Mercado aéreo: "Objetivo é retomar tudo que tínhamos e crescer mais", aponta Eduardo Sanovicz

Diálogo Econômico: Presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas destaca o potencial do mercado aéreo cearense e o desafio de recuperar a imagem do País no exterior

Eduardo Sanovicz, presidente da Abear, é o entrevistado desta semana do Diálogo Econômico
Legenda: Eduardo Sanovicz, presidente da Abear, é o entrevistado desta semana do Diálogo Econômico
Foto: Arte sobre foto divulgação

As companhias aéreas estavam a caminho de recuperar o fôlego após brutal redução da malha aérea em abril do ano passado, quando a segunda onda da pandemia de Covid-19 chegou frustrando expectativas do setor. Neste mês, a média diária de voos no Brasil despencou a 40% da malha aérea do início de março do ano passado, proporção que tinha chegado a até 75% em novembro, segundo dados da  Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear).

E até o coronavírus desembarcar no País, o mercado da aviação civil despontava vertiginosamente no Ceará. Desde os planos da TAM (hoje Latam) de construção do hub no Nordeste, passando pela concessão do Aeroporto de Fortaleza à iniciativa privada e pela instalação do hub das companhias Gol, Air France e KLM, o Estado viu sua malha aérea se capilarizar e o fluxo de viajantes crescer a um ritmo sem precedentes.

Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, o presidente da Abear, Eduardo Sanovicz, destaca que a partir da vacinação da população e retomada do fluxo de passageiros - o que deve acontecer rapidamente a partir do momento em que as pessoas se sintam seguras para sair de casa -, toda essa estrutura tem potencial para ser resgatada. Mas vai depender da demanda que existir.

Para além de todos as dificuldades econômicas que cercam o segmento, outro desafio a ser enfrentado será o de resgatar a imagem do País - hoje o segundo do planeta com mais restrições no exterior para a entrada de viajantes. A solução, segundo Sanovicz, passa por ações de marketing para reposicionar o mercado brasileiro, o que não será nada fácil.

Confira entrevista com Eduardo Sanovicz na íntegra

Legenda: Antes de chegar à Abear, Sanovicz foi presidente da Embratur (2003 a 2006), sendo responsável pela implantação do Plano Aquarela e pela criação da Marca Brasil
Foto: Reinaldo Jorge

Qual é o impacto da segunda onda de casos de Covid-19 para as companhias aéreas, já fragilizadas por um ano de pandemia?

Na primeira onda, nós traçamos um programa de trabalho com três grandes eixos. O primeiro era um conjunto de medidas que a gente precisava enfrentar, de caráter muito interno, pouco visíveis para o consumidor. Era revisão de contratos, redução de custos, revisão de leasing de aeronaves, revisão de jornadas, a reprogramação de uma série de pagamentos, tudo isso para dentro. Esse primeiro pacote ficou visível para fora com os acordos que nós fizemos com todos os sindicatos, ainda antes da MP 936, que reduziu jornadas e salários em troca de garantia de emprego por um período de aproximadamente um ano.  

O segundo bloco foram medidas que envolveram a reprogramação de uma série de débitos, a implantação da malha essencial junto à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), o acordo que a gente fez que possibilitou todo mundo a remarcar (as viagens) no limite por até um ano sem custo, e isso permitiu que a gente reprogramasse toda uma série de reembolsos. Essa parceria, esse debate lideraram a tônica desse segundo momento, que envolve a relação com o Ministério da Infraestrutura.  

E o nosso terceiro bloco, que não andou, que foram as demandas de caráter econômico, das quais a mais importante era uma linha de crédito, solicitamos ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) que não virou (realidade). Ainda assim, nós atravessamos a primeira onda.  

Quando chegamos ao final do ano, num processo de retomada, tem um destaque muito importante segundo bloco, que é uma relação com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) por meio da qual a gente constrói os protocolos de segurança sanitária. Foi o que permitiu as pessoas voltarem a bordo porque se conscientizaram, viram que voar era super seguro.

Com isso, no fim do ano, chegamos a 75% (da malha aérea anterior à pandemia) e havia, de fato, uma leitura nossa, entre novembro e dezembro, que esse ano seria, talvez, de no mínimo a gente ficar naquele patamar ou eventualmente de forma lenta, retomar. Ora, a segunda onda acabou com isso.  

O recrudescimento da pandemia, principalmente do número de óbitos e de internados, levou as pessoas, corretamente, a se preservarem. As pessoas foram cuidar da sua saúde. Some a isso, um fato de que praticamente em todas as capitais do País a rede de saúde está lotando, a pública e a privada, então é natural que as pessoas voltassem a se cuidar.

Com isso, a nossa demanda, que já não contava com o segmento de eventos nem o corporativo, também sofre um impacto enorme no segmento lazer, que era o único que ainda estava voando um pouco. As pessoas tinham uma semana, duas, quatro, resultado: a malha de março está fechando a menos de 49%-48% do que era antes da pandemia e a malha de abril vai ser pouco maior de um terço, vai ficar aí próximo dos 39% do que era antes da pandemia.  

Quais são os pleitos de auxílio ao setor ao Governo Federal que ainda não foram atendidos?  

Legenda: Falta de políticas de enfrentamento à pandemia voltadas ao mercado aéreo reduz competitividade do setor, aponta Sanovicz
Foto: Divulgação

Não pedimos auxílio. Nós colocamos um conjunto de medidas pra enfrentar a crise. Não estamos pedindo ajuda. Eu evito essas expressões auxílio, apoio. Eu não gosto dessas expressões, acho que elas não são colocadas de forma adequada. É um programa de enfrentamento à crise. Nós pedimos ao governo uma parceria no programa de enfrentamento à crise.

Porque para nós é fundamental entender que nós temos que estar sempre muito alinhados com o que acontece no resto do mundo. Dos 20 maiores grupos de aviação do planeta, 15 foram objeto de alguma decisão de seus governos em relação à crédito ou capital. Em alguns lugares, foi dinheiro a fundo perdido, como nos Estados Unidos. Em outros, os governos compraram ações das empresas, fizeram empréstimos. Depende do país.  

Onde isso não aconteceu? Aqui no Brasil. Isso nos torna menos competitivos, inclusive no momento do retorno. Veja, por exemplo, o Ceará. Tanto tempo nós ficamos investindo, o setor inteiro, para ampliar a conectividade internacional do Ceará. A última vez que eu fui ao Ceará, foi pra celebrar a chegada da Air France/KLM em um acordo com a Gol.

Quando a gente não tem demanda interna, você compromete a conectividade externa. O enfrentamento à pandemia no Brasil gerou uma consequência na nossa imagem internacional, hoje o brasileiro é o segundo turista mais rejeitado do planeta. É (primeiro) África do Sul, depois nós, depois Inglaterra. Isso afeta diretamente a nossa conectividade. Então, todo gesto tem consequências. 

Como essas restrições de outros países a passageiros com origem no Brasil afeta a retomada desse mercado? 

Nós vamos ter que reconstruir (a imagem do País) por meio de ações de promoção e marketing, ações de relações públicas. Mas, principalmente, por uma ação de comunicação muito forte, unificada no país inteiro, a imagem do Brasil no planeta. É simples, quer dizer, simples não. Objetivamente, não é simples, isso é muito complicado. Mas, é possível. É um desafio, é um trabalho que tem que ser enfrentado.  

O Brasil já fez isso antes. Se você lembrar no início da década de 2000, foi um trabalho enorme de reposicionamento da imagem do Brasil no exterior, conduzido pelo turismo, pela Embratur, em parceria com vários estados, o Ceará teve uma participação importantíssima nisso, naquele tempo me recordo bem.  

E quais são os principais obstáculos para que o mercado aéreo possa ter mais competitividade no Brasil hoje?  

A nossa avaliação é que as medidas mais importantes do ponto de vista da infraestrutura e da regulação já estão tomadas ou em encaminhamento. Nós somos muito reconhecidos ao Ministério da Infraestrutura e ao processo de protagonismo que eles tiveram neste ano, porque a partir da infraestrutura foram se somando a Anac, o Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo), a Anvisa, o Ministério do Turismo, a Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária). Então, desse ponto de vista, nós estamos nos sentindo bastante bem atendidos.

Aonde nós estamos, ainda, com uma agenda pendente, é na economia. Uma linha de crédito ficou pendente, retornar o imposto de renda do leasing, a sua situação histórica de um dos últimos 25 anos é um outro tema pendente, a liberação do fundo de garantia (FGTS) para os trabalhadores que estão em licença ou com salários reduzidos, também é um tema pendente. Eu diria que hoje as nossas grandes pendências estão em decisões no âmbito da economia.  

Agora, não tem muito como escapar do seguinte: o grande tema pra nós é retomar a demanda. Não inventamos o voo - eu vou voar de Fortaleza ao Rio na hora que as pessoas que querem viajar de Fortaleza ao Rio voltarem a se apresentar para voar e começarem a procurar por voos. Isto só acontecerá quando elas se sentirem seguras para sair de casa, pegar um táxi ou um transporte coletivo, ir ao aeroporto, comer um lanche.

No avião, o voo em si é a parte mais segura do processo, tem filtro HEPA (sigla em inglês para Alta Eficiência na Retenção de Partículas), máscara, toda uma regra dentro do avião. Tecnicamente, se garante que é seguro. Mas essas pessoas não estão seguras para sair das suas casas. Na realidade, a grande expectativa que nós temos é com a implementação e a aceleração de um programa de vacinação.

Daqui até lá, precisamos manter o mesmo rigor que a gente tem a bordo: ninguém pode tirar a máscara, suspendemos serviço, estamos com os filtros todos funcionando ligados, a higienização dos aviões foi quintuplicada. Esse rigor precisa ser mantido em todo o espaço, antes e depois do voo, com as medidas de prevenção necessárias.  

Considerando esse cenário, já há uma perspectiva de quando a malha aérea poderá voltar a crescer? 

Legenda: Segundo o presidente da Abear, malha aérea deve continuar bastante reduzida pelo menos até o fim do primeiro semestre
Foto: Reinaldo Jorge
 

Nós avaliamos que até o meio do ano esse cenário deve continuar com uma malha bastante reduzida, em consequência de uma demanda bastante reduzida, por conta da reação das pessoas ao momento atual da pandemia. A mudança nesse processo só vai se dar com a massificação da vacina. Vacinação em massa essa é a solução do processo. Enquanto isso, prevenção e cuidado. Esse é o programa.  

O Brasil está atrás de outras regiões planeta. As empresas brasileiras estão atravessando com muita dureza, com muita luta, mas vamos atravessar, vamos sair do lado de lá. Agora, a retomada, sua velocidade, o seu vigor, dependem do tamanho com o qual nós chegamos do lado de lá e com que estrutura nós contaremos para o processo de retomada. Com que ambiente econômico, com que ambiente de consumo, com que ambiente de negócios, com que ambiente tributário. E por aí vai.

E como o senhor avalia que o mercado do Ceará, que recebeu muitos investimentos do setor aéreo nos últimos anos, deve responder?  

O Ceará foi um dos estados que respondeu de maneira mais rápida e efetiva - um dos, não foi único, mas foi um dos estados que respondeu de maneira bastante efetiva - às nossas iniciativas de mercado. Construir um hub maior, construir conectividade internacional, fazer as parcerias com o Governo do Estado no sentido de rever as políticas de ICMS, você tem ações da Secretaria de Turismo do Estado, no sentido da promoção. Então, você tem aí um Estado que responde rápido e responde bem.

Portanto, eu acredito que vale o conceito geral, ou seja, na medida em que você consiga reconstituir no Estado um clima de segurança para as pessoas, eu creio que a resposta de retomada de demanda vai ser rápida, no mesmo ritmo que foi a resposta das iniciativas que a gente tomou lá atrás.  

Antes da pandemia, o mercado aéreo brasileiro estava constituindo novos hubs regionais, como no Ceará, frente à demanda. Agora, com o encolhimento da malha aérea, é natural que os voos se concentrem nos principais hubs do País no Sudeste, como estamos vendo. Com a retomada, aquele cenário deve ser reconstituído?  

O nosso objetivo é retomar tudo que nós tínhamos e mais, se a gente puder, crescer além do que já tínhamos, porque a aviação vive de crescer. Se a gente se para, as coisas se complicam. Todas as empresas são de capital aberto, precisam entregar resultados. Então, o objetivo é esse. Como é que a gente vai construir esse objetivo? Na medida em que a gente sentir a reação em cada região. Pode ser que o volume de retomada da cidade A e da cidade B não se deem da mesma forma, mas não será por uma decisão nossa, nós não tomamos a decisão, nós reagimos a um cenário.

Se a preocupação é entender quando o Ceará retoma tudo o que tinha, será quando o Ceará começar a demonstrar uma retomada de todas as atividades que apresentava.  

Vou te dar um exemplo importante: o segmento de eventos é fundamental no nosso portifólio. Quando que a gente vai ter os eventos retomando? É uma resposta que a gente não tem ainda. Na hora que tiver, você imagina quantas milhares de pessoas vão pegar avião pra Fortaleza. É claro que Canoa Quebrada segue aí, os atrativos turísticos todos estão aí, mas as pessoas precisam se sentir seguras: “se eu ficar doente em Fortaleza, será que tem hospital pra mim?” São perguntas que na hora que começarem a ser respondidas de forma positiva, a demanda reage muito rápido.

Veja o que aconteceu no passado. Chegamos a 8% (da malha aérea) em abril. Quando chegou em novembro, em sete meses, já estávamos com 75%, multiplicou por dez vezes em oito meses. Então, é rápido reagir, mas os fatos têm que ser muito objetivos.  

Temos que reconhecer o que construímos no estado do Ceará nesses anos. As notícias sobre aviação nessa praticamente última década no Ceará são só positivas. Portanto, só foi provado a nossa relação com o Ceará de que os números podem ser positivos e que os benefícios são incrivelmente legais para o Estado, para os consumidores.

Eu creio que a gente deve ficar com isso em mente para ter como um fato que a gente pode reconstruir tudo isso. Se nós já fizemos uma vez, nós temos certeza que podemos fazer de novo.  

Mesmo durante a pandemia, embora antes da segunda onda, vimos algumas tentativas de novas empresas adentrarem o mercado regional, que também estava crescendo no Estado. Como fica a situação para esse segmento? 

O mercado regional foi afetado de maneira mais dura ainda do que as grandes empresas. A Abear tem várias associadas e a única que sentiu um baque mais pesado e precisou ainda que momentaneamente interromper as atividades foi uma regional da região do Mato Grosso. As grandes sentiram muito, está todo mundo meio lipoaspirado, mas está atravessando.

Então retomada desse mercado regional é um processo mais delicado porque a demanda é mais frágil, não dá para gente passar uma régua e achar que todas as pequenas cidades do País ou mesmo do Estado que são sustentados em atividades econômicas completamente distintas vão se recuperar da mesma forma. Porque o que é aviação? Ela responde a uma demanda. Quando uma cidade X pequena, regional, ligada ao agronegócio, começa a ver que aquela sua atividade se estendeu pelo ano inteiro, tem mais de uma safra, tem gente indo e voltando pra comprar e vender, a aviação começa a fluir ali.

Agora, se tem outra cidade que, por exemplo, tem quatro ou cinco fábricas, da cadeia produtiva, do automóvel, do setor automobilístico. As montadoras estão parando de produzir no Brasil por 'n' situações, esta cidade que tem lá essas quatro fábricas, não está conseguindo escoar a sua produção, por 'n' razões. Ali, a demanda por voos não vai se retornar igual.

Na realidade, essas respostas não são simples, e se você as generalizar, você vai errar. Nós temos instrumentos muito bem afinados para sentir quando a demanda começa a reagir em cada lugar, porque as pessoas começam a entrar nos sistemas, começam a procurar voo, a gente registra isso, a gente capta esse movimento. Então, vai retomar aquilo que tiver sustentação em demanda, que, por sua vez, se sustenta com a atividade de cada região, seja ela turismo, ciência, agricultura, indústria ou serviço. 

 

 

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