Peixes-boi desaparecem no litoral do Ceará e correm risco de vida; saiba como ajudar

Os animais foram soltos no mar e se desprenderam do equipamento de monitoramento.

Escrito por
Sofia Leite* producaodiario@svm.com.br
Imagem mostra um peixe-boi com um 16 em tinta branca marcado na cabeça em uma piscina com fundo azul.
Legenda: Peixes-boi perdidos podem ser encontrados em águas rasas.
Foto: Mika Holanda/Acervo Aquasis.

O litoral nordestino está sendo cenário de buscas intensas por dois animais desaparecidos: os peixes-bois-marinhos Ariel e Estevão. Eles foram resgatados pela Organização Não Governamental (ONG) Aquasis em 2016, quando ainda eram recém-nascidos, após encalharem em praias do litoral leste do Ceará - Estevão na praia de Canoa Quebrada, em Aracati, e Ariel na Praia de Ariós, em Beberibe.

Os dois animais estão perdidos porque os equipamentos de monitoramento se desprenderam deles e, com isso, não é possível localizá-los. Como ambos perderam os localizadores nos primeiros dias em vida livre, a ONG não conseguiu prever para onde Ariel e Estevão estavam indo.

A Aquasis estendeu os alertas de buscas por quase toda a costa norte e nordeste do Brasil, desde o Pará até a Bahia. Instituições parceiras das redes de encalhe de mamíferos aquáticos regionais também estão atuando nas buscas.

Estevão está desaparecido desde agosto de 2024 e Ariel, desde novembro de 2025. Estevão é macho e tem um 8 marcado na cabeça e perto da cauda, que está quase apagado. Ariel é fêmea e é marcada com um 16 em tinta branca bem aparente nos mesmos lugares. Pode ser que eles ainda estejam com um cinto de borracha na base da cauda.

Imagem mostra um peixe-boi com um 16 marcado na cabeça em um água esverdeada e sendo coberto por uma flor branca.
Legenda: Ariel tem um 16 marcado na cabeça e é um dos peixes-boi desaparecidos.
Foto: Acervo Aquasis.

Imagem mostra um peixe-boi com um número 8 meio apagado na cabeça nadando na água
Legenda: Estevão está desaparecido há mais de um ano e tem um número 8 marcado na cabeça.
Foto: Acervo Aquasis.

Ambos ficaram sob cuidados humanos por mais de oito anos, recebendo alimentação especial, fazendo exames periódicos de saúde e avaliações comportamentais. Após serem soltos no ambiente natural, a Aquasis ficou responsável por monitorá-los e, caso necessário, realizar intervenções. 

Sem o rastreamento, o profissional explica que os mamíferos correm risco de desidratação e de inanição, pois podem não encontrar fontes adequadas de água e alimento. Essa vulnerabilidade os torna mais suscetíveis a doenças.

O ambiente também oferece riscos: os animais podem acabar em locais rasos, contaminados ou sem recursos básicos. Além disso, a desorientação pode levá-los a grandes deslocamentos, resultando em exaustão física, ou ao mar, onde a sobrevivência de um peixe-boi é inviável por longos períodos, principalmente devido à falta de alimento.

Como funciona o monitoramento dos peixes-boi

O monitoramento para avaliar a adaptação dos animais à vida livre é feito por meio de um equipamento que transmite sinais via satélite e rádio. Os componentes eletrônicos do transmissor ficam em uma parte flutuante, conectada ao corpo do animal por um cabo de nylon que fica preso a um cinto de couro e borracha colocado na base da cauda.

Por medida de segurança, o equipamento possui dois pontos de quebra, para evitar que os peixes-boi fiquem presos em cordas, redes de pesca, galhos ou outros artefatos. Isso previne morte por afogamento ou exaustão física. 

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Segundo o gerente do programa de mamíferos marinhos da Aquasis, Vitor Luz, o monitoramento é importante para obter a localização dos animais e avaliar se estão se alimentando, bebendo água doce, desempenhando comportamentos normais e utilizando ambientes adequados. Esse monitoramento precisa ser feito por pelo menos um ano para assegurar a aptidão de um animal que está solto há pouco tempo à vida livre.

Animais que continuam em monitoramento

A Aquasis segue monitorando três animais soltos no mar. Um deles é o Chiquinho, que vive em Icapuí há cerca de 10 meses. Ele vem mostrando uma boa adaptação à vida livre.

Outros dois animais, ambos soltos em 2023, já estão adaptados e utilizam diferentes regiões do litoral de Icapuí como morada. Mirim e Pintada, como foram nomeados, são considerados sucesso de soltura.

Icapuí concentra a maior parte da população de peixes-boi do estado do Ceará e possui todas as condições ecológicas requeridas pela espécie. Em um censo realizado em 2025 pela Aquasis, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), foram contabilizados pelo menos 60 peixes-boi no município. Conforme Vitor Luz, esse número certamente é maior, mas, ainda assim, é uma população bastante reduzida e ameaçada de extinção.

Buscas

Vitor Luz explica ainda que, devido à turbidez do mar do Ceará, o comportamento discreto da espécie e a grande capacidade de deslocamento que os peixes-boi possuem, as buscas são muito complicadas.

Por serem animais que tiveram maior convívio com humanos e que não foram ensinados pelas mães a viver no ambiente marinho, existe maior probabilidade de se aproximarem de seres humanos e utilizarem lugares mais atípicos para a espécie no Ceará, como o litoral oeste e extremo oeste, rios e estuários. O deslocamento para estados vizinhos também é possível. 

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As equipes da Aquasis fazem buscas através de drones por até 30 dias depois do desaparecimento dos animais. No entanto, segundo Vitor Luz, a estratégia mais eficaz são as campanhas de divulgação realizadas no litoral, com comunidades costeiras, moradores e veranistas, para divulgação das buscas. A ONG também organiza campanhas digitais. 

O que fazer ao avistar um dos animais desaparecidos?

É possível que um cidadão comum cruze com algum dos peixes-boi desaparecidos. As pessoas que têm a maior probabilidade de avistar os animais são aquelas que usam a zona costeira com mais frequência, como pescadores, marisqueiras, moradores de comunidades litorâneas ou ribeirinhas e veranistas.

Estevão e Ariel devem estar em águas rasas, mesmo que esse não seja o ambiente comum dos peixes-boi. Por isso, eles podem ser encontrados próximos da zona de arrebentação das ondas, de embarcações, áreas de estuários, rios ou gamboas.

Imagem mostra peixe-boi nadando em água azulada com mata verde ao fundo.
Legenda: Peixes-boi podem ser avistados com a cabeça levemente para fora da água.
Foto: Diego Ramires.

Ao encontrar um peixe-boi marcado com os números 8 ou 16, você deve tirar fotos, gravar vídeos e compartilhar imediatamente os registros e um relato detalhado com as equipes da Aquasis por meio dos números de telefone (85) 99800-0109 e (85) 99188-2173.

A partir disso, as equipes irão a campo para tentar localizar o animal e recolocar o transmissor para possibilitar o retorno do monitoramento. Vitor Luz conta que, em circunstâncias similares, outros peixes-boi já foram encontrados por colaboradores que conheciam a informação e contataram a Aquasis.

Caso um animal com transmissor seja avistado, o equipamento não pode ser retirado sob hipótese alguma.

Trabalho da Aquasis 

A Aquasis é uma ONG fundada há quase 30 anos e tem como objetivo proteger espécies ameaçadas e habitats importantes para a conservação da biodiversidade do Ceará. A instituição possui uma equipe multidisciplinar e é apoiada por parceiros nacionais e internacionais.

Além de cuidar dos peixes-bois-marinhos e prepará-los para retornar ao mar, a ONG realiza atividades de educação socioambiental. Quando há encalhe de cetáceos, como golfinhos e baleias, a instituição também os ajuda, fazendo o atendimento no local onde os animais apareceram. Ao todo, 24 peixes-boi estão sob os cuidados da ONG atualmente.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo

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