Dólar comercial vai chegar a R$ 6? Confira o que preveem economistas

Gerenciamento da crise e incertezas políticas indicam alta volatilidade da moeda, com tendência de alta no curto prazo

Legenda: No acumulado da última semana, o dólar comercial caiu 2,15%, mas fechou a sexta (12) em alta de 0,30%, a R$ 5,56
Foto: Agência Brasil

Após encerrar 2020 com uma valorização de quase 30% em relação ao real, o dólar comercial continuou subindo em 2021 e se aproximou, na semana passada, do patamar de R$ 6. Em meio ao atual cenário político-econômico e com os impactos da crise sanitária no País e no mundo, especialistas avaliam ser cada vez mais provável que a marca seja alcançada - e em um curto prazo.

Um dos fatores que levam a esse pensamento é a nova configuração que deve ter a corrida eleitoral de 2022 depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, anulou as condenações envolvendo o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Além das incertezas econômicas e da questão sanitária, nós vimos aí a entrada do ex-presidente Lula no tabuleiro político, então a polarização tende a se acentuar", explica Allisson Martins, coordenador do curso de Ciências Econômicas da Universidade de Fortaleza.

Para ele, é justamente a acentuação da polarização em um curto prazo que deve levar o dólar a bater em breve o patamar de R$ 6. "Essa polarização deve trazer uma alta volatilidade da moeda norte-americana, mas uma volatilidade com pressão de alta. É o que está no radar das principais consultorias econômicas e pessoas especializadas que tratam a temática", avalia Martins.

Cotação em alta

A anulação das condenações de Lula, na segunda-feira passada (8), teve efeito imediato sobre a cotação da moeda dos EUA ante o real, que subiu a R$ 5,778, aumento 1,67%. Ao fim da semana, porém, o dólar comercial acumulou queda de 2,15%, a R$ 5,56, maior desvalorização semanal desde a semana iniciada de 30 de novembro de 2020

Já nesta segunda (15), a moeda opera em alta com expectativa para a "super quarta", quando serão definidas as políticas monetárias no Brasil e nos Estados Unidos, com expectativa de aumento da taxa Selic. Às 15h02, o dólar comercial era cotado a R$ 5,61, com alta de 0,96%. 

Em Fortaleza, na sexta-feira (12), o dólar turismo era vendido por até R$ 6,45, já considerando o IOF. Hoje, já podia ser encontrado por R$ 5,97.

Médio e longo prazo

Allisson Martins explica que projetar o dólar em um médio e longo prazo depende de todos esses fatores.

"Tudo dependerá de como essas peças políticas irão se movimentar e da própria pandemia. Se caminharmos para um cenário de vacinação aumentando e se a temperatura política se estabilizar, pode ser que ocorra um arrefecimento das pressões, levando o dólar a cair. Por enquanto, porém, a expectativa é de volatilidade com pressão de alta".

"Existem muitas dúvidas sobre como a gente vai conseguir vencer a pandemia, sobretudo em função do atraso da imunização, então há a questão sanitária e propriamente econômica, que se somam às incertezas políticas", afirma o coordenador do curso de Ciências Econômicas da Unifor.

Ambiente de incertezas

O presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-CE), Ricardo Coimbra, destaca que a forte alta do câmbio nos últimos 12 meses  ocorreu não somente em função do avanço do coronavírus, mas da gestão de enfrentamento à pandemia.

"Principalmente no que se refere ao forte crescimento do endividamento público e o mercado financeiro não têm visualizado medidas no sentido de diminuir esse crescimento, ou seja, mecanismos de controle fiscal mais rígidos".

Ainda sobre a atuação do governo, Coimbra pontua que as incertezas políticas foram aprofundadas "por um direcionamento de maior populismo e intervenção na economia", lembrando das recentes indicações do Governo Federal para o conselho da Petrobras.

Eleutério também acredita que a volta do ex-presidente Lula ao jogo eleitoral também joga incerteza sobre a cena política.

"Será que Lula, efetivando a sua candidatura, vai dar um direcionamento de que o seu governo seria semelhante ao do primeiro mandato? É uma das incógnitas que podem gerar incerteza no ambiente interno. Em um primeiro momento, quando foram anuladas as condenações do Lula, o câmbio subiu, mas logo após o seu primeiro discurso, se viu uma calma maior do mercado e arrefecimento da taxa", comenta.

"Os discursos pré-eleitorais dos principais candidatos e o direcionamento da vacinação, controle das contas públicas, atuação do Banco Central e aumento da taxa de juros podem indicar uma aproximação dos R$ 6 ou um distanciamento", frisa Ricardo Coimbra.

"Também é provável que um aumento da taxa básica de juros, a Selic, volte a crescer devido ao crescimento inflacionário. O Banco Central também pode se utilizar de suas reservas e influenciar o mercado com suas operações de swap", pondera o economista.

Coimbra lembra que o andamento de reformas estruturais, como a tributária e a administrativa, poderia reduzir o impacto. "Pode ser outro aspecto interessante, aliado ao andamento da imunização".

Ambiente externo

O presidente do Corecon-CE também reforça ser importante lembrar dos efeitos do cenário externo na flutuação do câmbio. "É interessante observar talvez uma possibilidade de elevação dos juros nos Estados Unidos, devido ao crescimento inflacionário por lá. Isso também pode ser um fator negativo, vai depender de como será a postura americana no ambiente da política monetária", diz.

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