Entenda por que o óleo de soja é o campeão da inflação, com alta de quase 90%

Alta das commodities tem comprometido a oferta de soja no mercado interno, a principal matéria-prima do produto

Item da cesta básica, o óleo de soja tem sofrido reajuste exponencial com a alta das commodities durante a pandemia. Na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), o produto acumula aumento de 87,67% em um ano, ocupando o topo do ranking de produtos com maior aumento de valor.

A variação é medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial monitorada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Conforme a Pesquisa Nacional da Cesta Básica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a lata de 900 ml do óleo de soja passou de R$ 4,63 em maio de 2020 para R$ 8,45 em maio deste ano na Capital.

Alta das commodities

Sérgio Baima, técnico da Secretaria Executiva do Agronegócio do Estado, aponta que o Brasil, como um dos maiores produtores de soja do mundo, tem sido mais demandado durante a pandemia para abastecer o consumo internacional.

"O Brasil é um grande produtor de soja e nos últimos dois anos tem exportado muito mais do que jamais pensou. Em valores, a produção aumentou 42% em 2019 e 32% em 2020", afirma.

Segundo dados da Secretaria Especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais,  o País exportou cerca de 82,9 milhões de toneladas de soja em 2020, o equivalente a US$ 28,5 bilhões. Em 2019, os números haviam sido de 74,06 milhões de t e US$ 26,07 bilhões, correspondendo a crescimentos de 12% e de 9,32%, respectivamente.

Legenda: Produção de soja, em valores, cresceu 32% em 2020, segundo especialista.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Com a maior destinação da produção para o mercado externo, a oferta interna acaba ficando mais restrita. Sendo a principal matéria-prima do óleo, a soja acaba puxando o preço do produto final pra cima.

"Grandes compradores, como a China e a Europa, aumentaram muito a importação de soja do Brasil. Apesar da produção brasileira ter aumentado, o ritmo de exportações cresceu bem acima. Então, é natural que, diminuindo a quantidade de soja internamente, o preço do óleo suba"
Sérgio Baima
Técnico da Secretaria Executiva do Agronegócio do Ceará

Retomada da atividade econômica

O conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon), Ricardo Eleutério, endossa o impacto da alta das commodities no preço do óleo de soja. Segundo ele, a retomada mundial da atividade econômica é um dos fatores que impulsiona essa ascensão.

"Estamos com alta de preço das commodities a partir da recuperação da economia mundial. Quando a demanda começa a aumentar, com o crescimento econômico e com os preços mais elevados, há estímulo para as exportações. Sempre que há estimulo, isso pode se traduzir no mercado doméstico em aumento de preços desses produtos, em escassez relativa do produto", explica.

Eleutério também lembra que as commodities são negociadas em bolsas de mercadorias e futuros. Com os países reduzindo as taxas de juros como forma de minimizar os impactos econômicos da pandemia, as commodities passam a ser opções melhores de investimento, o que acaba contribuindo para a manutenção dos preços elevados.

Orçamento familiar

Apesar da alta exponencial, o impacto do aumento de preços do óleo acaba sendo menor que o crescimento de outros produtos básicos, como a carne.

Segundo o supervisor técnico do Dieese, Reginaldo Aguiar, isso acontece porque o volume consumido durante o mês é menor, cerca de uma a duas latas por família, em média. No caso da carne, por exemplo, a entidade calcula cerca de 4,5 kg mensais.

Tendo em vista o contexto atípico proporcionado pela pandemia, Aguiar ainda argumenta que a busca excessiva dos produtores por lucro tem prejudicado a população.

"Não estamos em uma situação normal, então não deveríamos aproveitar o momento pra enriquecer. Estamos em uma pandemia que matou mais de meio milhão de pessoas e estamos achando razoável, em nome da rentabilidade e do lucro, que as pessoas não tenham acesso a alimentos básicos", dispara.

Legenda: Brasil exportou cerca de 82,9 milhões de toneladas de soja em 2020, o equivalente a US$ 28,5 bilhões.
Foto: Carlos Marlon

Ele argumenta que deveria haver um limite da produção exportada, à exemplo de outros países, para que exatamente não haja falta no mercado interno.

"É um paradoxo para o Brasil sermos um dos grandes produtores de alimentos e pessoas daqui não terem acesso. Quando há geadas na Europa, por exemplo, e a produção de trigo fica comprometida, a Rússia exporta, mas só até um certo limite que não vá faltar"
Reginaldo Aguiar
Supervisor técnico do Dieese

Previsões

O consumidor ainda deve sofrer com a alta das commodities e, consequentemente, do óleo de soja durante todo o ano de 2021, conforme prevê Baima. 

"A tendência é reduzir o preço, mas a longo prazo. A pandemia dificultou a produção e aumentou o consumo quando a oferta não consegue acompanhar. Então, nós vamos ter essa alta pelo resto do ano ainda", afirma o técnico da Secretaria Executiva do Agronegócio do Ceará.

Eleutério pontua que, com a recuperação econômica e a maior disponibilidade de renda nos demais países, onde o processo de vacinação está mais avançado, deve continuar  impulsionando o preço das commodities.

"A expectativa é que os preços continuem em patamar elevado, porque as taxas de crescimento vão ser revistas para cima, tanto para o Brasil quanto mundialmente. Com essas taxas mais elevadas, isso se deve traduzir em pressão sobre os preços"
Ricardo Eleutério
Conselheiro do Corecon

Aguiar ressalta que, mesmo que o ritmo de crescimento dos valores diminua, os preços devem se estabilizar em um patamar muito elevado.

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