Como são os rituais fúnebres das religiões em tempos de Covid-19

Confira visão de 14 representações religiosas sobre a morte e as respectivas cerimônias de despedida com adaptações ao contexto da pandemia

luto na pandemia
Foto: Ilustração: Lincoln Souza

No Brasil de 2021, chegamos a perder mais de 4 mil pessoas por dia para a Covid-19. Enquanto essa reportagem era apurada, vários entrevistados chegaram a relatar as dores das próprias despedidas. Por trás dos “inumeráveis”, estão essas famílias enlutadas, com rituais fúnebres restritos para conter a transmissão do vírus. 

Homenagear aqueles que partiram e, ao mesmo tempo, confortar os que ficaram é parte integrante da cultura de diferentes religiões. A partir disso, elencamos abaixo a visão sobre a morte, os rituais de despedida corriqueiros e as respectivas adaptações ao contexto sanitário de 14 representações religiosas:

Igreja Católica

Para os católicos, a morte é apenas uma passagem para a vida eterna, para a plenitude. Por isso, ‘nós cremos na vida eterna e na feliz ressurreição, quando de volta à casa Paterna com o Pai os filhos se encontrarão’, diz um canto. O ritual fúnebre é denominado de exéquias, uma celebração onde realiza-se a última encomendação ou despedida. É a chamada missa de corpo presente.

No contexto atual da pandemia, esse rituais foram adaptados para evitar qualquer tipo de contágio. A Igreja tem acolhido em suas paróquias e comunidades os nomes dos falecidos, via chat, mensagem pelo WhatsApp, telefonemas de suas famílias, e colocados nas intenções das celebrações da Santa Missa. Outra realidade é aumento no atendimento pessoal e solidário às famílias enlutadas, sobretudo diante da rapidez da morte, a não possibilidade de despedida e a pressa com o sepultamento.

Fonte: Padre Francisco Ivan de Souza, Pároco da Paróquia e Santuário Nossa Senhora de Fátima

Igreja Evangélica Assembleia de Deus

A morte é vista como uma passagem para a eternidade, com Deus ou sem Deus. Essa escolha é feita em vida, pela ‘porta’ que se chama Cristo. O ritual fúnebre consiste em uma celebração, geralmente na Igreja, com louvores e orações  pela família  do falecido. Esses louvores estão previstos no hinário oficial da igreja: Harpa Cristã.

Em função  das restrições da pandemia, vem sendo realizada apenas a visita de uma pessoa da Igreja ao lar da família, a fim de trazer uma palavra de consolação. Recomenda-se que, não sendo possível se fazer presente, os amigos, parentes e irmãos na fé tragam uma palavra de conforto, façam uma oração, comuniquem os sentimentos por meio das mídias, e procurem ajudar até financeiramente.

Fonte: Moacir Paula de Sousa, Pastor Presidente da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Messejana

Espiritismo

Para os espíritas, a morte é o retorno à verdadeira vida ou à vida espiritual. A forma como a desencarnação (termo usado para referir-se à morte do corpo físico) é encarada dá o conforto da certeza do reencontro no plano espiritual. A Doutrina Espírita é isenta de rituais, mas  quando da partida de alguém, eles se reúnem diante da ‘indumentária física’ dessa pessoa e oram por ela, trazendo bons pensamentos e criando vibrações de paz e tranquilidade.

Diante da pandemia, os praticantes reforçam que não é a presença física que nos aproxima dos espíritos que amamos, mas a presença por meio do pensamento e das vibrações de amor direcionadas a quem perdemos fisicamente. O grupo espírita tira um dia por semana para vibrar por todos que estão partindo e também por aqueles que aqui ficam, para que tenham a fé robustecida. Isso vem sendo  feito por diversas casas espíritas pelo Brasil.

Fonte: Fernando Bezerra, vice-presidente do Instituto de Cultura Espírita do Ceará.

Testemunhas de Jeová

Acreditam que, quando morremos, deixamos de existir. Assim, os mortos não pensam, não fazem nem sentem nada. Tanto em relação a humanos como a animais, seguem o seguinte ensinamento da Bíblia: “Todos eles vieram do pó e todos eles retornam ao pó.” (Eclesiastes 3:19, 20). Sendo assim, não têm um ritual fúnebre. Ao falecer um ente querido, a família pode realizar o velório ou não, à sua vontade. 

Caso desejem, um ancião (nome que se dá ao líder espiritual da Congregação das Testemunhas de Jeová) realiza um discurso bíblico por ocasião do velório ou após o sepultamento. O discurso tem por objetivo consolar a família enlutada. Nele, são lembrados os conceitos da Bíblia sobre a morte e também o que a Bíblia ensina sobre a esperança para os que faleceram, como o ensino da ressurreição. No contexto de pandemia, esse discurso vem sendo feito por videoconferência por meio dos aplicativos de vídeo chamada, assim como já são feitas as reuniões semanais.

Fonte: Alex Oliveira de Moura, Porta-Voz Regional das Testemunhas de Jeová 

Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Mórmons)

A morte é uma parte essencial do plano de salvação do Pai Celestial (ver 2 Néfi 9:6 Livro de Mórmon p.81). Todos precisam passar pela experiência da morte para receber um corpo aperfeiçoado e ressurreto. Um propósito essencial do funeral de um membro da Igreja é ensinar o plano de salvação, particularmente a Expiação e a Ressurreição do Salvador, e prestar testemunho Dele. 

Os líderes e membros da Igreja devem procurar fazer com que as cerimônias realizadas por ocasião do falecimento de uma pessoa sejam respeitosas e solenes e proporcionem uma experiência espiritual a todos os participantes. Essas cerimônias geralmente são realizadas sob a direção do bispo. No ato do sepultamento, é feita uma última oração especial, na qual a sepultura é consagrada como um lugar de repouso para o corpo do falecido. Mas, na impossibilidade de realizar a cerimônia devido às regras sanitárias da pandemia, os religiosos se concentram apenas no auxílio aos familiares.

Fonte: Elder Simplício, Setenta da Área Brasil

Candomblé

A morte representa o fim do corpo físico e o início da vida espiritual em um novo plano. Assim, o espírito não morre. Com um ritual fúnebre próprio, os praticantes realizam no Ilê (casa) Axé (espaço sagrado) o desligamento simbólico do corpo físico e a conscientização do espírito de que ele não pertence mais ao mundo carnal. 

Esse ritual segue uma cronologia desde o falecimento até o enterro do corpo, seguido por cerimônias de um mês, três meses e um ano. Desde o momento em que é velado, até o percurso ao cemitério e o sepultamento,  acontecem algumas entonações litúrgicas da religião. Esses cânticos reforçam para o espírito que a missão dele na terra terminou. Por ocasião da pandemia, o ritual é feito sem a presença do corpo.

Fonte: Babalorixá Shell Santos, do Ilê iba áse kpossun aziri

luto na pandemia
Foto: Ilustração: Lincoln Souza

Umbanda

Para o umbandista, o fator morte faz parte da caminhada chamada vida. Há segmentos da religião que não usam a palavra “morte”, e sim a palavra "partida", quando alguém cumpriu sua caminhada terrena. O momento da partida de uma pessoa que faz parte do terreiro exige uma liturgia própria, e, no caso da Umbanda, vai pelo fundamento sob o qual o terreiro foi tombado. 

Essa liturgia é composta de rituais, cada um realizado conforme a função da pessoa no terreiro, existindo o momento em que todos podem participar, com práticas semelhantes à católica, e também aquele em que somente devem participar os iniciados na religião. Neste período de pandemia, a Lei de Umbanda vem sendo cumprida conforme rege a cartilha (que não pode ser publicizada), mas respeitando a orientação das autoridades de saúde.

Fonte: Mãe Gardênia d´Iansã, do Centro Espírita de Umbanda Jesus Maria José

Indígenas Pitaguary

A crença é de que a morte representa a volta para um mundo melhor, com muita mata, luz, pássaros e água em abundância. Os espíritos dos antepassados recepcionam aquele que fez a passagem. Geralmente, os indígenas cantam e tocam (com tambores e maracás) para os bons anjos receberem o espírito e clamam a Deus para que ele seja visto. 

Eles entendem que o cocar é uma forma para que Deus identifique-os e, chegando ao paraíso, serão preparados para nascer de novo. Durante o velório, realiza-se uma mistura de ritos católicos (como a leitura do Salmo 23, por exemplo) com toadas indígenas passadas de geração em geração. Diante da pandemia, porém, foram suspensos os rituais presenciais, e cada um em sua casa realiza a prática, que também pode ser feita online.

Fonte: Pajé Barbosa Pitaguary, da aldeia Pitaguary de Pacatuba e Maracanaú

Judaísmo

O Rabino Abraham J. Heschel definiu a morte como o “processo final do mundo das ações” e a tahará como a preparação para essa viagem final. Assim como a vida tem seus ciclos e rituais, a morte pode ser vista como uma mudança para a vida eterna. O ritual fúnebre dos judeus começa com a Taharah.  Banha-se o corpo com água - homens fazem o de um homem e mulheres fazem o de uma mulher. Depois é colocada a mortalha, chamada Tajrijim, semelhante à usada pelos sacerdotes na época do Templo de Jerusalém. Em seguida, o corpo é colocado num caixão de madeira simples, sem alças de metal, plástico ou similares, simbolizando a igualdade de todos na hora da morte.

Antes do enterro os enlutados próximos, cônjuge, pais, filhos e irmãos, fazem a keriá - rasgam a parte superior da roupa que estiverem vestindo. Isso simboliza que a morte é um "rasgar" do corpo que deixa de existir. Em casa, antes de iniciar a Shivá - os sete primeiros dias de luto no lar- , espelhos e objetos que geram reflexos são cobertos. Em até um ano se coloca a lápide na sepultura. Durante 11 meses, é recitada uma prece especial para a elevação da alma, o Kadish. Por conta da pandemia, nenhum ritual direto no corpo está sendo executado, mas as ações que não envolvem esse contato permanecem sendo realizadas.

Fonte: Saulo Tavares, voluntário na Chevra Kadisha de Fortaleza, entidade que cuida dos sepultamentos nas comunidades judaicas

Islamismo

Entendem que a vida terrena é um teste e uma prova para humanidade e, após a morte, haverá a Vida Eterna, com boa recompensa a quem não adorar nada além de Allah (Allah é o nome em árabe para se referir a Deus, Todo-Poderoso, o Criador de tudo que existe) e seguir o exemplo dos Mensageiros, como Abraão, Moisés, Jesus, Muhammad, entre outros - ou com má recompensa a quem se afastar disso. No ritual fúnebre, geralmente o corpo é lavado, enrolado em panos brancos, levado para a mesquita, onde é feita a oração fúnebre, e então é encaminhado ao cemitério onde é enterrado.

Ouça uma oração fúnebre em árabe e, em seguida, a versão em português:

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O processo é rápido - não há um velório, vigília noturna ou algo parecido. Além disso, as pessoas da comunidade devem dar apoio à família do falecido da maneira que puderem. Diante de situações excepcionais como a pandemia, é possível que não haja a lavagem do corpo e a oração fúnebre seja feita com a ausência do falecido e fora da mesquita. O Islã valoriza aquilo que pode impedir que um mal seja causado e aquilo que possa trazer bem-estar à sociedade em situações particulares. Esta não é uma orientação "nova". 

Ouça outra oração fúnebre em árabe e, em seguida, a versão em português:

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Fonte: Yahya Simões, membro da comunidade islâmica de Fortaleza

Budismo

ZenBudismo: Para o budismo a morte não é uma extinção, mas uma transformação. Cientificamente obedece à causalidade, é como a Lei de Lavoisier: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. O ritual pode ter início antes mesmo da morte de uma pessoa, com o acompanhamento de um monge/monja aos momentos finais, com escuta e diálogo, preces, ou com a recitação do “verso do arrependimento”; há a possibilidade de um ritual chamado de “prece do travesseiro” ou “prece ao pé do ouvido”, uma conversa sussurrante e resguardada entre monástico e a pessoa na sua terminalidade.

Em condições normais, após a morte é realizada a cerimônia fúnebre, em um templo ou no velório do cemitério, com a presença da família e convidados. Depois da cerimônia, há um cortejo com preces e toque de um sino até o túmulo e feitas oferendas de incenso e preces contínuas durante o enterro. Logo após, há palavras dirigidas para o conforto dos familiares e a todos que estão presentes. No budismo há uma cerimônia de sétimo dia, cerimônias semanais até o quadragésimo nono dia após o falecimento, e mensais e anuais daí em diante. Com a pandemia, todo o ritual passou a ser realizado com preces à distância ou não presenciais (‘online’), utilizando aplicativos de comunicação por áudio/vídeo, o que, segundo a crença, não diminui a sacralidade da liturgia realizada, e o respeito que é devido diante da morte.

Fonte: Ryozan Sensei, Monge Zen Budista da Comunidade Zen Budista

Budismo dos Himalaias: Nessa corrente da tradição budista os "lamas", sacerdotes religiosos, vão na casa da pessoa que está próxima de morrer e, entre outras formas de cuidado com esta pessoa, leem instruções contidas em obras como o Livro Tibetano dos Mortos, para que ela possa se relacionar de maneira consciente com a experiência da morte. Em certos casos também se realiza a prática meditativa do 'Buda da Luz Infinita' (Amitabha), a partir de uma técnica de meditação conhecida como "phowa", na qual o praticante realiza a transferência de sua própria consciência na hora da morte, direcionando-a para reinos elevados de existência e para um renascimento em condições favoráveis.

Quando a pessoa falece, é sugerido que ninguém toque o corpo. Há um cuidado para tornar aquele momento silencioso, harmonioso. Então, é iniciado o processo de cremação e as cinzas são devolvidas à terra, água e ar, na simbologia dos quatro elementos. No Brasil, ainda não há a tradição cultural enraizada sobre o rito fúnebre tal como é feito na região dos Himalaias, embora práticas para o momento da morte sejam realizadas pontualmente por grupos de praticantes budistas.

Fonte: Lama Lhawang, presidente e diretor espiritual da Comunidade Budista Drukpa Brasil 

luto na pandemia
Foto: Ilustração: Lincoln Souza

Seicho-No-Ie

Consideram que o espírito é imortal porque na ‘Realidade Prima’ a morte não existe. Esse espírito vem à terra usando uma espécie de “vestimenta” chamada “corpo carnal”. E, depois de cumprir o prazo de vida terrena, ele tira essa vestimenta carnal e vai para o mundo espiritual. Nos rituais fúnebres, são realizadas leituras da sutra sagrada Chuva de Néctar da Verdade. Esse ritual tanto pode ser à distância como na presença do corpo.

A Sutra Sagrada Sagrada foi escrita por Masaharu Taniguchi em forma de poema, sob inspiração divina, e a leitura de seus versos ilumina os espíritos dos antepassados, os quais, despertando para a Verdade “Homem, filho de Deus”, tornam-se espíritos protetores da família. Durante a pandemia, respeitando as leis do mundo físico e para atender a procura de adeptos na realização dessa cerimônia, adaptou-se o ritual presencial para o virtual. Além disso, recomenda-se aos familiares enlutados o envio anual do nome do falecido para receber oração no Santuário Hōzō  que a Seicho-No-Ie tem em Ibiúna (SP).

Fonte: Olga Maria Nunes de Melo, Preletora da Seicho-No-Ie em Fortaleza/CE

Hinduísmo 

Seguem o que diz o Bhagavad Gita (texto religioso hindu): “Assim como a alma incorporada continuamente passa, neste corpo, da meninice à juventude, e daí a velhice, a alma similarmente passa para outro corpo, na morte”. Logo, entendem o falecimento como uma passagem, uma coisa inevitável, a interrupção da ilusão de que se é corpo e a compreensão da alma eterna. A partir disso, consideram que é possível parar essa repetição de nascimento e morte, que se chama samsara.

Na Índia, os rituais fúnebres incluem a cremação dos corpos. A família fica de luto, não pode ir a templos, tem que permanecer reclusa no período considerado de purificação. Fazem também a Shraddha, cerimônia religiosa performada por sacerdotes, na qual se oferece comida e doação às pessoas na intenção de fortalecer a caminhada. Diante da pandemia, não há adaptações previstas.

Fonte: Nitya Sukhi Romero, facilitador do Hinduísmo em Fortaleza







 

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