Ceará não consegue bater meta de vacinação contra influenza desde 2021

Falta de prioridade e fake news atrapalham a proteção de grupos prioritários para a imunização. Estado iniciou campanha de vacinação na sexta-feira (20).

Mão enluvada de profissional de saúde preparando um frasco de vacina ou medicamento com uma seringa em um posto de saúde de Fortaleza.
Legenda: Campanha contra influenza é realizada anualmente na rede pública.
Foto: Helene Santos.

O Ceará iniciou a vacinação de grupos prioritários contra a influenza (gripe), incluindo crianças, gestantes e idosos, na última sexta-feira (20). Porém, o Estado não consegue atingir a meta de imunizar 90% do público-alvo desde 2021. O fenômeno é atribuído à menor procura pela vacinas na rede pública de saúde, nos últimos cinco anos.

A vacina contra a influenza é ofertada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 1999, inicialmente para idosos. A cada ano, a campanha passou a incluir novos grupos prioritários. São pessoas consideradas mais vulneráveis a complicações, trabalhadores de serviços essenciais, entre outros públicos.

Segundo levantamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), com base no sistema LocalizaSUS, o último ano em que a meta de imunização foi batida foi em 2020, quando 97% do público foi imunizado. Nos anos seguintes, o percentual caiu paulatinamente até atingir somente 55%, em 2025.

Na análise específica, a adesão caiu nos três grupos mais suscetíveis a formas graves da doença. Entre as crianças, por exemplo, a cobertura caiu 10 pontos percentuais entre 2023 e 2025:

Para a coordenadora de Imunização da Sesa, Ana Karine Borges, a queda nas coberturas vacinais ocorre após décadas de protagonismo do Ceará em campanhas de imunização. 

“O Brasil, como um todo, sempre foi referência mundial em vacinação. Na época das campanhas contra a poliomielite, havia uma mobilização muito intensa, com busca ativa da população e grande participação nos Dias D”, cita em entrevista ao Diário do Nordeste.

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Segundo a especialista, a redução recente está relacionada a dois fatores. O primeiro é a hesitação vacinal, fenômeno que se consolidou nos últimos anos. Muitas pessoas passaram a adiar a ida aos postos de saúde ou a não priorizar a vacinação na rotina. 

Ela explica que, em alguns casos, a população acredita que não vai adoecer ou acaba deixando a imunização para depois por causa do trabalho e de outras atividades. Esse comportamento contribui para a queda na cobertura.

O segundo é a circulação de desinformação nas redes sociais. Ana Karine Borges ressalta que movimentos antivacina e fake news têm influenciado a percepção da população sobre a segurança e a eficácia dos imunizantes. 

“É importante que as pessoas busquem informações corretas em fontes seguras. Informações equivocadas acabam contribuindo para essa redução nas coberturas”, afirma. 

Como exemplo, ela cita justamente a vacinação contra a influenza: historicamente, os idosos procuravam a imunização logo nos primeiros dias da campanha, mas, após 2021, houve uma queda significativa na adesão.

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Estratégias da campanha

No Ceará, o início da aplicação coincide com o período de maior circulação de vírus respiratórios, estimulada pela quadra chuvosa no Estado. Os dados da Sesa mostram que crianças de 1 a 4 anos e idosos são os mais atingidos pela doença. Por isso, a campanha objetiva proteger a população e reduzir casos graves e óbitos.

3,4 milhões
de cearenses devem ser imunizados até o dia 30 de maio de 2026, segundo a meta da Sesa.

O Ceará foi o primeiro Estado do País a receber a vacina e a iniciar a campanha, recebendo um lote inicial de 760 mil doses. A quantidade corresponde a cerca de 21% da meta de vacinação. Novas remessas chegarão ao longo das próximas semanas.

Para ampliar a cobertura, novas estratégias vêm sendo adotadas em todo o País para ampliar o acesso às vacinas e estimular a população a se imunizar. Ana Karine Borges destaca iniciativas como postos especiais em shoppings e ações de mobilização com o Zé Gotinha, personagem histórico das campanhas. 

“O Programa Nacional de Imunizações (PNI) já salvou muitas vidas e evitou sequelas de doenças como poliomielite, sarampo, rubéola e varíola. A influenza também pode causar complicações graves e até levar à morte, especialmente em grupos mais vulneráveis. Por isso, se a vacina está disponível, é fundamental garantir essa imunização no tempo oportuno”, indica. 

Multidão em um corredor de um posto de saúde, com um foco no sinal SALA DE VACINA indicando o caminho, sugerindo uma fila ou área de espera para imunização.
Legenda: Movimentação intensa em posto de saúde no Centro de Fortaleza, em 2018; rede quer retomar alta presença de público.
Foto: Fabiane de Paula.

Quem pode tomar a vacina?

Seguindo recomendações do Ministério da Saúde, podem se vacinar contra a influenza nesta fase da campanha:

  • Crianças de 6 meses a menores de 6 anos (5 anos, 11 meses e 29 dias);
  • Idosos com 60 anos ou mais;
  • Gestantes e puérperas;
  • Povos indígenas;
  • Comunidades quilombolas;
  • Pessoas em situação de rua;
  • Trabalhadores da saúde;
  • Professores;
  • Forças de segurança e salvamento;
  • Profissionais das Forças Armadas;
  • Pessoas com doenças crônicas;
  • Pessoas com deficiência permanente;
  • Caminhoneiros;
  • Trabalhadores do transporte coletivo;
  • Trabalhadores portuários;
  • Trabalhadores dos Correios;
  • População privada de liberdade;
  • Funcionários do sistema prisional;
  • Adolescentes e jovens sob medidas socioeducativas.

Vacina é segura

A vacina trivalente aplicada na rede pública protege contra as cepas do vírus da influenza com maior circulação prevista para 2026, no Hemisfério Sul: 

  • A/Missouri (H1N1);
  • B/Singapore (H3N2);
  • B/Austria.

Os órgãos de saúde ressaltam que, para a fabricação, o vírus passa por um processo de purificação e inativação. Todo o processo passa por sucessivos controles de qualidade tanto no Instituto Butantan, onde a vacina é produzida, quanto no Ministério da Saúde.

Assim, o imunizante é seguro, gratuito e pode ser administrado juntamente com outras vacinas do calendário nacional.

A detecção de anticorpos protetores se dá entre duas e três semanas após a vacinação. A proteção conferida é de aproximadamente um ano, motivo pelo qual a campanha de imunização é feita anualmente.

Vacina disponível o ano todo

Embora a campanha específica seja realizada historicamente no primeiro semestre, Ana Karine Borges ressalta que crianças, gestantes e idosos fazem parte dos grupos de rotina e devem receber a vacina o quanto antes.

“Se não na campanha, eles podem receber o ano todo. Está no calendário”, afirma.

A gestora lembra que o Programa Nacional de Imunização (PNI) tem 50 tipos de imunobiológicos (32 vacinas, 13 soros e 5 imunoglobulinas) disponíveis à população brasileira, em todas as fases da vida.

Onde buscar a vacina?

No período da campanha, a vacinação é realizada nas unidades de saúde dos municípios e nos Vapt Vupt, equipamentos da Secretaria da Proteção Social do Ceará (SPS). 

As três unidades em Fortaleza, nos bairros Papicu, Messejana e Antônio Bezerra, realizam o atendimento das 8h às 17h.

A Secretaria Municipal da Saúde de Fortaleza (SMS) também informou que oferece a vacina nos 134 postos de saúde. A programação para os fins de semana segue um esquema especial e deve ser verificada nos canais oficiais.

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