O som da torcida cearense: da origem dos hinos às paródias que animam as arquibancadas

A música tonou-se um legítimo território para traduzir a paixão dos brasileiros pelo esporte. Na capital cearense, as histórias de Ceará, Ferroviário e Fortaleza ganharam poesia e melodias imortais

Torcida dos times de futebol Ceará, Fortaleza e Ferroviário
Legenda: Ao longo das décadas, inúmeros poetas, músicos e artistas locais imortalizaram versos e melodias para Ceará, Fortaleza e Ferroviário. Para entender um pouco desta relação fomos atrás das histórias de ícones da música nos gramados: Jackson de Carvalho, José Jatahy e Zezé do Vale
Foto: JL Rosa e Thiago Gadelha / SVM e Divulgação Ferroviário AC

Quando a música entra em campo a certeza é de jogo ganho. No universo do futebol, os craques da composição transformaram essa paixão nacional em arte. A proximidade também ganha o rumo inverso e muito boleiro já arriscou a voz no ramo. Como não lembrar de “Maestro” Júnior e seu hit “Voa Canarinho” (1982). 

Das paródias ao funk. Do pop ao samba-rock. Das espertas marchinhas aos hinos que narram glórias e triunfos. No imaginário das torcidas, há espaço para os mais diversos ritmos e gêneros. Na capital cearense, o matrimônio entre som e quatro linhas também conta com uma jornada especial na trajetória dos clubes.  

Ao longo das décadas, inúmeros poetas, músicos e artistas locais imortalizaram versos e melodias para Ceará, Ferroviário e Fortaleza. Para entender um pouco desta relação fomos atrás das histórias de ícones da música nos gramados: Jackson de Carvalho (1932-2012), José Jatahy (1910-1983) e Zezé do Vale (1900-1996). 

Cada um destes cearenses traduziu o amor pelas agremiações a partir de notas musicais. Para além dos gramados, os três artistas escreveram ativa biografia na vida cultural da cidade. Uma memória que atravessa da rádio cearense dos anos 1930 aos antigos bailes de Carnaval.  

Nome de peso da crônica esportiva e do jornalismo cearense, Tom Barros conversou um pouco acerca da íntima ligação da arte sonora com o popular esporte. “A relação entre futebol e a música é muito comum. Muito maior do que imaginamos”, desafia. 

O poeta tricolor 

2002 demarca um ano especial para os torcedores do Fortaleza. Aliado ao bom momento em campo, o hino oficial do time completa exatos 55 anos de criação. O feito pertence ao compositor, poeta, escritor e dentista Jackson de Carvalho. “Um desportista exemplar”, resgata Tom.  

Fortaleza lançou camisa
Legenda: Fortaleza lançou camisa "Glória Eterna", comemorativa aos 55 anos do hino Tricolor
Foto: Ciranda Mídia

“Jackson foi um homem muito atuante não apenas nessa parte musical de criar músicas para o Carnaval, mas também na divulgação do Fortaleza, de frequentar as emissoras de rádio fazendo esse trabalho”, descreve o comunicador. 

De sua caneta também surgiram marchinhas carnavalescas que destacavam o time do coração. De lembrança, Tom cita como exemplo a música "O Charuto do Rolim", homenagem pontual a Luís Rolim Filho (1913-2009), conhecido como o “Velho Guerreiro” entre os torcedores do Leão.  

O canal de YouTube "Loucos pelo Fortaleza" disponibilizou vídeo com uma seleção de marchinhas que revelam o carinho do poeta pelo Tricolor de Aço. Tom Barros também destaca que o hino foi exaltado no correr dos anos por outras vozes marcantes. “Veja bem, foi gravado pelo Fagner, né? Foi gravado também por Ayla Maria e Raimunda Arraes”, elenca. 

Raimundo Arraes e Ayla Maria em noite inesquecível de homenagem ao Tricolor do Pici
Legenda: Raimundo Arraes e Ayla Maria em noite inesquecível de homenagem ao Tricolor do Pici
Foto: Diário do Nordeste, fevereiro de 2000

Voz de operários e Alvinegros 

O melhor cantor cearense em 1942 é a mente por detrás do hino oficial do Ceará. José Pattapio da Costa Jatahy foi artista da Ceará Rádio Clube na década de 1930. Teve composição gravada por Luiz Gonzaga (1912-1989) com “Desse Jeito Sim”. A carreira nos palcos acompanhava a causa pessoal em defesa dos trabalhadores.  

José Jatahy dedicou sua arte à defesa dos trabalhadores
Legenda: José Jatahy dedicou sua arte à defesa dos trabalhadores

José Jatahy foi o primeiro presidente da Ordem dos Músicos do Estado do Ceará. Historiador à frente do Centro Cultural Ceará S.C, Thiago Eloi explica que, a partir de pesquisa e trabalhos científicos, foi constatado que o autor era ligado ao sindicalismo local. Essa atuação influenciou na escrita de algumas de suas composições.  

“Desta forma, podemos dizer que no momento da criação do hino, entre a década de 1940 e 1950, o futebol cearense ainda estava iniciando a sua profissionalização, o que nos leva a crer que o autor deixou a sua influência no meio sindical também na letra do nosso hino”, completa Eloi.  

Registro em LP do título de 1984
Legenda: Registro em LP do título de 1984
Foto: Reprodução/ canal davibulcao84

No campo fonográfico, o Alvinegro de Porangabussu chegou a ser homenageado por Alypyo Martins (1944-1997). No disco “O Rei Do Carimbó Vol. 3”, a terceira faixa do lado B se chama “Simbora Pro Castelão” e narra um domingo de sol e vitória do clube. Outro registro é o LP “Ceará Campeão de 1984”, que descreve a história da campanha em busca do título daquele ano.  

O Coral mítico 

Compositor, sanfoneiro, sambista e protético. Muitas foram as forças poéticas de Zezé do Vale. Filho de Ipu, foi músico durante 36 anos da orquestra da antiga PRE-9, Ceará Rádio Clube. A arte musical não foi a sua única devoção. Sócio fundador do Ferroviário Atlético Clube, o artista escreveu letra e melodia do hino da agremiação. 

É também de Zezé os sambas “Os Operários”, “Ferrim, Ferim” e "Ferrão". Espaço dedicado à história coral, o canal “Locomotiva da História” reúne boa parte desse acervo. Outro fato importante relacionado à equipe da Barra do Ceará é a presença de um segundo hino, esse assinado por J. Augusto e Zé Limeira. “Zé Limeira”, resgata Tom Barros, “outro ícone entre os torcedores cearenses e do Ferroviário”.  

Em 2011, o compositor e músico cearense, Virgílio Cesar Aires de Freitas, também entrou para o seleto grupo de compositores que celebraram o Tubarão. No disco “Levada do Ferrão”, ele assina 13 músicas, entre sambas, cantos de arquibancada e marchinhas. Outro trabalho lançado por Aires foi o CD "Barra Coral – Documentário Musical" (2012). 

As paródias entram em campo 

No correr das décadas, outros ritmos ampliaram a conexão do campo com as melodias. Nesse intervalo, dos anos 1990 em diante, o funk ganhou espaço enquanto trilha sonora. Outra característica recente explica que a cantoria também pode vir das arquibancadas, por intermédio dos apaixonados por futebol. 

Aqui, a imaginação voa longe. É quando a massa se apropria de sucessos radiofônicos para criar paródias inusitadas. Em cena, outra forma de unir o público e cantar o amor pelo clube. Com campanhas seguidas na Série A do Campeonato Brasileiro, as duas maiores torcidas do Estado cantam e defendem suas versões em meio à atual era da Arena Castelão.  

Pelo Vovô, a gandaia se apropriou de “Pelados em Santos”, hit do Mamonas Assassinas. O forró faz parte da folia e o canal oficial do clube conta com “Forró do Mais Querido”, adaptação do sucesso “Onde Canta o Sabiá”, da Mastruz Com Leite. Detalhe, há 36 anos, a icônica banda cearense estampou patrocínio na camisa Alvinegra (e do Icasa também, diga-se). 

Do Estádio também ecoa "Vivo essa Paixão", uma versão da música “Wavin’ Flag”. A canção estourou em 2010 com o rapper somali K'naan. Da banda norte-americana White Stripes veio a inspiração para “Muito mais que um vício”, releitura de “Seven Nation Army”.  

Por sua vez, a torcida leonina encaixou o rugido do Leão a partir de “Rádio Pirata”, do grupo RPM. A trilha tricolor acompanha outro êxito das paradas internacionais. É o caso de “Heaven”, imortalizada pelo canadense Bryan Adams.    

“Fortaleza Eterno Amor” ganhou lugar cativo no coração dos tricolores. “Ó, meu amado Tricolor. Você é minha razão, você é minha paixão. Nunca irei te abandonar. Sempre estarei aqui, vibrando por ti”. É sucesso na certa.  

 

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