Com salários de R$ 800 em média, estagiários sustentam famílias no Ceará

A bolsa de estágio é fonte de renda complementar ou principal para famílias de estudantes que têm pais desempregados ou de baixa renda

Escrito por Heloisa Vasconcelos, heloisa.vasconcelos@svm.com.br

Negócios
Legenda: O estudante Davi Holanda, de 23 anos, é o principal provedor de sua família
Foto: Arquivo pessoal

O estudante Healber Barros, de 20 anos, faz um malabarismo com as próprias contas para poder arcar com os custos da casa onde reside, em Sobral, na região norte do Ceará, e conseguir ainda enviar dinheiro para sua mãe, que mora na zona rural do município. Tudo isso com a bolsa de meio salário mínimo que recebe do estágio. 

Diante do montante de famílias cearenses que perderam emprego ou principal forma de renda na pandemia, os estagiários têm se tornado importantes e, em alguns casos, fundamentais para o sustento das casas.  

De acordo com dados do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), o estado fechou 2021 com 9.474 contratos de estágio, divididos entre Fortaleza, Juazeiro do Norte e Sobral. O número representa uma recuperação frente a 2020, mas ainda está abaixo do registrado pré-pandemia

Conforme a supervisora do CIEE no Ceará, Yvina Egídio, a média do salário pago aos estagiários no estado é de R$ 800. Apesar de inferior ao salário mínimo, o valor é o dobro do Auxílio Brasil, benefício de R$ 400 que atende mais de 1 milhão de famílias cearenses. 

Mercado de trabalho 

O número de brasileiros sem emprego já era considerável antes da pandemia – a taxa de desemprego ficou em 11,9% em 2019 – mas a crise sanitária agravou a situação. Diante da necessidade de distanciamento e da redução de demanda, muitas empresas encolheram o quadro de funcionário ou quebraram. 

O impacto também foi sentido na contratação de estagiários. Por não haver vínculo empregatício, esses foram alguns dos primeiros contratos a serem rompidos; tanto que o número de estagiários no Ceará caiu 26,4% de 2019 para 2021. 

Apesar da queda, a recuperação foi rápida em 2021, com aumento de 31,7% no número de contratos em relação ao primeiro ano da pandemia. Para a professora de economia da UFC Sobral e pesquisadora do Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP), Alessandra Benevides, a retomada dos estágios é mais rápida do que a de contratos formais devido à ausência de vínculo empregatício. 

Com a pandemia, você tem um reforço para contratação de estagiários. As empresas dependem muito mais dos estagiários hoje do que antes da pandemia
Alessandra Benevides
professora de economia da UFC Sobral e pesquisadora do LEP

Para Yvina Egídio, a alta também foi impulsionada pela possibilidade de os estagiários trabalharem em regime de teletrabalho, podendo inclusive serem contratados por empresas de outros estados. 

Conforme o CIEE, as áreas com maior demanda de estudantes no Ceará são administração, marketing, publicidade, TI, direito, contábeis e logística. 

“É mais favorável porque tem mais oferta, hoje tem muitos cursos. Temos vagas constantemente, tem vagas todos os dias. Eu percebo que hoje as empresas buscam muito o estágio como uma forma de captar novos profissionais e desenvolvê-los”, percebe Yvina. 

Fonte de renda 

O estudante Davi Holanda, de 23 anos, é o principal provedor de sua família. O salário do estágio, no valor de R$ 800, se soma a auxílios recebidos pela UFC para ele poder dividir os custos da casa onde mora, em Fortaleza, e enviar recursos para a mãe em Pindoretama, a 49 km da Capital. 

Eu assumo a maioria das contas da casa da minha mãe, pago luz, água, faço compras. O que ajudou nossa renda foi o auxílio emergencial, ela é beneficiária do Bolsa Família (Auxílio Brasil). Mas as contas maiores eu que entro porque a minha renda era superior com o estágio e auxílios
Davi Holanda
estudante

Davi passa a maior parte do tempo na casa da mãe agora que o trabalho está em home office, mas divide uma casa em Fortaleza com outros três estudantes. Essa não é a primeira vez que seu estágio é necessário para arcar com as contas de casa. 

Legenda: Desempregada, Rita Maria Holanda Lima, de 54 anos, conta com a ajuda do filho para arcar com os custos de casa
Foto: Arquivo pessoal

Os auxílios recebidos pela universidade ajudam, mas dois deles têm validade neste mês. “Eu recebo R$ 800 de estágio, com os auxílios minha renda sobe para R$ 2.000. Esses auxílios têm prazo de validade, dois deles já acabaram em dezembro de 2021. A partir de janeiro vou ficar sem eles, fica mais apertado, vai baixar para R$ 1.300”, se preocupa. 

Healber Barros, de 20 anos, vive uma situação semelhante. Ele realiza cortes no orçamento para poder conseguir bancar a casa em Sobral e mandar recursos para a mãe, no distrito Jordão, na área rural do município. 

“Desde o início do ano com o aumento do preço das coisas, está mais difícil consumir principalmente a alimentação básica, o feijão, o óleo, a carne. Hoje não como mais carne, ajudou no meu orçamento. Remédios ficaram mais caros, mas a gente vai lidando. Teve um corte de gastos, a gente acaba reduzindo o que fazia antes por prazer. Mas organizando direitinho a gente consegue o básico”, relata. 

Todos os meses ele manda por volta de R$ 150 para a mãe. Esse dinheiro ajuda a pagar as contas de casa, remédios e alimentação. Ele considera que, não fosse a ajuda da bolsa do estágio, sua mãe teria de pedir empréstimo para as contas fecharem. 

“A área que seria mais prejudicada seriam os remédios dela, que ou não ia ter ou ia reduzir. E o cuidado da alimentação dos animais também. Teve mês que ela não conseguia pagar água e eu mesmo pagava”, diz.  

Orçamento familiar 

O dinheiro do estágio costuma ser uma das primeiras formas de independência financeira do estudante, que pode começar a arcar sozinho com gastos pessoais. Mas, para algumas casas, essa renda do estudo é fundamental no dia a dia.  

Em um momento em que tudo está mais caro e o bolso das famílias está comprometido tanto pela redução da renda média como pela inflação, qualquer recurso, mesmo que pequeno, faz diferença no orçamento mensal. 

“Quem está no estágio pode até ter uma condição de família que precisa de complemento da renda, mas tem famílias que estão em situação pior, mais vulnerável. Os estagiários acabam complementando a renda das famílias e muitas vezes acabam sendo a renda principal”, diz Alessandra. 

A renda fixa do estagiário também é importante em famílias cuja principal receita vem de trabalho informal, mais imprevisível.  

“A taxa de desemprego, embora tenha tido uma redução nos últimos dados do Brasil, ainda é muito alta. É um alívio para a família, muitas vezes realmente não tem de onde tirar. Muitas vezes as famílias têm o emprego informal, o bico. O estágio é mais estável, constante”, destaca.