Como fazer uma redação nota 1000: técnicas, estrutura e os erros fatais para evitar

Professores dão dicas de como se dar bem na prova.

Escrito por
Ana Alice Freire* producaodiario@svm.com.br
Dois jovens sentados em uma mesa ao ar livre em frente a uma porta de madeira e parede de tijolos, estudando juntos com um laptop e um livro aberto.
Legenda: Provas do Enem 2025 serão nos dias 9 e 16 de novembro
Foto: Pexels

Com a aproximação do primeiro domingo de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a ser realizado no dia 9 de novembro, a atenção frente às estratégias e técnicas são redobradas, principalmente na preparação para a prova de Redação.

A prova exige a elaboração de um texto dissertativo-argumentativo com até 30 linhas, a partir da situação-problema proposta, sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política.

A redação, corrigida por dois corretores, deve conter a defesa de uma opinião sobre o tema proposto, amparada em argumentos e fatos consistentes, coerentes e coesos. Ao final, deve ser apresentada uma proposta de intervenção social para o problema, respeitando os direitos humanos. 

Para Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações educacionais na plataforma SAS Educação, a chave para a redação nota máxima está em “ entender a concepção das cinco regras do jogo".

O professor se refere às cinco competências avaliadas na redação, às quais os corretores atribuem de 0 a 200 pontos em cada. A soma desses pontos vai compor a nota total de cada avaliador, que pode chegar a 1000 pontos. A nota final do participante será a média aritmética entre as notas totais atribuídas pelos dois avaliadores.

Veja também

De acordo com a Cartilha do Participante 2025, publicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), os critérios de cada competência correspondem a: 

  • Competência 1: Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.
  • Competência  2: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa.
  • Competência 3: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.
  • Competência 4: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.
  • Competência 5: Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.

Ademar caracteriza o candidato nota 1000 como aquele que consegue equilibrar as cinco competências, de modo que “domina as regras gramaticais, entende a proposta de redação, não usa repertórios de bolso e ultrapassa as ideias gerais do ponto de vista do conhecimento".

Para o professor, esse aluno tem repertório, conhecimento e propósito de projeto de leitura. "Ele sabe selecionar os argumentos. Ele tem uma progressão adequada no desenvolvimento do tema, revelando, por exemplo, como é que ela foi planejada, quais são as ideias desenvolvidas, qual é o passo a passo de uma redação bem organizada”, complementa.

Domínio da escrita formal 

A Competência I da redação do Enem avalia se o candidato domina a modalidade escrita formal da língua portuguesa, o que inclui ortografia, acentuação, gramática e estrutura sintática. É o critério que mede se o texto está adequado às normas da língua e bem construído do ponto de vista das frases e períodos.

Segundo o professor Ademar Celedônio, o diferencial das redações nota 1000 está justamente nessa articulação entre forma e conteúdo. “O aluno que tira nota mil sabe articular posicionamento com sintaxe, desde convenções de escrita, de gramaticais e de vocabulário”, define. 

A avaliação considera tanto a correção gramatical e ortográfica quanto a clareza e fluidez da estrutura sintática. Textos bem avaliados apresentam períodos completos e construções complexas, com orações subordinadas e intercaladas.

Já aqueles com falhas comuns, como frases truncadas, vírgulas no lugar de pontos ou excesso de palavras, perdem pontos, já que esses desvios comprometem a compreensão. Além da sintaxe, a competência também observa aspectos como:

  • Convenções da escrita: acentuação, ortografia e uso de maiúsculas;

  • Gramática: concordância, regência, pontuação e crase;

  • Registro formal: ausência de marcas de oralidade e linguagem informal;

  • Vocabulário: escolha precisa e adequada ao contexto.

Esses critérios são distribuídos em seis níveis de desempenho, que vão do domínio precário ao total da norma culta da língua

Compreender o tema e construir repertório

A Competência II da redação do Enem avalia se o candidato compreende corretamente a proposta de redação e desenvolve o tema dentro da estrutura exigida: o texto dissertativo-argumentativo em prosa. Nessa etapa, são analisadas a interpretação do tema, a organização das ideias e o uso de repertório sociocultural para sustentar a argumentação.

O primeiro ponto é entender e desenvolver o tema proposto, respeitando o recorte específico da prova. Textos que se desviam do tema — seja parcialmente (tangenciamento), seja totalmente — têm notas significativamente reduzidas, podendo até ser zerados.

Também é avaliado o domínio da estrutura dissertativo-argumentativa, ou seja, a capacidade de apresentar uma tese clara e defendê-la com argumentos consistentes. O texto deve ir além da simples exposição de fatos, articulando informações e opiniões de forma lógica e coesa.

Legenda: A prova de redação do Enem exige a elaboração de um texto dissertativo-argumentativo com até 30 linhas
Foto: Pexels

Outro aspecto essencial é o uso de repertório produtivo, ou seja, referências de natureza sociocultural (como dados, citações, obras, ou fatos) que dialoguem com o tema e fortaleçam o ponto de vista do autor.

O Enem valoriza repertórios contextualizados e originais, e penaliza o uso de referências genéricas, decoradas ou sem relação com a discussão proposta.

A professora Amanda Teixeira, que leciona para turmas do ensino médio e pré-vestibular da rede particular, reforça a importância de observar o mundo ao redor como fonte de repertório:

"Para os candidatos que querem se sobressair aos demais, a maior dica é sempre estar atento ao próprio redor. Isso inclui os momentos de entretenimento: filmes, conversas com amigos, notícias que se popularizam rápido, o jogo de videogame com os colegas, o livro que alguém citou, em um dado momento, no colégio, e pontuou como bom", avalia.

Segundo Amanda, é sempre importante fazer perguntar-se "Por que todo mundo está vendo isso? Por que tem chamado atenção de tanta gente?"  A partir dessa identificação, explica a professora, é importante construir um exercício mental e fazer associações críticas. 

O que isso fala sobre a realidade o meu país? Há alguma crítica social, alguma denúncia? Isso se parece com alguma outra situação que presenciei? E, dessa forma, sem perceber, o candidato já tem uma “caixinha” mental de repertórios autorais, construídos pela própria vivência.
Amanda Teixeira
Professora

Amanda destaca ainda que esse exercício constante de observação e associação ajuda o estudante a construir uma visão crítica e repertórios autênticos — algo que faz toda a diferença na Competência II. Além disso, a cartilha do Enem lembra: copiar trechos dos textos motivadores ou se apoiar apenas neles é um erro que pode reduzir a nota ou até invalidar a redação.

Coerência e planejamento 

A Competência III da redação do Enem avalia a capacidade do candidato de selecionar, organizar e relacionar informações, fatos e argumentos para defender um ponto de vista.

Segundo o professor Ademar Celedônio, é nessa competência onde o estudante mostra domínio da estrutura argumentativa. “Na Competência III, o aluno precisa ter um projeto de texto sólido. É nesse ponto que ele seleciona, organiza e interpreta as informações de forma estratégica, estabelecendo relações de sentido e garantindo a progressão adequada do desenvolvimento”, pontua. 

O chamado projeto de texto é justamente esse planejamento prévio: a definição dos argumentos que serão usados e da melhor ordem para apresentá-los, de modo que o leitor perceba claramente a lógica da argumentação. Um bom texto demonstra que as ideias foram pensadas e conectadas com propósito — sem repetições, contradições ou quebras de sentido.

O desenvolvimento é o coração dessa competência: é nele que os argumentos ganham corpo por meio de exemplos, comparações, dados, analogias ou fatos concretos. O importante é que todas as informações estejam articuladas com a tese e contribuam para fortalecer o ponto de vista defendido.

Para alcançar uma boa pontuação na Competência III, é essencial:

  • definir com clareza o ponto de vista;

  • selecionar argumentos pertinentes e organizá-los em sequência lógica;

  • garantir a coerência entre introdução, desenvolvimento e conclusão;

  • evitar informações soltas, repetições ou mudanças bruscas de tema.

Coesão é o que “dá liga” ao texto dissertativo

A Competência IV da redação do Enem avalia a coesão textual, ou seja, a capacidade do candidato de articular frases e parágrafos de modo que o texto apresente continuidade lógica e fluidez. Para isso, é preciso dominar os recursos linguísticos que conectam ideias (como pronomes, conjunções, advérbios e operadores argumentativos) e garantir que cada parte da redação esteja ligada à anterior e à seguinte.

Segundo o professor Ademar Celedônio, essa é a competência que “dá liga” ao texto. “A Competência IV é onde o aluno mostra que sabe costurar o texto. Ele precisa demonstrar domínio dos recursos linguísticos que fazem a argumentação fluir — as conjunções, os advérbios, as expressões que dão coesão. É o que garante que o texto tenha começo, meio e fim, sem precisar repetir o que já foi explicado”.

De acordo com a cartilha do Enem, a estruturação lógica entre orações, períodos e parágrafos é essencial para que a argumentação seja compreendida. Cada parágrafo deve girar em torno de uma ideia principal, articulada a ideias secundárias. A passagem de um parágrafo para outro deve ser marcada por conectivos que indiquem causa e consequência, contraste, conclusão ou exemplificação, entre outras relações.

Além disso, a coesão se constrói também por meio da referenciação — o uso de pronomes, sinônimos ou expressões resumitivas para retomar palavras e evitar repetições. Como explica Celedônio, saber substituir termos de forma inteligente “mostra domínio da língua e torna o texto mais natural e bem articulado”.

Entre as estratégias recomendadas estão:

  • usar pronomes e advérbios para retomar elementos já citados;
  • empregar sinônimos, hiperônimos e expressões resumitivas;
  • utilizar conectivos adequados para relacionar ideias;
  • evitar repetições desnecessárias e conexões forçadas.

O uso de operadores argumentativos deve ser natural e preciso. O excesso ou o emprego inadequado desses elementos pode prejudicar a clareza do texto. Como reforça a cartilha, não é a quantidade de conectivos que torna o texto coeso, mas a lógica entre as ideias.

Coerência e produtividade 

A Competência V avalia a capacidade do candidato de apresentar uma proposta de intervenção para o problema discutido no texto, sem desrespeitar os direitos humanos. É o momento de demonstrar não apenas domínio da escrita, mas também consciência cidadã e senso crítico.

A proposta deve ser coerente com os argumentos desenvolvidos, articulada ao projeto de texto e voltada para a resolução do problema central. Ela precisa responder a perguntas essenciais: quem vai agir (agente), o que será feito (ação), como (meio), para quê (finalidade ou efeito) e detalhamento adicional que torne a solução mais específica e viável.

De acordo com a cartilha do Enem, propor uma intervenção significa sugerir ações concretas e possíveis, de alcance individual, comunitário, social ou governamental, que contribuam para enfrentar o problema de forma respeitosa e democrática. Propostas vagas, genéricas ou incompatíveis com o tema são penalizadas.

A professora Clea Gadelha, do Colégio Estadual Liceu do Ceará, reforça que o segredo está na coerência e no preparo: “A conclusão precisa ter os cinco elementos da proposta de intervenção: o agente, a ação, o meio, o efeito e o detalhamento. A coerência é a palavra-chave. Uma intervenção bem avaliada é aquela que é clara, lógica, viável e demonstra um olhar crítico sobre a realidade.”

Ela explica que trabalha com os alunos por eixos temáticos, como educação, tecnologia, meio ambiente, economia e minorias, para desenvolver repertórios e argumentos sólidos. “Dentro de cada eixo, vamos selecionando repertórios e construindo argumentos. Isso ajuda o estudante a propor soluções mais embasadas e conectadas com o tema.”

Além da coerência e da viabilidade, a proposta precisa respeitar os direitos humanos, um princípio indispensável. Qualquer sugestão que envolva violência, discriminação ou violação da dignidade humana resulta em nota zero na Competência V.

Na reta final: prática, equilíbrio e confiança

Para o professor Ademar Celedônio, o momento que antecede a prova é de foco e serenidade. Ele recomenda revisar os temas das últimas edições do Enem e praticar duas ou três redações até o dia da prova, sempre com atenção à coerência e ao desenvolvimento das ideias. “Não acredite em repertórios de bolso nem nessas ilusões vendidas por aí, de que qualquer frase cabe em qualquer texto. O corretor percebe quando o repertório é forçado”, alerta.

Além da prática, Ademar reforça a importância de cuidar da saúde física e emocional: “Durma bem, se hidrate, se alimente direito. Na véspera, esteja perto de quem você ama e faça o que gosta — isso é mais importante que qualquer maratona de estudos.”

Por fim, ele lembra que uma leitura atenta da Cartilha do Participante, disponível no site do Inep, pode fazer diferença: o documento traz orientações oficiais, exemplos de redações nota mil e critérios de correção, ajudando o candidato a entender exatamente o que é esperado em cada competência.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo.

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado
Este conteúdo é útil para você?