Cearense é uma das 10 mulheres do Brasil aprovadas no ITA em 2026

Vestibular teve 180 convocados, dos quais só 5% foram meninas.

Escrito por
Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
(Atualizado às 15:41)
Imagem mostra estudante jovem em frente ao prédio do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, em São Paulo.
Legenda: Elisa já está no campus do ITA em São José dos Campos, São Paulo, para os semestres iniciais de estudos.
Foto: Arquivo pessoal.

Foram cinco tentativas. Cinco anos preparando mente e coração para receber o telefonema que concretizaria o sonho antigo: da voz da vice-reitora, a estudante cearense Elisa Vidal, de 22 anos, ouviu que estava entre os 180 aprovados no vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) de 2026.

O processo seletivo, um dos mais difíceis do Brasil, foi iniciado ainda em 2025 e finalizado neste mês, incluindo provas objetivas, discursivas e inspeção de saúde. Entre os selecionados, há pelo menos 63 cearenses – três deles meninas, uma delas Elisa.

“Quem me ligou foi a vice-reitora do ITA, a Emilia (Villani). Foi muito emocionante. Mas a ficha não cai, você só acredita quando vê o nome na lista. O que eu senti foi um grande alívio. E meus pais se emocionaram mais que eu”, brinca a jovem.

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A conquista veio após uma vida escolar inteira de apreço por disciplinas exatas e dedicada a olimpíadas científicas. Vocação tamanha que levou a jovem a prestar o vestibular do ITA como treineira por dois anos.

Ao fim do ensino básico, em 2020, Elisa foi aprovada em Engenharia da Computação na Universidade Federal do Ceará (UFC). Chegou a cursar dois semestres, mas sonho é magnetismo: foi puxada de volta.

“Ao mesmo tempo (em que estava na universidade), eu fazia cursinho online. Mas vi que passar no ITA exigia muito: resolvi me desligar da federal e focar na preparação”, relata. A persistência, então, foi determinante.

“Nesses 5 anos de cursinho, teve ano que eu errei o gabarito e não fui nem pra 2ª fase. Teve ano que não tinha classificação pra passar, teve ano que cheguei bem perto e não passei. Insisti.”

Para cuidar da mente no cenário de alta pressão, ela contou com o apoio de quem compartilhava o mesmo objetivo. “Foi bem difícil. Eu acordava muito cedo, sentava na frente do notebook e só saía à noite. Minhas costas doíam, saúde mental também era complicada. Mas a turma ITA tem um senso de união muito forte. Sempre tinha uma rede de apoio”, descreve.

A maioria masculina, porém, deixava uma lacuna. “O que eu sentia muita falta era de ter mais meninas comigo. Porque por mais que tivesse amigos homens estudando junto, faz muita falta sentir que tem outras meninas na mesma situação”, declara Elisa. 

Encontrar esse grupo “fez uma diferença absurda”. “Estar nesse ambiente de alta cobrança é muito desafiador, e se torna duplamente difícil quando você percebe que as meninas são minoria. Pode pesar bastante o pensamento errado de que ali não é seu lugar, de que é melhor tentar outra coisa.”

Três pessoas sorridentes, sendo um homem adulto, uma jovem e uma mulher adulta, posando para uma foto em um evento.
Legenda: Elisa e os pais compartilharam a emoção da aprovação da jovem no ITA.
Foto: Arquivo pessoal.

Assim, integrar uma seleta dezena de meninas, apesar da alegria, é conquista agridoce. “Me sinto orgulhosa, mas ao mesmo tempo eu não queria só ser uma das 10 meninas: queria ser uma das 50. É gratificante, mas ao mesmo tempo é triste”, reflete Elisa. 

Para mulher, ela opina, o esforço é dobrado. “Quando você faz parte de uma minoria aqui dentro, é um esforço maior – porque além do normal, tem o esforço pra não desistir.” É por isso que, antes de encerrar nossa entrevista, a futura engenheira cearense pediu licença para “fazer um apelo”.

“Para as meninas e mulheres que querem o ITA e outros vestibulares militares: não desistam. Se tiverem condições, tentem até passar, porque vale muito a pena. E ter a companhia de outras na mesma condição, mesmo que virtualmente, é muito valioso. E, acima de tudo: o ITA é, sim, um lugar pras mulheres sonharem em estar.”

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