Das 10 cidades cearenses com mais chuvas em 2026, nove estão abaixo da média histórica
O município de Moraújo, que teve a maior média do ano, é um dos que estão abaixo da taxa de precipitação normal.
Entre os 10 municípios com as maiores médias anuais de chuvas no Ceará em 2026, nove não atingiram a média normal (ou média histórica) de chuvas, inclusive o primeiro da lista. Os dados são da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).
Apesar de ocuparem o topo do ranking, com precipitações que variam entre 961 e 810 milímetros, os municípios de Moraújo, Caririraçu, Crato, Granja, Missão Velha, Abaiara, Maracanaú, Várzea Alegre e Ipaumirim estão com precipitações abaixo da média esperada, conforme registros até essa sexta-feira (10).
Na lista do "top 10", o único que superou a média histórica foi o segundo lugar da lista, o município de Baixio, no Cariri, com 916.5 milímetros.
Dez cidades com mais chuvas no Ceará em 2026
- Moraújo - 961 mm
- Baixio - 916.5 mm
- Caririaçu - 889.3 mm
- Crato - 887.4 mm
- Granja - 864.3 mm
- Missão Velha - 840.3 mm
- Abaiara - 834 mm
- Maracanaú - 829.5 mm
- Várzea Alegre - 827.4 mm
- Ipaumirim - 810 mm
Por que alguns dos mais chuvosos ainda estão abaixo da média histórica?
A explicação para esse panorama das chuvas no Estado pode estar ligada a três fatores: o período do ano, uma baixa já esperada para todo o Ceará e uma atuação fraca do principal sistema atmosférico cearense.
"Primeiro que nas previsões desse ano para o Ceará, já existia uma probabilidade até elevada dessas chuvas realmente estarem abaixo da média, o que vem se confirmando nesses últimos dois meses com diminuição de precipitações", explica o professor e coordenador do Laboratório de Climatologia e Estudos Ambientais (Climas), da Universidade Federal do Ceará (UFC), Antônio Júnior.
Em 2025, o professor Antônio Júnior publicou um artigo em uma revista franco-brasileira de geografia, com estudos específicos elaborados por vários climatologistas, apontando uma tendência de diminuição das chuvas cearenses com o decorrer dos anos.
Alguns fenômenos oceânicos, como o El Niño no Oceano Pacífico e o Dipolo do Oceano Atlântico, aparecem como grandes pilares do estudo. "Nos últimos anos, esses fenômenos têm se mostrado mais secos, o que interfere na chuva", complementa o professor.
O El Niño altera a temperatura do oceano Pacífico, provocando mudanças climáticas significativas principalmente na faixa tropical do globo. O Dipolo do Atlântico Tropical atua como uma "gangorra" térmica na temperatura da superfície do mar, controlando o regime de chuvas no Nordeste brasileiro e na África Ocidental
Em 2026, até durante o mês de março, conhecido como mês mais chuvoso para a maioria dos municípios cearenses, a Funceme divulgou que a média mensal de chuvas foi de 174.5 milímetros — valor 15,5% menor que a média normal de 206.5 milímetros.
Ainda assim, não há nada de muito novo ou inexplicável na queda das médias. "Mas algo que vale destacar é a atuação muito fraca da ZCIT (Zona de Convergência Intertropical), que é o nosso principal sistema atmosférico e está um pouco mais fraco esse ano", afirma o professor Antônio Júnior.
Segundo o pesquisador, esse fator pode ser o principal responsável pela diminuição das chuvas até os meses de abril e maio — período em que a ZCIT atua com maior intensidade no Ceará.
A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) é uma faixa de nuvens carregadas que circula a região equatorial do globo. Esse é o principal sistema meteorológico causador de chuvas intensas no norte e nordeste do Brasil durante o primeiro semestre
Além disso, "a nossa quadra chuvosa (fevereiro a maio) não está completa. Então pode ser que daqui pra frente mais chuvas aconteçam nesses municípios", explica o professor.
A chamada "média normal" ou "média histórica" de um município é calculada pela Funceme através da análise das precipitações da série histórica — que compreende o intervalo entre os últimos 30 anos e o período atual.
Como esses municípios encerraram o ano de 2025?
Em 2025, o cenário foi um pouco diferente para esses nove municípios. Apenas três deles ficaram abaixo da média: Moraújo (com valor 13,8% menor que a média), Granja (com 13,7%) e Ipaumirim (com 8,8% abaixo do esperado).
A média geral do Estado também encerrou o ano de 2025 com déficit: uma média anual de 795.1 milímetros — valor 1,7% menor que a média normal de 809.1 milímetros. Esse cenário não acontecia desde 2021, quando o Estado finalizou o ano com média de 692.3 milímetros — 14,4% abaixo do esperado.
O município mais chuvoso abaixo da média histórica
Localizado no Noroeste do Ceará, Moraújo, a cerca de 390 km de Fortaleza, é o município com a maior média anual de chuva do Estado em 2026 até essa sexta-feira. Com 961 milímetros, o acumulado está 8,9% abaixo da média histórica da Cidade, que é de de 1054.9 milímetros.
A cidade com cerca de 8 mil habitantes é conhecida pelas chuvas constantes. Segundo Francisco Luziano, que reside há mais de duas décadas em Moraújo e trabalha como colaborador da Funceme, documentando as precipitações, "a comunidade espera ansiosa pela chuva todos os anos".
Em entrevista ao Diário do Nordeste, o meteorologista da Funceme Bruno Rodrigues reforça que essa baixa pode ser explicada principalmente pelo fato de a quadra chuvosa ainda não ter terminado.
Por que Moraújo registrou a maior média chuvosa do Ceará?
Para o meteorologista, o primeiro fator que explica essa média alta de chuvas é a localização de Moraújo: "Esse município fica próximo de áreas serranas, fato que favorece o aumento da nebulosidade e faz com que, em alguns períodos, principalmente da tarde, chuvas intensas aconteçam".
Ainda segundo ele, "o fenômeno da brisa marítima, que acontece principalmente no período da tarde no Ceará, também faz com que essas áreas mais do interior, afastadas do litoral, recebam ainda mais nebulosidade".
As brisas marítimas são fenômenos naturais resultantes da diferença de temperatura entre o oceano e o continente. Durante o dia, o ar mais fresco do oceano se desloca em um fluxo constante para o interior do Estado.
Para o especialista, ambos os fatores são "normais" e nenhum fenômeno extraordinário pode ser apontado como causador das fortes precipitações que levaram Moraújo ao topo da lista.
Único açude de Moraújo sangrou após as chuvas
Apesar da baixa, a precipitação foi suficiente para fazer sangrar, no último dia 2, o açude Várzea da Volta, que abastece a região e é importante ponto turístico da área. Desde 2018, o açude sangra todos os anos. As informações são da Companhia de Gestão de Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh).
O açude tem capacidade de 12,5 milhões de metros cúbicos de água e é utilizado para o abastecimento urbano de Moraújo e Coreaú, mas também é espaço de lazer e visitação turística na Cidade.
A moradora Luzia Marciano da Silva conta que a comunidade se prepara anualmente para passar o período da Semana Santa fazendo comemorações no açude. "A gente até estranhou que na quinta-feira [da Semana Santa] de manhã ainda não tinha sangrado, mas depois disso teve festa, comida e muitas famílias aqui", conta a cearense que mora na rua do açude Várzea da Volta.
"Nesta época, os balneários daqui sempre vivem lotados. As pessoas vêm de Alcântaras, Massapê, Coreaú e de muitas cidades vizinhas só pra tomar banho no nosso açude", diz Francisco Luziano.
*Estagiária sob supervisão das jornalistas Mariana Lazari e Dahiana Araújo.