Conheça a disciplina da UFC que ensina "felicidade" aos alunos da graduação
A disciplina é aberta para os estudantes de todos os cursos da UFC e acontece no campus do bairro Pici.
Dizem que uma das funções da universidade, além de promover conhecimento teórico, é ensinar sobre a vida. Autoconhecimento, boa convivência social e resolução de problemas são algumas das competências que podem ser adquiridas a partir das vivências transformadoras que a graduação oferece. A disciplina "Felicidade", ministrada na Universidade Federal do Ceará (UFC), ajuda a fazer com que o Ensino Superior cearense cumpra esse papel.
Nas terças-feiras do semestre letivo, no Instituto de Cultura e Arte (ICA) da UFC, estudantes se reúnem para discutir as mudanças no conceito de felicidade ao longo do tempo e entender mais sobre eles mesmos.
O professor e psicólogo Francisco Silva Cavalcante Junior ministra, há dois anos, a disciplina "Felicidade", que ele prefere chamar de curso para tirar o peso de "obrigação" das aulas. Segundo Francisco, esse não é um curso de psicologia positiva ou um imperativo de felicidade, é um curso para refletir sobre mais de três mil anos de estudo do conceito de felicidade e de vida feliz. Os alunos leem, ao longo das aulas, textos de pensadores como Aristóteles, Epicuro e Nietzsche.
A disciplina é aberta para os estudantes de todos os cursos da UFC e acontece no campus do bairro Pici. O curso surge com a proposta de ser transversal, trazendo assuntos de interesse de todas as áreas do conhecimento e não sendo ligado a nenhuma graduação específica.
Conhecimento prático
Além de a disciplina trazer a parte teórica, com textos e discussões filosóficas, os alunos também fazem um mergulho em si mesmos. Os estudantes entendem, com as aulas, que a felicidade não é um sentimento mais importante que os outros e que ele só surge através de muita prática.
Eu ajudo os estudantes a pacificarem as suas experiências emocionais e reconhecerem que, como dizia Aristóteles, talvez a mais nobre coisa do mundo seja a felicidade, porém, a sua conquista é fruto de um exercício, de uma produção quase que diária.
Outro conhecimento adquirido ao longo dos 16 encontros, de 4 horas cada, é o de que emoções como tristeza e angústia também são necessárias.
Atividades e trabalho final
A última parte da disciplina trata sobre a noção atual do conceito de felicidade. Para Francisco Silva, na contemporaneidade, a felicidade é vista como um produto a ser consumido e uma conquista individual. "O neocapitalismo diz que você precisa ser feliz sozinho, mas o curso é concluído com a produção de um trabalho voltado para o coletivo, algo que seja importante para a humanidade e para a transformação dos valores", explica o professor.
O trabalho final da disciplina é um momento para materializar o que o estudante passou a entender como felicidade ao longo dos 4 meses do semestre. A obra deve ser pensada para ser compartilhada com a turma na última aula.
A estudante do curso de Moda da UFC, Sarah Matos Folco, fez, como trabalho final da disciplina no semestre 2025.2, uma banoffee. Ela não sabia fazer sobremesas e se deu como tarefa aprender a preparar banoffee, um prato que gosta de comer. Sarah aprendeu, fez a sobremesa e levou para servir em sala de aula como obra de felicidade coletiva.
Já o gestor comercial Davi Santana e Silva produziu, com mais alguns estudantes, um jogo de tabuleiro que tinha como objetivo descobrir o que as outras pessoas pensavam sobre determinado assunto. Davi é aluno de Gastronomia e cursou a disciplina no semestre 2025.1. Segundo ele, o produto criado por sua equipe gerou um momento colaborativo e de conexão com o restante da turma, fazendo todos se colocarem no lugar do outro.
Veja também
O professor conta ainda que alunos do curso já fizeram, para apresentar ao fim do semestre, obras como perfumes com um cheiro que remete à felicidade e oficinas de culinária para fazer degustações coletivas de pratos.
Apenas esse trabalho vale nota no final do curso, mas uma outra atividade também é muito importante para a construção do conhecimento: a escrita de um diário. O professor Francisco Silva dá um caderno para cada estudante no começo do semestre. Os alunos usam o material para escrever pensamentos e percepções relacionadas ao conteúdo das aulas. Semanalmente, os cadernos são abertos e as anotações são compartilhadas com a turma.
Quando o curso é concluído, o professor recolhe os cadernos e cola em cada capa um adesivo que funciona como um certificado de participação.
Experiência transformadora
O analista de mídia Emanuel Moreira cursou a disciplina no semestre 2024.2. Ele vivia um relacionamento abusivo baseado na positividade tóxica, no qual a felicidade era usada de forma opressiva. Quando a relação acabou, ele passou a refletir sobre a importância do direito de se sentir mal. Descobrir a existência de uma disciplina chamada "Felicidade", que tinha uma abordagem inserida nos contextos sociológico, psicológico e comunicacional, caiu como uma luva para Emanuel.
A disciplina fez com que ele decidisse o tema do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), porque surgiu nele uma necessidade de sintetizar todas as análises, vivências e teorias que estava aprendendo. "Foi como se tivesse descido uma luz do céu para aprofundar meu repertório bibliográfico e teórico e também, claro, para encontrar o professor/orientador que casava perfeitamente com as nuances das minhas ideias", conta o analista de mídia.
O tema do TCC de Emanuel foi “Neoliberalismo e a comunicação como forma de controle do sofrimento psíquico”. Ele foi aprovado com nota máxima pela banca avaliadora no curso de Publicidade e Propaganda.
*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo