Para controlar inflação, alta da Selic vai dificultar acesso ao crédito, apontam economistas

Mercado vem se ajustando à expectativa de elevação da Selic e aumentando taxas de financiamento

Legenda: Taxas para financiamento do crédito imobiliário e de automóveis já voltaram a subir com expectativa de aumento da Selic
Foto: Shutterstock

Pela primeira vez em seis anos, a taxa básica de juros Selic voltou a subir e passou de 2% para 2,75% ao ano. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central foi divulgada nesta quarta-feira (17). Com a decisão, a Selic subiu pela primeira vez desde julho de 2015, quando tinha sido elevada de 13,75% para 14,25% ao ano.

Embora o mercado esperasse uma alta da taxa para conter o aumento da inflação no País, a mudança foi acima do que era previsto pela maioria dos analistas (entre 0,5 e 0,25 pontos percentuais). Após um ciclo de cortes iniciado em 2016, a Selic chegou ao menor patamar histórico, de 2% ao ano, em agosto de 2020, influenciada pela recessão gerada pela pandemia de covid-19. 

“O próprio Governo já está estimando a inflação esse ano em torno de 4,4%, ou seja, está muito próximo da meta de inflação. O que significa dizer que o Banco Central deve agir nesse momento para conter esse crescimento acelerado dos preços, principalmente dos produtos alimentares. É um momento de rearranjo da taxa Selic, visto que ela teve uma queda muito forte nos últimos meses e ficou nesse patamar muito baixo”, analisa o economista Ricardo Coimbra, presidente do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon).  

O economista Alex Araújo ainda aponta que, além da pressão da inflação, o aumento da taxa reage ainda ao enfraquecimento do real em relação ao dólar.  

“Esse debate sobre a necessidade do aumento ganhou uma dimensão muito forte ao longo dessas últimas duas semanas porque tem vários economistas que acreditam que o problema mais sério é o do câmbio. Inclusive ele estaria ajudando a gerar a inflação. Talvez fosse mais eficiente pro Banco Central ter uma ação direta no câmbio, porque não elevaria o custo de financiamento no Brasil, do que ajustar a taxa de juro”, aponta Araújo.  

Financiamentos mais caros  

Com a expectativa de alta dos juros, o mercado já se antecipou e vem aplicando o reajuste nas taxas de financiamento nos últimos três meses, segundo o economista   

“Quando o mercado se ajusta, a gente já percebe automaticamente um alinhamento no preço pro consumidor. A maioria dos bancos já ajustou. Todas as taxas para operações acima de um ano já estão próximas de 2% ao mês. Há três meses, ficava abaixo de 1,5%. Automóvel, por exemplo, já está mais caro. O consumidor já vem sentindo esse repasse. Nos últimos três meses, a gente viu sucessivamente esse mercado se ajustando”, expõe Araújo.  

Esse cenário deve impactar o acesso ao crédito e complicar a situação dos endividados, diz Ricardo Coimbra. “Quando você já tem uma taxa de desemprego elevada, à medida que você aumenta juros vai conter mais o consumo. E também aquelas pessoas que já estão numa situação de endividamento, pode ser que sinta um pouco mais de dificuldade de sair dessa situação”, avalia Coimbra.    

Já Alex Araújo pondera que a situação é particularmente difícil para as empresas, que terão que enfrentar um crédito mais caro em um momento complicado de suspensão das atividades. “Talvez o impacto maior seja para as empresas porque essa necessidade de capital de giro e investimento fica mais caro mesmo. Mas para as pessoas físicas, esse repasse já aconteceu, tanto através do banco, como através das outras instituições que financiam.”  

Assim como projetado pelo mercado, o economista prevê a Selic chegue a 4,5% ao final do ano. “A gente iniciaria agora o movimento de subida com essa expectativa de que no final do ano ela chegaria em 4,5%, porque a inflação vai ficar muito próxima de 4% no final do ano. Você teria uma taxa real entre 0,5% a 1% do acumulado de 2021".  

Tendência  

Para alcançar essa estimativa, a previsão é que a pressão inflacionária diminua ao longo no ano, principalmente no segundo semestre, destaca o presidente do Corecon-CE.

“A depender também da quadra chuvosa, principalmente na região produtora de grãos e alimentos como o pasto para o gado. A gente precisa ter um volume de produção semelhante ou um pouco maior do que a gente teve ano passado para que também possa, junto com a taxa Selic, arrefecer um pouco a elevação dos preços.”  

Coimbra também ressalta que o aumento da Selic pode voltar a estimular o investimento em renda fixa para os mais conservadores. 

“Tendência de crescimento inflacionário com expectativa de crescimento nos juros ao longo do ano de 2021 pode gerar expectativa de algum tipo de aplicação em renda fixa, no pós fixado. Pode ser que você gere aí alguns estímulos, mesmo que com taxas ainda num patamar baixo, mas pode ser que uma parcela das pessoas que são mais conservadoras tenha esse direcionamento”, diz. 

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