'Poder financeiro e maldade no currículo': secretário aponta influência de líderes de facções do RJ no Ceará
Nos últimos dias, a queima de fogos de artifício marcam a tomada de territórios dos grupos armados
A disputa por territórios para o tráfico de drogas tomou outra proporção no Ceará. Horas após o Comando Vermelho (CV) realizar uma queima de fogos comemorando a tomada de territórios vitais para a sua expansão, a facção local Guardiões do Estado (GDE) anunciou por meio de 'salves' (comunicados) que se aliou ao Terceiro Comando Puro (TCP) contra a rival.
Em meio a uma 'guerra do tráfico', o secretário da Segurança Pública do Estado, Roberto Sá, concedeu entrevista ao Diário do Nordeste e falou sobre os desafios encontrados para combater o crime organizado e as ações tomadas pelo Governo.
"Eles acabam sendo uma liderança que têm poder financeiro e uma certa maldade no currículo pelos crimes que já cometeram. Então eles são temidos até dentro da própria facção. Quando dão alguma determinada orientação, o 'garoto', digamos assim, que acaba de entrar no mundo do crime seduzido pelo falso glamour de pertencer à organização, vai lá e comete um crime", disse o titular da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) sobre a permanência de chefes das facções carioca escondidos no Rio de Janeiro.
"Cada vez mais trabalho, trabalho, trabalho. Preventivo, ostensivo, investigativo. O Governo do Estado tem reestruturado as nossas instituições. Esse movimento das facções criminosas não é um fenômeno local e sim um fenômeno nacional, com reflexos aqui. As nossas forças têm trabalhado muito para prender esses criminosos"
Nessa quarta-feira (17) passou a circular um vídeo nas redes sociais nos quais homens encapuzados e em posse de armas de grosso calibre se dizem do 'TCP' e mandam um "alô para o Ceará".
O grupo diz que "agora o Ceará é 'Terceiro Comando Puro... e que quem quiser vir pode vir... muita bala no Comando Vermelho", segundo um trecho de um 'salve' que teria sido gravado no Rio de Janeiro.
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O sociólogo Luiz Fábio Paiva, estudioso da Rede de Observatórios e membro do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), aponta que "as nossas pesquisas sobre mapeamento de facções nos demonstram, inclusive em outros estados, a presença forte do Comando Vermelho, que funciona quase como uma marca, uma facção nacional que tem interlocução, que tem contatos, que tem uma estrutura. Você vai encontrar no Rio de Janeiro as origens e os grupos que de, certa forma, são as lideranças em escala nacional, mas ao mesmo tempo é uma facção que funciona muito bem do ponto de vista local".
Ainda de acordo com o pesquisador, há os movimentos de 'arranjo' e 'rearranjo' entre os grupos marcado pela fragmentação dentro dos grupos.
PRISÕES EM FLAGRANTE
Na segunda-feira (15) e na terça-feira (16), foram capturadas 95 pessoas envolvidas em queimas de fogos de artifício ou envolvidas em "qualquer tipo de apologia às facções criminosas. O trabalho não para, a gente continua dia e noite atento e solicitando às pessoas que caso tomem conhecimento de atividades criminosas possam contribuir para que a gente faça esse serviço de forma mais efetiva", acrescentou o secretário.
A reportagem do Diário do Nordeste apurou que alguns dos suspeitos presos que já passaram por audiência de custódia, foram soltos. Questionado sobre as solturas, o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) informou que sem os nomes das partes ou números dos processos, "ficamos impossibilitados de realizar a pesquisa".
"A maior parte das prisões foi convertida em preventiva, não sei efetivamente quantos. Mas não me surpreende exatamente em relação a legislação ser muito frouxa para o enfrentamento da criminalidade organizada, a soltura acontecer... Espero que além de convertida, que essas pessoas fiquem lá um tempo para refletir, pagar pelo crime que cometeram e na saída tentem outra prática para ganhar a vida, que não seja a criminosa", ponderou Roberto Sá.
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Ainda de acordo com o titular da Pasta, a dinâmica de acirramento entre os grupos criminosos interfere negativamente no aumento dos Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs), que inclui homicídio doloso/Feminicídio, lesão corporal seguida de morte e roubo seguido de morte (Latrocínio).
"Essa logística expansionista é de ataque entre eles e isso eleva a letalidade violenta, porque eles tentam ser protagonistas de determinadas regiões basicamente eliminando um ao outro"
'ALIANÇA'
A reportagem do Diário do Nordeste apurou junto a fontes oficiais que a aliança entre GDE e TCP existe "de fato, mas ainda está na fase embrionária. Não dá pra dizer ainda se vai se sustentar". O fim da GDE, que agora adotou a sigla TCP CE, foi anunciado nessa segunda-feira (15) como 'símbolo' do início de um contra-ataque 'Anti Comando' que passa a ser orquestrado em conjunto no Estado.
De acordo com uma fonte ouvida pela reportagem, a representatividade do Terceiro Comando Puro "ainda é muito pequena no Estado. Por isso querem se unir com a GDE, para aumentar o número de membros e com isso atacar o CV".
Os muros de áreas da periferia de Fortaleza, como o residencial Cidade Jardim, no bairro Prefeito José Walter e Aracapé, e até perto a traseira de um ônibus de linha urbana passaram a ser pichados desde a manhã dessa terça-feira (16) com a sigla 'TCP Nova Geração' e 'TCP Nova Gestão'.
Em 2021, o Diário do Nordeste divulgou reportagem com base em um relatório elaborado pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), a partir da análise do aparelho telefônico de um dos principais líderes da facção criminosa Guardiões do Estado (GDE), estimando que o grupo tinha na época mais de 25 mil membros.
Além do Lagamar, Pio XII, Piedade, Castelo Encantado e comunidades do Vicente Pinzón foram tomados após um fim de semana com várias mortes em muitos desses pontos há meses conflagrados nessa "guerra” urbana, que já deixou centenas de milhares de mortos e feridos no Estado. Os "salves”, comunicados divulgados pelos grupos criminosos pelas redes sociais foram confirmados como verdadeiros pelas fontes ouvidas pelo Diário.
Em matéria publicada no início deste mês, o Diário revelou que um relatório da Polícia Civil do Ceará (PCCE) apontou que o domínio da facção carioca no Estado revelou que a intenção da organização criminosa era controlar as áreas dos dois portos cearenses, para exportar drogas para os Estados Unidos e para a Europa.
Em resposta ao 'crime organizado', a SSPDS destaca que, entre janeiro e agosto deste ano, foram realizadas 1.418 prisões e apreensões de suspeitos ligados a grupos criminosos, o que representa um aumento de 61,5% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registradas 878 capturas", disse a Pasta.
Luiz Fábio Paiva acrescenta que "o Ceará, de certa forma, sofre efeitos de um regime criminal que se articula local e nacionalmente, e aí a gente vai vendo essas movimentações dentro do Estado".
BUSCAS CONTINUAM
Dezenas de líderes do CV no Ceará seguem escondidos em comunidades do Rio de Janeiro, onde eles têm proteção da facção e de onde enviam ordens para crimes em território cearense. Uma operação do MPCE e da PCCE, com apoio do MP e da Polícia Militar do Rio de Janeiro, no dia 31 de maio deste ano, tentou capturar 29 criminosos, na Rocinha, mas se deparou com muitos mais cearenses - que fugiram pela mata.
A investigação dos órgãos cearenses sobre as lideranças que fugiram para o Rio revelou que o Comando Vermelho interferiu nas eleições municipais de Santa Quitéria, no Interior do Ceará. O grupo criminoso teria comprado votos para o candidato eleito - e depois cassado - Braguinha (PSB), com dinheiro e drogas, e teria ameaçado candidatos rivais.
"Quando a gente tem organizações criminosas oriundas de lá e os criminosos daqui acabam tentando praticar a mesma conduta, a gente percebe, através de investigação, que eles acabam seguindo orientações dessas lideranças que estão no Rio de Janeiro... Então há sim influência muito grande dessas pessoas que estão escondidas em favelas lá"
O CV também foi o responsável pela série de ataques a provedores de internet, ocorrida principalmente entre março e abril deste ano, em Fortaleza, Região Metropolitana e Interior do Estado. A facção promoveu empresas parceiras e extorquiu empresários do ramo.