Quase 75% das escolas públicas têm velocidade da internet abaixo do ideal no Ceará

São 153 unidades onde não há nenhum tipo de conexão; ferramenta dá maior autonomia aos estudantes e diminui disparidades sociais

Escrito por Lucas Falconery, lucas.falconery@svm.com.br

Ceará
escolas
Legenda: Grupo de Acompanhamento mapeia escolas sem acesso à internet ou com conexão de baixa qualidade
Foto: Thiago Gadelha

Papel e caneta deixaram de ser itens elementares para o aprendizado quando a internet chegou às escolas, mas, apesar desse cenário que exige mudanças de rotinas e ferramentas, as unidades públicas de ensino do Ceará ainda não alcançam um padrão importante: quase 75% têm velocidade abaixo do ideal. Sem o serviço, crianças e adolescentes têm disparidades educacionais ampliadas.

São 4.338 escolas fundamentais e do ensino médio da rede pública estadual e municipais, em diferentes cidades do Ceará, com velocidade da internet até 20 Mbps, que é conexão mínima para unidades pequenas. Esse quantitativo representa 73,68% do total de 5.887 unidades em funcionamento no Estado. Enquanto a rede deveria ser superior 200 Mbps, mais de 150 instituições nem mesmo possuem conexão.

O retrato faz parte da análise do Grupo de Acompanhamento do Custeio a Projetos de Conectividade de Escolas (Gape) da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Os dados do Ceará foram repassados a pedido do Diário do Nordeste.

A falta de condições ideais isola ainda mais estudantes e professores, especificamente, de 153 escolas que não têm nenhum tipo de acesso à internet. Como aprender a usar uma ferramenta tão relevante para o mercado de trabalho e cidadania nesse contexto?

É uma resposta relevante para entender os prejuízos dos municípios que concentram o número de escolas desconectadas. Independência (20) lidera essa lista. Ainda assim, o Ceará está bem posicionado em relação aos demais estados.

“No Ceará, o maior problema não é a falta de conexão, mas a falta de conectividade em alto padrão", analisa Vicente Aquino, presidente do Gape. No País, cerca de 15 mil escolas estão sem internet e 100 mil com baixa qualidade.

Velocidade das escolas conectadas no Ceará:

  • Até 2 Mbps: 1.831 
  • Entre 2,01 e 5 Mbps: 975
  • Entre 5,01 e 10 Mbps: 1268
  • Entre 10,01 e 20 Mbps: 264 // 4.338
  • Acima de 20 Mbps: 229
  • Não informado/não medido: 116

Não foram identificadas unidades de ensino sem energia elétrica, como é a realidade enfrentada por um número considerável de instituições brasileiras. 

"Isso é uma particularidade, porque no Brasil tem quase 6 mil escolas que não têm nem energia elétrica quanto mais internet", completa Vicente. Fora da escuridão, as unidades sem internet serão priorizadas nas ações do Gape.

"Certamente serão contempladas pelo grupo da Anatel para ser levada a conectividade, como nos outros municípios do Brasil. O passo seguinte será levar alta qualidade”, completa.

Isso deve acontecer por meio de um projeto-piloto para implantação de fibra óptica em escolas, criação de salas digitais, treinamento de professores e pagamento do serviço de internet nos municípios. 

Isso é um grande legado que nós da Anatel podemos deixar: levar os alunos à inclusão digital. Esse é o alfabeto do mundo moderno, fazer as pessoas aprenderem a usar os dispositivos de comunicação eletrônica
Vicente Aquino
Presidente do Gape

Cerca de duas escolas de cada estado devem receber as ações do projeto ainda em agosto, quando as medidas serão avaliadas, ajustadas e replicadas no País.

A Secretaria da Educação de Independência foi buscada por e-mail e telefone, mas não respondeu sobre a situação de falta de internet até a publicação deste material. Ações estaduais buscam ampliar a conexão nos municípios e melhorar a qualidade da conexão (veja o detalhamento abaixo).

Qualidade insuficiente

Os critérios para a velocidade mínima de acesso à internet estão estabelecidas na Resolução nº 9, de 13 de abril de 2018, da Política de Inovação Educação Conectada (PIEC). Em escolas pequenas, com até 199 alunos, a velocidade deve ser de 20 Mbps.

O Gape dá preferência para redes cabeadas em fibra óptica, quando disponível, e a viabilidade técnica econômica de soluções utilizando-se redes cabeadas em par metálico, acesso via rádio, satélite ou rede móvel.

Critérios do Gape:

  • 50 Mbps para escolas de 15 a 199 matrículas;
  • 100 Mbps para escolas de 200 a 499 matrículas; e
  • 200 Mbps para escolas com 500 matrículas ou mais.

Marcial Porto Fernandez, docente na área de Computação da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ressalta a importância de considerar a realidades das unidades de ensino para definir a rede.

“Depende da quantidade de alunos da escola e, se a escola é profissionalizante, realmente precisa de um pouco mais de acesso. Consideramos como uma taxa razoável, para escola pequena, 200 mega, e o ideal de 500 mega ou até 1 giga”, explica.

Algumas questões históricas explicam a dificuldade para o acesso à internet. “Tem lugares muito distantes e o custo para chegar lá é muito alto. O orçamento público é restrito e limitado, então tem que ser feito aos poucos e por etapas", analisa.

É como se eu tivesse uma biblioteca mundial em toda escola do interior e isso é uma coisa importante de ressaltar para a questão de vídeos e textos, além de ferramenta de pesquisa
Marcial Porto Fernandez
Professor da Computação

O especialista cita o Cinturão Digital, e características próprias de conexão do Ceará, como relevantes para a melhora do cenário. Para Marcial, as escolas devem alcançar uma boa qualidade de internet em breve.

“O Ceará tem uma característica muito favorável, porque somos um HUB de conexão, todas as fibras internacionais chegam em Fortaleza pela Praia do Futuro. Então, se tem uma internet de boa qualidade e a um baixo custo”, completa.

Desconexão prejudica estudantes

Muitas crianças encontram a maior fonte de cultura e de inclusão social na escola, principalmente, por falta de recursos. Essa realidade ficou nítida durante a pandemia da Covid, que impôs as aulas remotas.

“Não dar acesso à internet é fazer exclusão digital e não se beneficiar de alguns programas e recursos multimídia, que utilizam várias plataformas, inclusive, dentro do próprio MEC (Ministério da Educação)”, reflete Ticiana Santiago, doutora em Educação Brasileira.

crianças e adolescentes
Legenda: Formação de crianças e adolescentes é prejudicada pela falta de acesso à internet
Foto: Thiago Gadelha

A especialista, psicopedagoga e professora universitária, explica que as unidades de ensino precisam oferecer diversidade cultural com mais recursos e linguagens como forma de permitir o aprendizado pleno dos estudantes.

O modelo construtivista vem ganhando força com a ideia de não ter mais aquele aluno passivo, de absorver o conhecimento de modo tradicional. Pela base comum curricular, queremos ver os alunos como construtores do conhecimento
Ticiana Santiago
Doutora em educação brasileira

Os estudantes com necessidades educativas especiais, como autistas, podem ter o ensino otimizado com plataformas e recursos ligados à internet. Além deles, professores também têm a rotina de ensino prejudicada com a falta de conexão.

Ticiana define o movimento como uma inclusão perversa em que não há equidade e participação plena da comunidade escolar. Isso acaba por tirar a oportunidade, por exemplo, de desenvolver quesitos importantes para a formação cidadã.

“Temos uma vertente da educomunicação, para o uso crítico da mídia, de transformar essas crianças e adolescentes em produtores de mídia ao criar podcasts, discutir o que é fake news e trabalhar algumas plataformas digitais”, contextualiza.

Internet nos municípios cearenses

A Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) listou à reportagem as ações estaduais para ampliação do acesso às tecnologias nos municípios cearenses.

  • Aquisição de chips com pacote mensal de 20GB de internet móvel para mais de 627 mil alunos dos Ensinos Fundamental e Médio das escolas estaduais
  • Distribuição de 300 mil tablets aos que ingressaram na 1ª série do Ensino Médio desde 2020. Essa oferta é contínua e permanente na rede estadual.
  • Entrega de 21 mil notebooks para os professores das escolas estaduais ainda em execução

R$ 80 milhões
Destinado para as redes municipais pelo Pacto pela Aprendizagem, uma ação do regime de colaboração entre estado e municípios, para que os 184 municípios utilizem em melhorias como o reforço da conectividade com equipamentos tecnológicos, além de reforma e aquisição de equipamentos para as escolas, entre outras demandas estruturais.

Além disso, o programa Cinturão Digital disponibiliza fibra óptica pública estadual e um conjunto de equipamentos de Tecnologia da Informação para o transporte da comunicação digital de informações, áudios, vídeos e imagens. "No momento, a fibra óptica chega em 95 municípios cearenses. Os demais municípios serão contemplados com a conclusão do Programa Ceará Conectado", detalhou a Seduc.