Luxo e chefes chineses: o que a Justiça do CE decidiu sobre alvos de operação contra 'Jogo do Tigrinho'

Os influenciadores alvos da operação foram acusados por crimes, como fraude bancária e associação criminosa.

Escrito por
Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
jogo do tigrinho, pessoa segurando celular, jogando.
Legenda: Os investigados movimentaram mais de R$ 14,3 milhões, nos últimos cinco anos, segundo a denúncia.
Foto: Theyse Viana.

Quase um ano após uma megaoperação deflagrada no Ceará que resultou nas prisões de influenciadores acusados de divulgar o 'Jogo do Tigrinho', o processo acerca do caso segue com movimentações e com novas decisões proferidas pelos juízes da Vara das Organizações Criminosas do Tribunal de Justiça Estadual.

O Diário do Nordeste teve acesso às decisões mais recentes, entre elas uma a favor de um dos influenciadores e também estudante de Enfermagem, que teria movimentado altos valores a partir do comando de chefes chineses. Nas últimas semanas, Janisson Moura Santos teve seu monitoramento eletrônico encerrado.

Os magistrados deferiram parcialmente o pedido feito pela defesa do réu, que alegou o cumprimento da medida cautelar durante mais de seis meses. O Ministério Público do Ceará (MPCE) foi contra a retirada da tornozeleira eletrônica e pontuou que a retirada ofereceria "grave risco à vindoura instrução penal, especialmente diante da existência de fortes indícios de autoria e materialidade delitivas".

No entanto, os juízes consideraram "o lapso temporal em que o acusado encontra-se submetido ao cumprimento da cautelar de monitoração eletrônica", devendo as outras medidas cautelares permanecerem até o fim do processo.

Outras decisões recentes são acerca dos também denunciados Inessa Karla Nogueira Pontes e Wellington Lima de Alencar. Para ambos, os juízes mantiveram a suspensão de contas deles na rede social Instagram. 

"O requerente se utiliza das redes sociais para a prática de crime, sendo imperiosa a manutenção das medidas cautelares diversas da prisão, eis que se mostram deveras adequadas diante da gravidade dos crimes imputados ao requerente, sobretudo, aliada às circunstâncias do fato e às suas condições pessoais, posto que, caso seja revogada as medidas cautelares impostas, terá as mesmas condições que tinha anteriormente a investigação e, provavelmente, voltará a dar continuidade à prática delitiva"
Magistrados da Vara de Delitos de Organizações Criminosas

Atualmente, o processo está aguardando a ratificação da denúncia "e a posterior designação da audiência de instrução e julgamento".

QUEM SÃO OS DENUNCIADOS  

  1. VICTORIA HAPARECIDA DE OLIVEIRA ROZA 
  2. ANTONIO SAMPAIO GRANGEIRO
  3. MILENA PEIXOTO SAMPAIO
  4. JANISSON MOURA SANTOS 
  5. MARIA GABRIELA CASIMIRO DA SILVA FERNANDES
  6. TASSIA AVELINA FRANKLIN LEANDRO 
  7. DARLEY FELIPE SANTOS DIAS 
  8. WELLINGTON LIMA DE ALENCAR 
  9. WALYSSON LIMA DE ALENCAR
  10. INESSA KARLA NOGUEIRA
  11. PALOMA SILVA COSTA 
  12. MARIA FABIANA TEIXEIRA DE OLIVEIRA
  13. GUSTAVO ANTONIO DE OLIVEIRA JUNIOR 

A defesa de Inessa Pontes esclarece "que o conjunto probatório apresentado em desfavor da acusada até o momento é extremamente frágil, sendo praticamente inexistentes os elementos que indiquem sua participação nos fatos em apuração.Ressalta-se que, em razão da medida cautelar que determinou a proibição de acesso ao Instagram e a outras plataformas, a referida encontra-se atualmente impedida de exercer suas atividades profissionais, uma vez que sempre trabalhou com mídias sociais desde os 19 anos de idade, o que vem comprometendo severamente a sua própria subsistência".

A necessidade e a adequação das medidas cautelares impostas à influenciadora encontram-se atualmente em revisão em sede de segundo grau, perante o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, oportunidade em que a defesa confia que serão restabelecidas as garantias necessárias ao pleno exercício do direito ao trabalho da acusada.
Leandro Vasques, Holanda Segundo e Gabriellen Melo
Advogados de defesa

DIVISÃO DE TAREFAS

Conforme denúncia do MP, Janisson fazia propagandas e divulgava diversas plataformas que exploram jogos de azar: "ostentava fotos em seu perfil no Instagram de viagens para destinos luxuosos, incompatíveis com sua falta de renda formal comprovada ou vínculo de emprego, evidenciando que sua renda advém da exploração de jogos de azar".

fotos pontos turisticos janisson ostentando.
Legenda: Janisson revelou aos investigadores que viajou com as despesas pagas pelo dono de uma das plataformas divulgadas pelos influenciadores digitais.
Foto: Reprodução/Instagram.

"De acordo com os arquivos armazenados na nuvem do Icloud do requerente, este viajou para Dubai, na companhia das também denunciadas Milena Peixoto e Victória, bem como de Darley Felipe, com as despesas pagas pelo dono de uma das plataformas divulgadas pelos influenciadores digitais, o que demonstra a proximidade dos denunciados com os donos de cassinos online", disse o órgão acusatório.

Os investigados movimentaram mais de R$ 14,3 milhões, nos últimos cinco anos, segundo a denúncia.

Janisson disse em depoimento que, a respeito dos jogos, existem chefes "todos eles chineses), os gerentes (são outros chineses que trabalham para os chefes) e os agentes (que são brasileiros que formam grupos de influenciadores digitais).

Ele teria afirmado “que  nunca trabalhou com nenhum agente e sempre trabalhou diretamente com os gerentes. Declarou que divulgou diversas plataformas, não sabendo informar a quantidade exata, acreditando que chegou a divulgar aproximadamente 100 plataformas de julho de 2024 até a data da prisão (em março de 2025).

A defesa alegou que o acusado "jamais se furtou ao chamamento da Justiça, sempre comparecendo aos atos processuais e cumprindo fielmente as determinações judiciais, contribuindo ativamente com as investigações, inexistindo qualquer indício de interferência na instrução criminal" e que ele é aluno regularmente matriculado em curso superior de Enfermagem.

SEQUÊNCIA DE FRAUDES

De acordo com a denúncia, a fraude consistia em convencer milhares de seguidores a realizar apostas como 'forma de investimento'. Os influenciadores supostamente garantiam a idoneidade da plataforma a partir da simulação de ganhos irreais por meio de 'contas demo', isto é, contas pré-programadas para vencer.

"A investigação revelou também indícios veementes de crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, crimes contra a economia popular, crimes contra as relações de consumo e crimes contra a ordem tributária, a partir das quais a Autoridade Policial representou por medidas cautelares investigativas, reais e privativas de liberdade em desfavor dos suspeitos. O conjunto de fontes de prova reunidos durante a investigação é robusto e abrangente, não conferindo dúvidas às práticas delitivas dos agentes, permitindo o indiciamento dos denunciados por vários crimes".

A organização criminosa se concentrava em Juazeiro do Norte, na Região do Cariri, e cometeu os crimes entre os anos de 2023 e 2025, segundo a acusação, que diz ainda que "as vítimas, em muitos casos, entram em espiral de endividamento, contraindo dívidas com agiotas, comprometendo rendas familiares, vendendo bens essenciais e, em casos extremos, abandonando o trabalho ou afetando a própria saúde mental".

Além de levar uma vida de luxo, os denunciados debochavam das autoridades e dos seguidores que relatavam que 'tinham perdido tudo' no 'Jogo do Tigrinho'. Conforme a investigação, o grupo chegava ainda a prometer ‘pix’ aos seguidores, mas na maior parte das vezes não faziam as transferências.

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