Vivência da amamentação incentiva mães a serem doadoras e a manter ativos bancos de leites no Ceará

Amamentação pelo leite materno garante nutrição e imunidade aos bebês internados, contribuindo diretamente com a recuperação, aponta enfermeira da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (Meac)

Mãe segura bebê durante período em que participou da doação de leite para o bando de leite materno em Sobral
Legenda: Para Sendy Sousa, a experiência de amamentar as filhas fez nascer a compreensão da importância do leite materno
Foto: Arquivo Pessoal/Rebeca Lima

A visão do rostinho franzido, o escutar do primeiro choro e o amamentar da criança são processos que costumam fazer parte das vivências da maternidade. No entanto, nem todas as mães podem mergulhar nessas experiências logo nas primeiras semanas após o nascimento, pois os filhos nascem prematuramente ou apresentam alguma doença de risco. Nessas situações, os bebês internados em unidades de saúde contam principalmente com a doação de outras mães para garantir a amamentação necessária. 

O desejo da assistente administrativa Ana Cristina de Sousa Dantas, 43 anos, se tornar uma doadora para o Banco de Leite Humano (BLH) surgiu desde a sua segunda gravidez, em 2019. Porém, na época, não pôde realizar o gesto devido ao uso de medicamentos que restringiam a possibilidade. 

Em 2020, após o nascimento de sua terceira filha e sem qualquer impedimento quanto ao uso dos medicamentos, decidiu buscar a Unidade Neonatal da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (Meac) e se cadastrar como doadora. Desde novembro, realiza a contribuição para o banco de leite da unidade de saúde. 

“Eu acho muito importante essa doação. O desejo de querer ajudar uma mãe e um bebê, ou até mesmo vários bebês. Eu me sinto muito feliz em poder estar de alguma forma contribuindo e em ajudar essas famílias”, compartilha. 

Legenda: Após o nascimento da terceira filha, a doadora Ana Cristina iniciou sua contribuição para o bando de leite da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC)
Foto: Arquivo pessoal

Foi por esse desejo de contribuir que a moradora do município de Sobral, Sendy Portela Sousa, 29 anos, buscou o banco de leite quando seu bebê completou um mês de idade, em novembro do ano passado. “Fiz o cadastro pelo link enviado no whatsapp e agendei a visita na minha casa. Em seguida, já iniciei a doação”, relata.

A experiência de amamentar as próprias filhas fez nascer a compreensão da importância do leite materno para os bebês durante os primeiros meses de vida. Apesar dos filhos nunca terem precisado do serviço do banco de leite, Sendy foi motivada pela necessidade das crianças internadas receberem anticorpos e nutrientes presentes somente no leite materno. 

“Quando soube que no Banco de leite havia muita demanda e, às vezes, pouca doação, decidi tentar doar. Eu acredito que doar leite materno é garantir para as crianças o melhor alimento do mundo”, diz.

Gratidão pelo recebimento

O gesto de carinho, realizado apesar da ausência de uma ligação de sangue, ecoa na vida das mães que têm os filhos contemplados pelo banco de leite. Para a dona de casa Antônia Roseli Ferro Medina, 34 anos, a gratidão vem principalmente por perceber a boa recuperação de sua filha Ruty, nascida de 28 semanas em dezembro. “Ajudou muito ela, no desenvolvimento e até na imunidade. Ela estava na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e saiu”, aponta. 

Agora, mesmo ainda estando no Hospital Regional Norte (HRN), em Sobral, já foi transferida para uma nova ala, a fim de ganhar um pouco de peso antes de ser liberada para conhecer o lar. Na perspectiva de Antônia, que saiu do município de Ipu e viajou cerca de 100 Km para receber o atendimento no HRN, não poder dar seu leite nos primeiros dias foi uma experiência muito ruim. 

“Você se sente incapaz de não poder amamentar seu bebê, mas ao mesmo tempo fica feliz, porque tem outras mães que estão podendo ajudar e através do seus leites, ajudam os bebês prematuros”, finaliza.

Legenda: Nayana Freitas foi uma das mães contempladas pelo serviço do banco de leite após seu filho nascer prematuramente de 27 semanas
Foto: Arquivo pessoal

Em Fortaleza, a vendedora Nayara Freitas, 22 anos, viveu uma situação similar após seu filho nascer prematuramente de 27 semanas, quando os nascimentos normalmente ocorrem entre 38 a 42 semanas. “Ele nasceu bem, só era muito pequeno e me informaram que ele ia ficar na UTI para ser examinado e pegar o peso ideal”, explica. 

Desde 12 de fevereiro acompanha o quadro de saúde do filho Pedro Hércules, ansiosa para poder amamentar a criança o quanto antes. Nesse meio tempo, tem realizado massagens para estimular a produção do leite, agradecendo a existência da coleta das doações. 

“É importante porque o neném não pode se alimentar. Eu me sinto mais aliviada por conta de eu não ter leite ainda, é um alívio porque ele está sendo alimentado pelo leite de outra mãe que está doando”, conclui. 

Redução nas doações

Em meio ao cenário da pandemia, o estoque de leite de Fortaleza apresentou um aumento na quantidade de doações. Na perspectiva da enfermeira assistente do banco de leite da MEAC, Marielle Ribeiro, esse aumento se deu principalmente pela maior disponibilidade de tempo para realizar o desmame. “Por conta do lockdown, muitas mulheres que amamentam ficaram em trabalho remoto e retornaram o contato”, pondera Marielle. 

Apesar disso, a quantidade de doações costuma apresentar baixas próximo a datas comemorativas, de períodos de férias ou de etapas chuvosas na capital. “O banco de leite fica na margem de segurança, que são 30 litros. A gente precisa sempre ficar intensificando os pedidos. As doadoras não são doadoras sempre, é só por um período até que a produção ajuste”, explica. 

Em fevereiro, após as festas de fim de ano e o período do carnaval, o estoque voltou a apresentar redução nas doações. Conforme Marielle, é importante estar sempre renovando as doações. 

“Os bebês que nascem prematuros têm mais chances de doenças e infecções, por isso precisam do leite materno, é o melhor para eles. O leite materno não foca só em nutrição, mas em imunidade também. Favorece a recuperação mais rápida e a proteção contra infeccções”, detalha. 

Já no Banco de Leite do HRN, as doações sofreram impactos em meio aos casos da Covid-19 no sertão do Ceará. “A gente entende a preocupação das doadoras em relação ao Covid-19. Esse é um impasse, o medo da nossa ida até a casa para recolhimento desse leite”, conta Renata Karen, coordenadora da unidade. 

Por conta disso, o estoque tem apresentado quantidade abaixo da necessidade da unidade de saúde. “Diante do aumento da demanda, cada vez mais a gente precisa da doação de leite materno”, conclui. 

Centros de doações no Ceará

  • Banco de Leite do Hospital Geral Dr. César Cals: Avenida do Imperador, 545, Centro, Fortaleza - (85) 3101-5367
  • Banco de Leite do Hospital Infantil Albert Sabin: Rua Tertuliano Sales, 544-B, Vila União, Fortaleza - 0800 280-4169
  • Banco de Leite Humano do Hospital Geral de Fortaleza: Rua Ávila Goulart, 900, Papicu, Fortaleza - (85) 3101-3335
  • Banco de Leite Humano do Hospital Regional Norte: Av. John Sanford, 1.505, Bairro Junco, Sobral - (88) 3677-9467
  • Hospital São Vicente de Paula: Av. Cel. João Coelho, 299, Centro, Barbalha - (88) 3532-7100
  • Maternidade Escola Assis Chateaubriand: Rua Coronel Nunes de Melo, s/n, Rodolfo Teófilo, Fortaleza - (85) 3366-8509
  • Hospital e Maternidade São Lucas: Rua São Benedito, s/n, São Miguel, Juazeiro do Norte - (88) 3511-4742
  • Hospital Geral de Maracanaú: Praça Henrique Mendes, s/n, Centro, Maracanaú - (85) 3521-5545
  • Hospital Jesus Maria José: Av. Francisco Almeida Pinheiro, 2268, Planalto Universitário - (88) 3412-0681
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