Com gravações suspensas, consumo de telenovelas aumenta durante o isolamento por meio das reprises

Pesquisadora da área explica o porquê da preferência pelo formato pelos brasileiros, mesmo com outras possibilidades de entretenimento disponíveis neste período

Legenda: Jacqueline Soares assiste as reprises de novelas como um refúgio durante o isolamento social
Foto: Janine Fontenele

Gravações suspensas, distanciamento social necessário: a segunda quinzena de março trouxe consigo mudanças na produção de novelas no Brasil. Para contornar a situação, a TV Globo optou por exibir novamente alguns antigos sucessos da teledramaturgia. A solução não é atípica, afinal, o programa “Vale a Pena Ver de Novo”, no ar desde os anos 1980 na mesma emissora, dedica-se exclusivamente para a reprodução de telenovelas. O mesmo propósito guia o Canal Viva, que, em 2020, completou seu décimo aniversário. O questionamento que fica é: por que, dentre tantas possibilidades de entretenimento, como as lives musicais, as novelas renderam tanta audiência nos últimos meses?

Para Thaiane Machado, professora e doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), um dos grandes fatores é comportamental, visto que, no contexto da pandemia, as pessoas possuem mais tempo livre em casa, e acabam consumindo o que antes não fazia parte do seu cotidiano. “Com essa questão, obviamente o consumo de entretenimento em casa vai ser grande. Assim como o de novelas, é o de filmes e séries. Mas, hoje, as reprises têm sido a opção colocada à disposição das pessoas, principalmente em TV aberta”, afirma.

Dentre as novelas reprisadas, “Fina Estampa” se destacou por apresentar até 34 pontos de audiência nesta nova edição. Já “Êta Mundo Bom” chegou a superar o público de “Avenida Brasil”, novela que a antecedeu no “Vale a Pena Ver de Novo”, marcando entre 20 e 22 pontos. Fáceis de serem consumidas, as derivadas dos romances-folhetim cativam os espectadores por sua narrativa sequenciada e pelo desempenho dos atores que dão vida aos personagens, sendo estes, muitas vezes, fontes de reconhecimento pessoal.

Na contramão da disponibilidade de tempo, Jacqueline Soares, de 51 anos, se viu “presa dentro de casa, tendo que desempenhar o papel de mãe, cuidadora e responsável pelo lar 24 horas por dia”, como conta. Na tentativa de recuperar um momento exclusivo para si mesma, ela encontrou nas novelas o refúgio que precisava, apesar de nunca ter tido o hábito de consumi-las.

“Estabelecer o ‘meu horário da novela’ acabou impondo limites em casa, me trazendo mais privacidade e respeito por parte dos meus familiares. Esse momento acabou se tornando de lazer e autoconhecimento, pois, o interessante para mim foi refletir sobre a história de cada personagem e perceber que tinha um pouco de mim em cada um deles. Fiquei pensando: ‘onde eu estava em 2015 que não pude assistir essa novela?”, o que me trouxe vários questionamentos para o meu eu do presente. Me vi fazendo uma miniterapia particular e finalmente fazendo algo por mim”, relata.

Foto: Lincoln Souza

Inegável é o aspecto cultural que une a teledramaturgia ao cotidiano do brasileiro. Reunir-se em frente à televisão é ainda momento de comunhão entre muitas famílias. Em um período em que a grade televisiva é tomada por notícias duras sobre a pandemia e suas consequências na sociedade, a reprise das novelas traz fôlego e nostalgia para o dia a dia do telespectador.

“Esse outro lado do apego emocional é até uma estratégia que a emissora tem usado para chegar a esse público que sente saudades e que gosta de assistir a essas novelas, não só pela possibilidade de recuperar clássicos, mas disponibilizar isso por meio de uma plataforma de streaming de grande acesso e busca”, explica a pesquisadora da UFBA.

Acesso

O recurso citado por Thaiane é a Globoplay, plataforma digital lançada em 2015 e que já é o segundo aplicativo de streaming mais baixado no País. Ele, que produz conteúdos originais bem como reúne sucessos televisivos de diferentes décadas em um só lugar, foi a principal forma de entretenimento de Clarice Nobre, de 20 anos, durante o período de isolamento social.

A estudante criou o hábito de assistir novelas ainda criança, ao lado da avó. Já mais velha, a preferência pelo formato não diminuiu, mas acabou ganhando novas configurações.“Na Globoplay, eu já costumava assistir capítulos aleatórios de novelas que eu gostei muito ou o capítulo de alguma novela em curso que eu havia perdido, além de outras séries da plataforma. Durante o isolamento, eu estou assistindo bem mais”, declara. 

Clarice afirma já ter “maratonado” quatro novelas nos últimos meses: Orgulho e Paixão, Totalmente Demais, Bom Sucesso e Espelho da Vida. “O fato é que eu gosto do formato, uma obra aberta, que conta muitas histórias ao mesmo tempo – e que quase sempre se interligam –, fora que é um diálogo muito imediato com o público. Acho que o costume vem de ser brasileira mesmo. Somos um mercado muito grande tanto de consumo quanto de exportação de novelas”, completa a jovem.

Além de refrescar a memória daqueles que acompanharam a obra em canal aberto, a iniciativa de resgatar essas produções antigas para consumo no ritmo individual de cada espectador também é uma estratégia para se aproximar do público jovem, nascido e criado em uma cultura de seriados, como explica a professora Thaiane Machado.

“Creio que a novela sempre será um produto de grande consumo do brasileiro e a empresa vem, aos poucos, mudando sua lógica de produção, o próprio tempo de novela, a forma de entregar isso ao consumidor. Assim, não só atrai o público conhecedor, como também inicia um diálogo com o mais jovem. Não diria que é uma tendência, mas um comportamento de consumo natural. As pessoas têm essa relação emocional com o produto e estão dispostas a relembrar e trazer isso de volta, ainda que por meio de outras plataformas”, finaliza.

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