, apoiado pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult-Ce), por meio da Lei Aldir Blanc. A iniciativa foi realizada em março a partir de uma mostra com espetáculos recentes dirigidos por Herê.

Aspectos

Compreendendo que a violência contra a mulher não deve se configurar apenas na briga entre homens e mulheres, mas suscitando pontos bem mais profundos, a diretora explica que a montagem optou por transformar em texto tudo o que a equipe pensou para o trabalho.

Legenda: Cenário, figurino, iluminação e musicalidade, cada coisa fala por si e possui um significado simbólico no espetáculo
Foto: Raphael Camarão

Nesse sentido, o cenário, o figurino, a iluminação, a musicalidade, cada coisa fala por si e possui um significado simbólico dentro da estrutura de poder patriarcal na qual a sociedade é alicerçada. “No espetáculo, essa estrutura está presente nos mínimos detalhes”, enfatiza a realizadora.

“Ela demarca e molda a nossa maneira de ser e de agir em nossa sociedade. O modelo que nos é imposto afeta homens e mulheres, mas claro que cabe aos homens perceberem seus privilégios, como cabe às mulheres a luta para não se submeterem à estrutura que as oprimem. A luta deve ser de todos, todas e todes”, situa.

É por meio da relação entre a atriz e o ator já mencionados que a peça trama linhas integrantes do cenário, com testemunhos reais de vítimas dessa violência, bem como relatos pessoais vividos pelo elenco no decorrer da vida. 

De acordo com Herê Aquino, o grande desafio foi não tornar o espetáculo um “poço de tristeza”, mas, ao contrário, conseguir tramar as histórias para que elas fossem um estímulo para a busca por um mundo melhor. “Aqui, a arte e a vida se encontram na tentativa de abrir caminhos e experiências que nos tornem melhores enquanto artistas e enquanto pessoas”.

Multiplicidade

As histórias apresentadas no palco são todas verídicas, mas a montagem não se faz somente de relatos. Há uma preocupação de trazer questões que são discutidas a partir dos contos de fadas, das lutas recentes das mulheres, de chavões construídos no seio social que acabam por refletir os preconceitos.

Além disso, entram em cena as ações e movimentações dos atores, que carregam as subjetividades da vida, bem como tantos outros panoramas. São variáveis que se relacionam diretamente até com o título do trabalho, cuja leitura abraça as multiplicidades dessa dinâmica.

“A palavra ‘desamordaçar’ traz no seu significado o ato de retirar a mordaça, libertar-se da proibição de falar ou de censura. Escrita separadamente, ela ressalta a palavra ‘amor’. Infelizmente, em meio à rotina da violência, ele se torna um sentimento confuso que, na maioria das vezes, impede a mulher de agir”, observa Herê.

Ela também sublinha o quanto a temática desenvolvida pela montagem é urgente, merecedora não apenas de reflexões, mas, efetivamente, de ações concretas. “Precisamos agir sobre ela, e a arte não pode se omitir dessa responsabilidade. Encenar esse espetáculo com um casal nos possibilitou tocar o dedo mais forte na ferida e chegar no cerne da questão, que é a estrutura patriarcal”.

Em sintonia com a diretora, Luisete Carvalho, intérprete da mulher na peça, evoca a capacidade de mudar as coisas que o espetáculo detém. “É isso que pretendemos com ele, que seja realmente uma ferramenta, um instrumento de mudança, de transformação, de despertar da sociedade para essas questões tão delicadas e urgentes”, sublinha.

Legenda: Além das histórias, entram em cena as ações e movimentações dos atores, que carregam as subjetividades da vida, bem como tantos outros panoramas.
Foto: Raphael Camarão

Adaptação

Luisete também destaca o fato de a montagem, apesar de retratar uma realidade tão densa, conseguir chegar de modo muito sensível aos espectadores. Tal concretude é chancelada por um desejo de se aproximar o mais possível de quem assiste. Ainda que cause um grande incômodo encarar esse contexto de frente, o mesmo sentimento pode convocar à luta para mudar o entorno.

“Não é possível naturalizar a questão da violência dentro dessa visão patriarcal que a nossa sociedade ainda, infelizmente, continua tendo, mantendo, alimentando, querendo perpetuar. Acho que nossa missão é essa, mostrar que não é por aí, que a gente pode achar outro caminho, mais viável, mais justo, para todo mundo, homens e mulheres”, diz.

Quanto ao que diz respeito ao fazer teatral em tempos de pandemia, a atriz é enfática: são muitos os pontos a serem levados em consideração. “Nesse momento de isolamento, fazer arte em si, qualquer que seja ela, já tem se mostrado um grande desafio. E não foi diferente nesse processo, ainda mais abordando um tema tão urgente”.

Não à toa, além das dificuldades de se encontrar presencialmente e de como viabilizar financeiramente o projeto, veio também a discussão de como abordar um tema que traz tanta dureza e inúmeras amarras de uma forma esteticamente agradável. A resposta encontra-se no próprio desejo de fazer e de mudar a realidade, ressignificando o caminhar artístico.

Legenda: Apesar de retratar uma realidade tão densa, a montagem busca chegar de modo muito sensível aos espectadores
Foto: Raphael Camarão

“A pandemia nos impôs diversos desafios, mas o principal deles foi o próprio fazer teatral. O teatro é a arte da presença e, nestes tempos, foi o que mais perdemos. Então, tivemos todos que nos reinventar, achar o time da interpretação, da marcação de cena e, principalmente, da comunicação com esse espectador que agora está do outro lado da telinha”, percebe Herê Aquino.

“Acho que o teatro virtual é algo que está entre o teatro e o audiovisual. Não é, na essência, nem um nem outro, é uma forma híbrida, algo que ainda estamos descobrindo e experienciando”, conclui.

Serviço
Espetáculo virtual “Des-amor-daçar”, da Cia Prisma
Nesta quinta-feira (29), às 19h, por meio do canal do Grupo Expressões Humanas, no YouTube. Apresentação única.

Você tem interesse em receber mais conteúdo de entretenimento?