No Dia do Maracatu em Fortaleza, agremiações cobram apoio financeiro previsto em Lei

Sem programação oficial proposta pela Secultfor para este dia 25 de março, grupos se mobilizam para celebrar a data individualmente por meio de lives

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Legenda: Brincante do Maracatu Az de Ouro, o mais antigo em atividade na capital
Foto: Camila Lima

A realeza negra do maracatu cearense tem poucos motivos para comemorar neste 25 de março. Desde 2013, com a Lei Municipal 5.827/1984, a data deveria celebrar, valorizar e divulgar tal manifestação cultural, considerada Patrimônio Imaterial de Fortaleza.

Mas, em oposição a esse conceito, as agremiações vêm sofrendo com a falta de apoio financeiro desde janeiro, diante da necessária suspensão do Carnaval, que implicou no atraso da distribuição de recursos específicos, incertos até agora.

Na Lei Orçamentária Anual (LOA) aprovada para 2021, por exemplo, há mais de R$ 5 milhões previstos para o Ciclo Carnavalesco, além de R$ 123 mil reais que deveriam ser destinados só para o projeto “25 é Dia de Maracatu”. Antes da pandemia de coronavírus, a cada mês, um grupo se apresentava em algum local da cidade e ganhava um cachê por isso. Mas, desde 2020, essa ação foi suspensa.

“É Lei, foi votado, mas Lei no Ceará e nada é a mesma coisa, principalmente para a cultura, não funciona”, desabafa o presidente da Associação Cultural das Entidades Carnavalescas do Ceará (Acecce), Raimundo Praxedes.

Nem mesmo o edital de “Carnaval fora de época”, a ser realizado virtualmente, conforme promessa de fevereiro, foi apresentado pela Secretaria de Cultura de Fortaleza até o momento.

Agremiações cobram celeridade dos processos

Diretor do maracatu mais antigo em atividade no Ceará, o Az de Ouro, Marcos Gomes ressente-se pela falta de respostas. “A gente fica um pouco esquecido, um pouco pra trás para se recuperar no futuro. Fica uma indagação de como isso vai ser proposto e como também vão se comportar os maracatus até lá, até ter a condição de se propor alguma coisa para melhorar e ajudar a gente”, afirma.

O presidente do Maracatu Solar, Pingo de Fortaleza, lembra que a cidade tem 15 maracatus, 14 deles reconhecidos pela Secultfor, e muitas pessoas aguardam um posicionamento da gestão.

“Cada agremiação tem mais de 100 brincantes, é muita gente envolvida na produção desses grupos e eu acho que a Secultfor deve dar continuidade ao trabalho que vinha sendo feito, de diálogo, de editais específicos para essa categoria, de compreensão desse segmento, de propiciar, dar visibilidade”, pontua.

pingo de fortaleza
Legenda: Pingo de Fortaleza, na sede do Maracatu Solar
Foto: Camila Lima

Por isso mesmo, para Marcos do Az de Ouro, esse 25 de março não deixa de ser o reconhecimento da resistência que se tem diante de todos os problemas. “É muito importante isso ser bem frisado, dos guerreiros que ainda resistem a muitas situações”, reforça o diretor.

“Mas o dia de hoje é para a gente também refletir sobre a questão do apoio à cultura. Temos várias cobranças a fazer, como o Museu do Maracatu, por exemplo, que foi cobrado na gestão anterior e nessa, mas ainda não tivemos resposta”,  completa.

Teonildo Lima, presidente do Maracatu Rei Zumbi, enumera outras demandas.  “Em 2020, nós tivemos o Carnaval e até hoje não recebemos os troféus. Não precisa de festinha, não precisa de aglomeração. Mandem para casa de cada um ou a gente vai buscar onde eles determinarem. Só que nós temos que ter os nossos troféus como prova que nós passamos o 2020 e que ganhamos os respectivos lugares na grande disputa da Avenida Domingos Olímpio”, diz.

Rei Zumbi
Legenda: Teonildo Lima, presidente do Maracatu Rei Zumbi, quase desiste da agremiação este ano, por falta de recursos
Foto: Thiago Gadelha

Ele avalia ainda que o 25 de março deveria ser uma data grandiosa, representativa, mas percebe que os brincantes estão todos “a Deus dará”.  “Se durante o ano e sem pandemia já somos esquecidos, imagina agora. Acho que esse edital do Carnaval fora de época já está fora de cogitação”, lamenta.

Secultfor não avançou no debate dos recursos

Questionada sobre os recursos para as agremiações carnavalescas, entre elas o maracatu, a Secultfor informou que “as medidas de fomento seguem em debate”. A pasta reforçou ainda o auxílio emergencial para a Cultura anunciado pelo prefeito Sarto Nogueira em 11 de março.

“A medida foi submetida à Câmara Municipal e prevê um investimento total de R$ 745.800 para 3.729 trabalhadores da cultura da capital cearense”, destacou por meio de nota. O edital, segundo a pasta, deve ser anunciado na próxima semana, e os beneficiados receberão R$ 100 por dois meses.

Sem uma programação oficial para o dia 25 de março, a secretaria se limitou a uma postagem nas redes sociais, divulgando os vídeos da Série “Memórias do Maracatu de Fortaleza”, que contam a história das agremiações existentes na capital cearense. 

Maracatus promovem atividades independentes para celebrar a data

Neste cenário de pouco diálogo, os grupos decidiram realizar lives por iniciativa pessoal e sem recursos. É o caso do Vozes da África, que fará uma transmissão no Instagram da coroação da rainha, às 16h, e do Solar, cujo presidente fará um ensaio interativo, entoando somente loas, no Facebook, das 18h às 19h30.

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Legenda: A herança das religiões de matriz africana é reverenciada pelos maracatus
Foto: Camila Lima

Uma outra ação, organizada pela Acecce em comemoração a este 25 de março, era uma exposição no Shopping Benfica, que foi suspensa desde o decreto de isolamento rígido pelo Governo do Estado.

Mas, nos próximos dias, a Associação deve distribuir duas cestas básicas para cada maracatu, conforme Raimundo Praxedes. “Nós conseguimos essas cestas com a Coordenadoria de Igualdade Racial da Prefeitura. Será de grande ajuda para o pessoal mais humilde”, acredita. 

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Legenda: O negrume é uma das características estéticas do maracatu cearense
Foto: Camila Lima

A resistência, portanto, segue, com ou sem respostas, dentro ou fora do calendário oficial.

“Eu creio que o maracatu poderia ter uma data, por exemplo, do nascimento do Raimundo Alves Feitosa, um negro, de uma população discriminada, de uma população que ainda vinha sofrendo as consequências do processo de escravização, e que fundou o Az de Ouro, embrião de todos os maracatus que existem até hoje. Mas, embora fazendo esse parêntese, acho que, enquanto for essa data, a gente tem que comemorar, não só comemorar, como entender que qualquer data que faça alusão ao maracatu é muito importante, porque ele representa as etnias de matriz africana no nosso cotidiano, não só historicamente como também na nossa contemporaneidade”, conclui Pingo de Fortaleza.

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