Jornais da Coreia do Sul repercutem calote milionário da Posco no Ceará

Sites do país relatam dívidas bilionárias e acusação de 'falência planejada'

Escrito por
Paloma Vargas paloma.vargas@svm.com.br
imagem mostra Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) em 2021 no Complexo Industrial e Portuário do Pecém.
Legenda: A Posco era uma das sócias da CSP. Imagem mostra siderúrgica em 2021 antes de ser adquirida pela ArcelorMittal.
Foto: Divulgação.

Companhia Siderúrgica do Pecém (comprada pela AcelorMittal), no Ceará, que já foi o maior investimento estrangeiro unitário no Brasil, tornou-se o centro de um escândalo internacional que agora estampa sites de notícias da Coreia do Sul.

A subsidiária brasileira da Posco Engineering & Construction (PEB), responsável pela construção da usina, está sendo duramente criticada na imprensa coreana. 

O motivo é a saída da companhia do Ceará, deixando um rastro de dívidas superiores a R$ 644 milhões, cerca de 174 bilhões de wons (moeda local), situação que a mídia sul-coreana descreveu como um comportamento irresponsável de "estado bárbaro".

Segundo as reportagens dos sites sul-coreanos N Notícias, Busan e foeconomy.co.kr, o que mais choca as autoridades e o judiciário brasileiro é a natureza da dívida: cerca de 89% a 90% do montante total, aproximadamente 155 bilhões de wons, referem-se a salários atrasados, indenizações trabalhistas e contribuições previdenciárias não pagas aos trabalhadores locais no Ceará.

As matérias, traduzidas com ajuda de ferramentas, como Google, afirmam ainda que "o governo cearense e o judiciário tratam o caso não apenas como uma falha de gestão, mas como uma questão de direitos humanos".

Prints de site da Coreia do Sul falando do caso da falência da Posco no Ceará, na língua nativa e traduzido para português do Brasil.
Legenda: Site de Busan na Coreia do Sul traz o caso do calote no Ceará; imagem na língua nativa e traduzido para português do Brasil.
Foto: Reprodução

Ativos líquidos são irrisórios

Com dívidas bilionárias, a Posco do Brasil tem ativos líquidos declarados no valor de apenas R$ 11 mil. Entre os poucos bens restantes, consta um veículo Ford Fusion 2015 quebrado e com multas pendentes, além de um terreno com baixa liquidez.

De acordo com o processo de falência em curso na 3ª Vara Empresarial, de Recuperação de Empresas e de Falências da Comarca de Fortaleza/CE, a dívida total declarada é de R$ 644.397.918,50, distribuída entre os seguintes credores:

  • R$ 573.526.176,94 para questões trabalhistas;
  • R$ 33.780.412,61 para questões tributárias;
  • R$ 10.487.046,44 para empresas;
  • R$ 26.604.282,52 para subordinados. 

Já os ativos declarados pela Posco somam R$ 47 milhões, mas apenas R$ 11 mil estão disponíveis para o pagamento de dívidas em até 12 meses, classificados como ativos circulantes segundo o processo.

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Holding coreana é responsabilizada

Em 2019, a Posco Engenharia e Construção do Brasil foi denunciada pelo Ministério Público Federal no Ceará por evasão de divisas e associação criminosa, que consistia em uso de empresas como fachada para desvio de recursos na construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). 

Diante desse cenário, o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará desconsiderou a personalidade jurídica da subsidiária brasileira e estendeu a responsabilidade pelo pagamento das dívidas diretamente à sede coreana e à holding Posco Holdings.

A decisão, considerada histórica, ocorreu em outubro de 2025, por meio de um pedido de Frederico Costa, maior credor da Posco Engenharia e Construção do Brasil. O déficit da empresa com o escritório de advocacia Campelo Costa, comandado por Frederico, é de R$ 560 milhões. 

Conforme Frederico, o valor da dívida da sul-coreana pode chegar a quase R$ 1 bilhão, já que outros déficits não teriam sido declarados. A lista de credores conta com 16 empresas localizadas no Ceará, incluindo negócios coreanos terceirizados para o serviço. 

O imbróglio teve início quando várias empresas cearenses ficaram sem receber pagamento pelos serviços prestados na construção do CSP, entre 2013 e 2015.

Negócios da empresa na Argentina podem estar ameaçados

Segundo a matéria do site da cidade de Busan (segunda maior cidade e uma importante metrópole da Coreia do Sul), a controvérsia sobre a falência da subsidiária brasileira levanta a possibilidade de que isso afete todo o negócio sul-americano da empresa.

Isso, porque, a Posco Holdings está fazendo grandes investimentos em projetos de desenvolvimento e produção de lítio na Argentina.

Assim, existira a possibilidade de credores tentarem apreender ativos argentinos de lítio utilizando cooperação judicial dentro do sistema Mercosul.

O negócio de lítio, ainda segundo o site sul-coreano, é um campo no qual a Posco Holdings continua se esforçando para expandir seus negócios, mesmo com situação financeira ruim desde a posse de Jang Jang-hwa na presidência, em 2024.

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