Dupla Daft Punk multiplicou sucessos e deixa legado de excelência e originalidade

Os franceses Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter encerraram uma carreira de 28 anos, com poucos discos gravados, mas repletos de sucessos

Legenda: O duo Daft Punk: Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo
Foto: Divulgação

Daft Punk habituou-se fazer reaparições após longos períodos de hibernação e surpreender o universo da música pop com reinvenções de sua proposta. Oito anos após seu último disco, o retorno nesta segunda-feira (22) foi, de fato, surpreendente; no entanto, teve um sabor diferente. A dupla francesa liberou um vídeo que ilustra sua separação - confirmada por seus agentes ao site Pitchfork. 

É fácil entender o apelo emocional do anúncio. "Get Lucky" (com Pharrell Williams), "Lose Yourself to Dance", "Harder, Better, Faster, Stronger", "One More Time", "Digital love", “Alive”,  "Da funk": não faltaram sucessos dançantes à dupla, como manda a cartilha da música eletrônica. O último lançamento do duo – de cinco anos atrás - também havia sido um sucesso, a canção “Starboy”, a faixa-título do álbum de The Weeknd.  

Mas o sucesso comercial Daft Punk não é a única, nem a melhor régua para medir o significado de sua aposentadoria. A dupla despontou exatamente no boom da música eletrônica, na segunda metade dos anos 1990, ao lado de Prodigy, Chemical Brothers, Groove Armada, Air e Fatboy Slim. Duas décadas deppois, fecha seu ciclo a anos-luz de distância de seus contemporâneos. Como poucos no pop, o Daft Punk soube se transformar. Ao invés de embarcar em modas, tentou ditá-las. 

A dupla francesa manteve, em 28 anos de atividade, uma carreira marcada pela excelência e pela originalidade. Se, nos anos 90, alarmava-se que os bárbaros do techno e da house dominariam o pop e destronariam o rock, o Daft Punk se mostrou disposto a conquistar seu espaço de maneira mais sutil e eficiente. De invasor passou a legítimo herdeiro. 

O lema punk do “faça-você-mesmo”, incorporado pelos artistas eletrônicos, foi dando espaço a um novo papel, em que o Daft Punk se colocava como produtor e maestro, refinadíssimo, na melhor tradição dos grandes mestres dos estúdios. Ao invés de captar sons já gravados, para transformá-los em algo novo, a dupla pôs gente de peso para gravar para eles, sob suas ordens: Nile Rodgers, o guitarrista mais expressivo do funk e da disco music; o pianista canadense Chilly Gonzales; o líder dos Strokes, Julian Casablancas. Orquestravam o que de melhor havia na música comercial, do passado e do presente.

Perfeccionismo

A disposição à reclusão da dupla fez lembrar o Kraftwerk – banda alemã, pioneira da música eletrônica ainda nos anos 70 e inventora de quase tudo que se fez no meio. Como os alemães, o Daft Punk manteve-se avesso às badalações exageradas. Adotou, como os veteranos, um método demorado e caprichoso de produzir música: em quase três décadas, os franceses deixaram apenas quatro álbuns autorais e uma trilha sonora ("Tron: Legacy", de 2010).

Legenda: Com sucessos de sobra para uma discografia enxuta, o Daft Punk se decidiu pela aposentadoria
Foto: Divulgação
 

Num mundo cada vez mais visual, a dupla soube responder ao anseio pelas imagens, tendo por marca registrada os capacetes retrofuturistas, que usava em suas aparições públicas. A estratégia está longe de ter sido usada como uma simples estratégia de causar impacto. 

Ao contrário da maioria dos medalhões do pop, o Daft Punk usou uma imagem forte, porém impessoal. Era um escudo, como se ao não se deixar fotografar de verdade, a dupla resguardasse sua alma. A imagem, no caso do Daft Punk, nunca se sobrepôs, nem roubou as atenções da arte que, afinal, a dupla professava: a música. 

Deixaram uma carreira de altos, sem baixos. Enquanto se puder apertar o botão do repeat, não valerá a pena perder tempo com lamentações sobre o fim do Daft Punk. A música, afinal, recomeça.  

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