Jornais da Coreia do Sul repercutem calote milionário da Posco no Ceará
Sites do país relatam dívidas bilionárias e acusação de 'falência planejada'
A Companhia Siderúrgica do Pecém (comprada pela AcelorMittal), no Ceará, que já foi o maior investimento estrangeiro unitário no Brasil, tornou-se o centro de um escândalo internacional que agora estampa sites de notícias da Coreia do Sul.
A subsidiária brasileira da Posco Engineering & Construction (PEB), responsável pela construção da usina, está sendo duramente criticada na imprensa coreana.
O motivo é a saída da companhia do Ceará, deixando um rastro de dívidas superiores a R$ 644 milhões, cerca de 174 bilhões de wons (moeda local), situação que a mídia sul-coreana descreveu como um comportamento irresponsável de "estado bárbaro".
Segundo as reportagens dos sites sul-coreanos N Notícias, Busan e foeconomy.co.kr, o que mais choca as autoridades e o judiciário brasileiro é a natureza da dívida: cerca de 89% a 90% do montante total, aproximadamente 155 bilhões de wons, referem-se a salários atrasados, indenizações trabalhistas e contribuições previdenciárias não pagas aos trabalhadores locais no Ceará.
As matérias, traduzidas com ajuda de ferramentas, como Google, afirmam ainda que "o governo cearense e o judiciário tratam o caso não apenas como uma falha de gestão, mas como uma questão de direitos humanos".
Ativos líquidos são irrisórios
Com dívidas bilionárias, a Posco do Brasil tem ativos líquidos declarados no valor de apenas R$ 11 mil. Entre os poucos bens restantes, consta um veículo Ford Fusion 2015 quebrado e com multas pendentes, além de um terreno com baixa liquidez.
De acordo com o processo de falência em curso na 3ª Vara Empresarial, de Recuperação de Empresas e de Falências da Comarca de Fortaleza/CE, a dívida total declarada é de R$ 644.397.918,50, distribuída entre os seguintes credores:
- R$ 573.526.176,94 para questões trabalhistas;
- R$ 33.780.412,61 para questões tributárias;
- R$ 10.487.046,44 para empresas;
- R$ 26.604.282,52 para subordinados.
Já os ativos declarados pela Posco somam R$ 47 milhões, mas apenas R$ 11 mil estão disponíveis para o pagamento de dívidas em até 12 meses, classificados como ativos circulantes segundo o processo.
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Holding coreana é responsabilizada
Em 2019, a Posco Engenharia e Construção do Brasil foi denunciada pelo Ministério Público Federal no Ceará por evasão de divisas e associação criminosa, que consistia em uso de empresas como fachada para desvio de recursos na construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP).
Diante desse cenário, o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará desconsiderou a personalidade jurídica da subsidiária brasileira e estendeu a responsabilidade pelo pagamento das dívidas diretamente à sede coreana e à holding Posco Holdings.
A decisão, considerada histórica, ocorreu em outubro de 2025, por meio de um pedido de Frederico Costa, maior credor da Posco Engenharia e Construção do Brasil. O déficit da empresa com o escritório de advocacia Campelo Costa, comandado por Frederico, é de R$ 560 milhões.
Conforme Frederico, o valor da dívida da sul-coreana pode chegar a quase R$ 1 bilhão, já que outros déficits não teriam sido declarados. A lista de credores conta com 16 empresas localizadas no Ceará, incluindo negócios coreanos terceirizados para o serviço.
O imbróglio teve início quando várias empresas cearenses ficaram sem receber pagamento pelos serviços prestados na construção do CSP, entre 2013 e 2015.
Negócios da empresa na Argentina podem estar ameaçados
Segundo a matéria do site da cidade de Busan (segunda maior cidade e uma importante metrópole da Coreia do Sul), a controvérsia sobre a falência da subsidiária brasileira levanta a possibilidade de que isso afete todo o negócio sul-americano da empresa.
Isso, porque, a Posco Holdings está fazendo grandes investimentos em projetos de desenvolvimento e produção de lítio na Argentina.
Assim, existira a possibilidade de credores tentarem apreender ativos argentinos de lítio utilizando cooperação judicial dentro do sistema Mercosul.
O negócio de lítio, ainda segundo o site sul-coreano, é um campo no qual a Posco Holdings continua se esforçando para expandir seus negócios, mesmo com situação financeira ruim desde a posse de Jang Jang-hwa na presidência, em 2024.