Com 3ª maior inflação da América Latina, Brasil vive "espalhamento" da alta de preços

Especialista alerta para alta em uma ampla cesta de itens e serviços

Legenda: Preços de produtos de alimentação têm apresentado elevação
Foto: Shutterstock

Com números bastante superior à meta do Governo, a inflação no Brasil já chega a quase 10% no acumulado dos últimos 12 meses. Apesar do avanço ser provocado principalmente por artigos de alimentação e de bens de consumo essenciais, os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) demonstram que 72% dos produtos da cesta de serviços estão com variação positiva.  

De acordo com André Braz, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas, esse número, rompendo os 70%, sinaliza um ‘espalhamento’ da alta de preços. “É um índice muito alto, mostra que a inflação está persistente e contribui para desancorar a expectativa dos agentes econômicos”. 

Para o especialista, a inflação deste ano já está perdida. A meta, definida pelo Conselho Monetário Nacional, foi de 3,75% para este ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Nos dados do IPCA, divulgados nessa quinta-feira (9), o valor acumulado dos últimos 12 meses ficou em 9,68%.  

Em agosto, a variação foi de 0,87%, a maior registrada para o período nos últimos 20 anos. Em 2020, por exemplo, mesmo com a pandemia, o índice ficou em 0,24%. A alta foi impulsionada pelos setores de alimentação e bebidas, e de transportes.  

3ª mais alta da América Latina 

Um levantamento realizado pelo Ibre aponta que, considerando os resultados do IPCA até julho deste ano, a inflação no Brasil é a terceira maior da América Latina, superada apenas pela Argentina (51,8%) e Haiti (17,9%). A Venezuela ficou de fora do estudo pois está muito acima, em situações anormais.

  

Braz aponta que a inflação no Brasil está superando a de países, que em condições normais, não apresentaria esse resultado. “A pandemia fez com que gastássemos mais com recursos públicos e a nossa fragilidade econômica nas expôs a uma variação cambial maior”.  

O cenário de incertezas frente ao combate da Covid-19 também colocou o país em uma condição desfavorável, avaliado negativamente por outras nações. A falta de políticas assertivas para a melhora dos índices da pandemia gera também uma lenta retomada econômica.  

"O mundo está aquecendo e demandando mais recursos, o que acaba enfraquecendo nossa inflação, já que as commodities têm muita contribuição nisso. À medida que exportamos muito há um desabastecimento do mercado interno”. 
André Braz
pesquisador FGV

Já considerando o índice acumulado em dezembro de 2020, o Brasil figurava em 6º na lista com 4,5%. A Argentina se mantinha em primeiro com 36,15%, seguida por Haiti, Uruguai, República Dominicana e Guatemala.  

Produtos em alta  

Neste cenário, a alta é impulsionada principalmente por artigos de alimentação, como o óleo de soja, a carne e o feijão. Além disso, a crise hídrica também tem afetado a produção da cana-de-açúcar, do milho e do café. “Com isso, seus derivados como o açúcar, ovos e frango estão em alta no supermercado”.  

“Quando a situação parecia melhorar um pouco, começamos a ver os efeitos da crise hídrica, foram promovidos ajustes nos valores das bandeiras tarifárias. A desvalorização cambial, que ajudou no aumento da gasolina, do diesel e do etanol, acabam por dominar a elevação da inflação”, acrescenta Braz.  

Outro destaque, conforme o especialista, são despesas de menor peso que não chamavam tanto atenção. “Transporte por aplicativo, streaming de TV, isso mostra que, apesar da inflação ser influenciada por grandes atores, está passando um espalhamento maior”.  

Para Braz, o perigo dessa inflação estar muito acima da meta é o índice do ano que vem, por isso as autoridades já vêm aumentando a taxa básica de juros (Selic), a expectativa do Banco Central é que chegue a 7,63%, de acordo com o Relatório Focus divulgado no dia 6 de setembro.  

“Isso ainda impõe outro desafio. A indústria quer crédito para investir, mas com a taxa de juros mais cara fica mais difícil. Isso é um efeito colateral, então podemos esperar uma economia crescendo pouco no ano que vem”, finaliza.  

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