Quem é líder do CV que movimentou milhões com furtos de veículos de luxo no Ceará, DF e Goiás
A reportagem teve acesso a documentos que revelam detalhes das ações da quadrilha que ele liderava.
Francisco Hélio Forte, ou 'Calanguinho', comandava um grupo - vinculado à facção criminosa Comando Vermelho (CV) - que vendia e trocava carros de luxo roubados nas fronteiras com Paraguai e a Bolívia. O líder do grupo chefiava o 'núcleo estratégico' e era chamado de 'patrão' por seus aliados.
O criminoso estava foragido há 11 meses e foi preso no último sábado (27), no bairro Parangaba, em Fortaleza.
A quadrilha atuava no Ceará, no Distrito Federal e em Goiás, usando aparelhos de alta tecnologia para furtar caminhonetes de luxo, como Hilux SW4. Os veículos eram vendidos ou trocados nas fronteiras do Brasil, por armas de alto calibre e drogas que abasteciam setores do CV.
A investigação da Polícia Civil do Ceará (PCCE) desvendou detalhes das ações do grupo, que tinha as funções divididas entre os núcleos: Estratégico, Operacional, Logístico e Financeiro.
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'Calanguinho' era o líder do núcleo estratégico, que comandava todos os outros. No dia em que foi preso, existiam dois mandados de prisão em aberto contra ele. O suspeito tentou fugir, mas foi capturado após perseguição da Polícia Militar do Ceará (PMCE)
O advogado Taian Lima, que representa a defesa de 'Calanguinho', enviou nota ao Diário do Nordeste, afirmando que: "a defesa técnica entende que não foram produzidas provas suficientes para sustentar uma condenação".
(Leia a nota na íntegra abaixo)
Quem é 'Calanguinho' - líder de quadrilha do CV
'Calanguinho' tem 29 anos e já é dono de uma extensa ficha criminal, incluindo associação criminosa, tráfico de drogas, furto qualificado, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de arma de fogo.
O homem também já esteve envolvido em um esquema de rompimento de tornozeleira eletrônica. A primeira prisão dele aconteceu em 2017, por ser o suposto responsável pelo abastecimento de entorpecentes no litoral cearense - desde Canoa Quebrada até Jericoacoara.
quilos de maconha foram apreendidos com ele. Além de 500 comprimidos de ecstasy, 25 pontos de LSD e 46 vidros de citrato de fentanila - droga com efeito analgésico 100 vezes mais forte que a morfina.
Em 2021, ele foi preso novamente ao ser abordado em um carro utilizado de apoio para assaltos.
A prisão mais atual é resultado da 'Operação Rapinas', iniciada pela Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos (DRFV) da Polícia Civil, em 2024, após um aumento de roubos de camionetes de luxo - em especial do modelo Hilux - em Fortaleza, região metropolitana e no interior do estado.
Como atuava a quadrilha?
A investigação da PCCE revelou que os assaltos só começavam após a confecção de placas falsas, que eram adquiridas por um homem identificado apenas como 'Daniel'. A partir disso, os criminosos localizavam veículos de luxo em festas ou locais isolados.
Os carros eram "avaliados" antes de serem subtraídos e as partes mais visadas pelo grupo eram os pneus, por não terem sinais de identificação, podendo ser vendidos sem perder valor. Depois da avaliação, os criminosos enviavam fotos e localização do carro escolhido em aplicativos de mensagens.
Em uma das conversas captadas pela Polícia, alguns dos homens sinalizam em um grupo de mensagens que já estaria mapeando 'pontos cegos' das câmeras de segurança de uma festa em área nobre de Fortaleza.
Após o roubo, os criminosos passavam a noite escondidos com os veículos em motéis de modo "fácil, rápido e barato", até que as autoridades diminuíssem as buscas, afirmou a namorada de um dos investigados, em depoimento.
A partir daí, os carros eram levados para as fronteiras com Paraguai, Bolívia e Colômbia, onde eram vendidos ou trocados por armas de fogo (fuzil, submetralhadora e revólver) ou drogas como maconha do tipo 'colombiana', 'mineíta' - pó branco utilizado na confecção de cocaína - e "bala".
A quadrilha também utilizava contas de parentes ou de companheiras para receber pagamentos sem alertar autoridades.
Grupo usava aparelhos de alta tecnologia nos assaltos
Segundo o relatório policial, o grupo fazia uso de tecnologia avançada para arrombamento e para burlar sistemas de alarme e rastreio, como um XTool-KC100 - programador que faz cópias de chaves de carro - e um jammer - rádio que bloqueia sinais de rastreamento - .
Os veículos roubados se destacam pelo alto valor comercial e tecnologia avançada. A maioria era dos modelos Hilux, Creta, e Corolla - com valores entre R$ 100 mil e R$ 300 mil, em média.
A quadrilha chegava a roubar até três veículos por dia. Segundo as investigações, os principais aliados de 'Calanguinho' eram Matheus Amora, o 'Pepeu', Matheus Pereira Nogueira, o 'Pica-Pau' e Mateus Batista Frota, o 'Mandala'. Todos foram denunciados pelo Ministério Público do estado do Ceará (MPCE).
Núcleos e divisão de tarefas:
Estratégico:
- Coordenar os outros núcleos, planejar assaltos, fornecer equipamentos de tecnologia para burlar sistemas de segurança
Logístico:
- Fornecer automóveis de apoio, ocultá-los antes e depois das subtrações, realizar o transporte interestadual e internacional dos veículos furtados
Operacional:
- Executar os furtos das caminhonetes e realizar o processo de adulteração dos sinais identificadores para o transporte dos automóveis pelo núcleo logístico.
Financeiro:
- Operacionalizar as transações financeiras sem despertar a atenção das autoridades, efetuar pagamentos, distribuir lucros, prestar suporte financeiro para execução dos delitos, pagar advogados quando ocorriam prisões e até ajudar integrantes e suas famílias em momentos de necessidade.
Nota da defesa:
De fato, o nosso constituinte estava foragido por conta de dois mandados de prisão preventiva em seu desfavor.
O primeiro, expedido pela justiça alencarina, estando a ação penal está em grau de recurso, oportunidade em que pleiteamos a absolvição por insuficiência de provas. A apelação deverá ser julgada em 2026.
O segundo, decorrente da Operação “Sakichi”, deflagrada pela Polícia Civil do Distrito Federal, tendo sido encerrada a instrução criminal e atualmente em fase de memoriais (de acusação e defesa).
Em ambos os processos, a defesa técnica entende que não foram produzidas provas suficientes para sustentar uma condenação. Não há sequer um único liame entre Hélio e a suposta quadrilha especializada em furtos de caminhonetes e luxo.
*Estagiária supervisionada pelo jornalista Emerson Rodrigues.