Aos 12 anos, aluno da rede pública lançou 2 livros e quer levar escritores mirins para Bienal de SP

Davi Moura também idealizou projeto, em tramitação na Câmara Municipal de Fortaleza, de apoio à literatura infantil.

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
07 de Junho de 2026 - 07:00
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Legenda: Mais que conquistar feitos literários sozinho, Davi quer levar mais crianças escritores com ele.
Foto: Kid Júnior.

Criança, estudante de escola pública, escritor e fiel ao sonho: as credenciais de Davi Moura fazem dele alguém diferente. Mais determinado, talvez, mesmo em tão pouca idade. Aos 12 anos, o pequeno cearense tem pavimentado caminho de destaque na literatura ao ter lançado dois livros e, agora, com proposta ainda mais ousada: levar outros escritores mirins do Estado para a próxima edição da Bienal do Livro de São Paulo, de 4 a 13 de setembro deste ano.

“Pra mostrar a essas crianças e adolescentes de que é possível”, celebra o menino, com propriedade de gente grande. Com ele, a previsão é de que mais sete outros pequenos companheiros de ofício literário participem do evento em solo paulistano, mediante conquista de patrocínios e apoios. 

Na carta-convite enviada pela Câmara Brasileira do Livro – responsável pela Bienal – e recebida por Davi, é possível ler: “A programação contempla lançamentos de obras, contação de histórias, rodas de conversa e apresentações culturais, destacando práticas e reflexões sobre acessibilidade, diversidade e protagonismo infanto juvenil”.

Autor de dois livros, Davi é aluno na Escola Johnson, no bairro Luciano Cavalcante, em Fortaleza – pertencente à Rede Pública Municipal de Educação – e deu pontapé na vontade de levar outras crianças a partir de participação da Bienal do Livro paulista em 2024. À época, desembarcou no lugar com obra independente, toda costurada à mão, e um desejo.

Ali prometeu a si mesmo que, quando retornasse ao evento, seria acompanhado. No semblante, a vontade de fazer com que outras pessoas da mesma idade também tivessem oportunidade de mostrar os próprios trabalhos na literatura. “Isso porque escrever, pra mim, é entrar no mundo da fantasia, onde vou descobrindo novas coisas e vivenciando”.

Presidente do Instituto Rogaciano Leite e ligada à CBL, Helena Roraima festeja os passos do estudante. “A presença dessas obras em um dos mais importantes eventos literários do mundo demonstra que a iniciativa concebida em Fortaleza possui alcance e potencial para contribuir com debates globais sobre educação inclusiva, diversidade, cidadania e formação humana”.

Junto à editora cearense Imeph, com catálogo marcado sobretudo por títulos de escritores cearenses e com temáticas ligadas à nossa cultura, ela embarcou no desejo coletivo de Davi para a Bienal, além de em outra ação inovadora do garoto: a idealização da pauta Infância Inclusiva a partir de dois projetos de indicação com foco na inclusão – um em tramitação na Câmara Municipal da Capital, de autoria do vereador João Aglaylson (PT); e outro em tramitação na Assembleia Legislativa do Ceará, de autoria o deputado De Assis Diniz (PT).

O que prevê o Projeto Infância Inclusiva

O Projeto Infância Inclusiva tem como base aquisição e disponibilização das obras literárias “Conexão”, de Davi Moura; “O dia em que Fernando teve azar”, de João Sasaque; e “Lei Brasileira de Inclusão”, de Tião Simpatia, nos acervos das bibliotecas das escolas públicas municipais de Fortaleza. 

Além disso, prevê que a Secretaria Municipal da Educação firme parcerias com editoras, escritores e instituições culturais para ampliar o acesso às obras e desenvolver ações de leitura e cidadania na rede pública municipal.

Próximos passos do Infância Inclusiva envolve convencer gestores públicos a criar políticas voltadas à pauta literária entre crianças.
Legenda: Próximos passos do Infância Inclusiva envolve convencer gestores públicos a criar políticas voltadas à pauta literária entre crianças.
Foto: Kid Júnior.

A experiência de crianças terem acesso a livros escritos por crianças transforma muito. A gente precisa dessa lei, criada por alguém de pouca idade, para que obras desse segmento também cheguem a um público maior. E que outras crianças se espalhem e entendam”, diz Helena Roraima.

“Davi foi para a Bienal do Ceará, para a Feira do Livro de Brasília, selecionado para a Feira do Livro do Bolonha, na Espanha – uma das mais antigas do mundo. É muito mais que distribuir livros em escolas. Conseguiremos levar Davi e João Sasaque para a Bienal deste ano, mas qual a nossa capacidade de conseguir angariar mais fundos para levar outras crianças, com outras realidades?”, completa.

Da esquerda para a direita, João Sasaque, Tião Simpatia e Davi Moura, cujas obras estarão nas bibliotecas municipais de Fortaleza.
Legenda: Da esquerda para a direita, João Sasaque, Tião Simpatia e Davi Moura, cujas obras estarão nas bibliotecas municipais de Fortaleza.
Foto: Kid Júnior.

De fato, a ida das crianças acontecerá sem fins lucrativos e, por enquanto, nenhum apoio direto. “Estamos batendo de porta em porta, pedindo esse apoio para que Davi, João e todas as crianças possam ir”, explica, esperançosa, Meire Moura. “Além delas, por não viajarem sozinhas, pais ou responsáveis deverão ir também, o que aumenta os custos”.

E arremata: “O que a gente mais pede e quer é que essa pauta abra possibilidades para que outras crianças e adolescentes, inclusive com deficiência e neurodivergência, ocupem esse lugar de destaque na prática”. 

Pautas em destaque no projeto

Segundo Davi Moura, tendo em vista os livros contemplados pelo programa, três pautas se destacam: “Meu livro, ‘Conexão’, fala de regionalidade e sustentabilidade, com atenção especial aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável); Tião, no livro dele, fala sobre a Lei Brasileira de Inclusão; João, em ‘O Dia em que Fernando teve Azar’, por ser um pré-adolescente neurodivergente, tem questões relacionadas a isso”, explica.

“Me sinto muito feliz e orgulhoso em ver que outras crianças e adolescentes terão oportunidade de mostrar a própria arte – além da escrita, de outros talentos como um todo – por meio desse projeto que trata de três temas tão importantes. Essa é a pauta que o Infância Inclusiva traz: dar possibilidades e mostrar que é possível”.

A fala ressoa em João Sasaque, com obra integrante do projeto e confirmado na programação da Bienal do Livro de São Paulo. O garoto conheceu Davi em um evento na Biblioteca Pública do Ceará (Bece), e traz mais detalhes sobre a própria obra.

Neurodivergente, João Sasaque fará estreia na Bienal do Livro de São Paulo neste ano.
Legenda: Neurodivergente, João Sasaque fará estreia na Bienal do Livro de São Paulo neste ano.
Foto: Kid Júnior.

“Narra a história de um menino chamado Fernando. Ele tem 11 anos, e o maior sonho é ser o mais popular da escola, pra ter um vínculo com os colegas. Só que essa não é uma tarefa fácil. Ele sempre se mete em encrencas. Com o apoio dos amigos Simon, Robert e Rebeca, conseguirá chegar ao que quer”.

É a primeira publicação de João e a estreia dele também na Bienal do Livro de São Paulo. A animação para o momento, claro, é notória. “Escrever é ótimo. Você mexe com criação, põe o cérebro em prática. É planejar tudo, ser criança sem deixar de ser escritor. E também, se quiser desenhar, é só desenhar, só fazer outra coisa, assim como escrever”.

Força-tarefa em nome da literatura infantil

Existe apenas um escritor adulto integrante do projeto, espécie de padrinho: o poeta popular, músico e arte-educador Tião Simpatia. Nascido e criado no interior cearense, aprendeu a ler aos 15 anos por meio do cordel; agora, quer proporcionar vivências semelhantes à gente de pouca idade cujo objetivo é se lançar nas palavras.

“Não tem preço, todo esse momento é muito especial. Se é para eles – como primeira experiência profissional no âmbito nacional –, imagine para mim. Apesar de já ter tido tantas nesse modelo, agora haverá essa pegada da infância inclusiva”.

Tião Simpatia é considerado padrinho do projeto.
Legenda: Tião Simpatia é considerado padrinho do projeto.
Foto: Kid Júnior.

Para ele, entre tantos caminhos proporcionados pela literatura, está o de conferir protagonismo, sobretudo a jovens escritores. Outro componente valioso é a possibilidade de fazer pontes. A própria presença de escritores mirins na Bienal de SP deste ano é prova disso.

Também secretário de Cultura e Turismo do município de Aiuaba, interior cearense, região do Sertão dos Inhamuns, Tião diz que, entre os próximos passos do Infância Inclusiva, está o de convencer gestores públicos a criar políticas voltadas à pauta.

“A ideia é que eles vejam o protagonismo das crianças dos próprios municípios, criem programas de incentivo à leitura e, sobretudo, adquiram as obras também, seguindo o exemplo de Fortaleza. Além de ajudar no aspecto financeiro, nessa economia criativa, oportunizam que outras crianças publiquem e tenham os próprios livros circulando”.
Tião Simpatia
Poeta popular, músico e arte-educador

Para que talvez, quando questionadas sobre que conselho dariam a outras crianças que escrevem, respondam feito João e Davi. O primeiro diz: “Para ser bom escritor, primeiro é preciso ser bom leitor, se inspirar em vários livros e aumentar a imaginação”. O segundo é direto: “Só vai”. Como não ir?

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