Busca por consórcios imobiliários no Ceará cresce 40% com aumento dos juros; entenda como funciona

De acordo com dados da Abac, além da venda de cotas, também houve aumento no número de consorciados e contemplações no ano passado

Escrito por Heloisa Vasconcelos, heloisa.vasconcelos@svm.com.br

Negócios
casal em frente a casa
Legenda: Segundo Guilherme, o custo do imóvel com consórcio foi 3 vezes menor que com financiamento
Foto: Arquivo pessoal

O motorista Guilherme William Silva, de 28 anos, viu no consórcio a oportunidade de comprar uma casa para viver com sua esposa, a estudante Milena Cruz, de 22 anos. A compra do consórcio ocorreu em julho do ano passado e, três meses depois, ele foi contemplado com o crédito para a casa nova. 

O motivo de ter escolhido a modalidade? O custo. Conforme Guilherme, o casal pesquisou opções de financiamento e percebeu que o custo seria três vezes maior para comprar o mesmo imóvel. 

Outros cearenses têm feito o mesmo. De acordo com dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac), houve um aumento de 40,1% na compra de cotas de consórcios imobiliários entre 2020 e 2021. No mesmo período, o número de consorciados cresceu 14,9% e as contemplações tiveram alta de 34,8%. 

A alta vem acompanhada de um aumento sucessivo da Selic desde o início do ano passado, o que torna o crédito imobiliário mais caro.  

Segundo o Banco Central, o juro médio para financiamento está em 10,04% ao ano. Em contraponto, conforme a Abac, a taxa de administração de consórcios imobiliários fica em 1,224% ao ano para um prazo médio de 188 meses. 

Apesar de o custo final, muitas vezes, sair mais em conta, a modalidade não é indicada para quem precisa de um imóvel de forma imediata. Diferente do financiamento, em que o crédito é dado logo após o fechamento do contrato, no consórcio a contemplação pode ocorrer apenas no final do pagamento. 

Aumento nos consórcios  

Conforme o presidente regional da Abac, Rodrigo Freire, o consórcio alcançou números recordes em 2021. Ele afirma que o setor já vinha crescendo há alguns anos, mas a alta na Selic impulsionou a busca.  

Em todo o país a gente tem observado crescimento. O consórcio cresceu proporcionalmente, não há uma região que caiu. Em todas, o consórcio tem tido uma boa procura. A gente cresceu nos principais segmentos, imóveis, veículos leves, veículos pesados, motocicletas, serviços e eletroeletrônicos".
Rodrigo Freire
presidente regional da Abac

Rodrigo destaca que o consórcio mais buscado no ano passado foi o imobiliário, tanto no Ceará como no país. Ele projeta um crescimento de 22% em 2022 em todo o Brasil. 

O consórcio é um grupo de pessoas com o objetivo de comprar um mesmo bem. Todos os meses os consorciados colaboram com uma cota e há um sorteio de quem será contemplado com o crédito total. 

Há a possibilidade, ainda, de dar lances para ter uma probabilidade maior de ser contemplado. Mas, por conta da incerteza de quando o crédito será disponibilizado de fato, a modalidade é ideal para compras programadas. 

Freire afirma que o público que busca financiamentos hoje difere dos consorciados justamente pelo imediatismo para a compra do bem. Essa é a principal barreira para uma maior difusão da modalidade. 

"À medida que a gente tem um amadurecimento do consumidor, que ele pode pagar menos programando essa compra, a gente vê que faz sentido essa compra programada. Esse é um fator que o consórcio tem conseguido evoluir muito, mas tem essa barreira". 

De acordo com o cofundador da fintech de consórcios Mycon e especialista em consórcios, Marcelo Kogut, a busca pelos consórcios aumentou na empresa mesmo enquanto a Selic estava na mínima histórica. 

“Quando a Selic baixa, o acesso ao crédito fica muito difícil porque os bancos ficam mais criteriosos para dar o crédito. A pessoa tem que comprovar a capacidade de pagamento da parcela, fiador. Financiamento fica mais restrito a pessoas com score de crédito mais elevado”, aponta. 

Segundo ele, a empresa que possibilita a contratação de consórcios 100% online cresceu 30% ao ano durante a pandemia. Ele defende que as taxas cobradas no Mycon são 50% mais baratas do que o restante do mercado, podendo chegar a 0,5% ao mês. 

Economia na prática 

A autônoma Gleisse Kelly, de 23 anos, inicialmente não tinha intenção de contratar um consórcio. A ideia era apenas comprar sua primeira casa própria para morar com seu noivo, após 9 anos de relacionamento. 

Ela conta que a primeira opção buscada foi o financiamento, mas acabou desistindo da operação por conta do custo. 

Eu fiz uma simulação e quase que financiei a compra do imóvel, mas quando eu vi as parcelas e fui fazer o cálculo para ver quanto que no final a casa sairia vi que seria praticamente o dobro. Aí eu procurei outros meios de essa casa sair mais barata".
Gleisse Kelly
autônoma

A consorciada fechou o contrato em fevereiro de 2021 e tem planos de dar um lance para ser contemplada neste mês para comprar uma casa em Maracanaú. 

O motorista Guilherme William Silva, de 28 anos, conseguiu ser contemplado em três meses, após dar um lance. Ele fechou o contrato em julho do ano passado e já começou o ano morando na casa nova, em Irauçuba, a 155 km de Fortaleza. 

casal abraçado em frente a casa
Legenda: Guilherme e Milena foram contemplados em 3 meses e moram na casa nova desde o ano passado
Foto: Arquivo pessoal

“Eu vi mais vantagem para mim, por conta dos juros. Menos dor de cabeça, uma coisa bem simples, bem rápida. Eu não tenho dor de cabeça, não tenho cobrança. E daqui pra frente vou fazendo mais e mais, é um investimento”, diz. 

O imóvel foi financiado por 10 anos, com parcelas de R$ 480 mensais. Animado com a modalidade, o motorista entrou também no consórcio de uma moto no início deste ano.  

Financiamento 

Apesar do aumento na Selic, o setor de financiamentos imobiliários teve alta de 66% no ano passado. A previsão para 2022, porém, é menos otimista, segundo o diretor-executivo da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Filipe Pontual. 

“A gente acha que vai crescer um pouco menos do que no ano passado, mas ainda assim muito forte, menor que 2021, mas maior que 2020. A previsão é de um pequeno encolhimento de 5% em relação a 2021”, coloca.  

Filipe aponta que a alta na Selic não provoca um aumento proporcional na taxa do financiamento. Mais do que a Selic, a taxa de juros longo e de rentabilidade da poupança influenciam na tomada de decisão entre financiar ou não um imóvel.  

Tradicionalmente, o aumento da Selic pode ou não gerar algum aumento no crédito, porém é sempre em uma magnitude menor. A Selic subiu de elevador, mas os juros do financiamento imobiliário sobem de escada, vão devagarzinho".
Filipe Pontual
diretor-executivo da Abecip

Segundo ele, o atual patamar dos juros de financiamento imobiliário pode eventualmente abrir espaço para o setor de consórcio.  

“Ano passado foi um ano muito bom para o crédito imobiliário, pode ter sido também para o consórcio. Mas como vai ser daqui para frente, tem que analisar”, diz.