Salário de admissão cai no Ceará e fica 15,7% abaixo da média nacional

Enquanto o Brasil atingiu o maior patamar salarial da série histórica, o trabalhador cearense encerrou o ano ganhando menos do que em 2020.

Escrito por
Paloma Vargas paloma.vargas@svm.com.br
imagem mostra duas carteiras de trabalho e previdência social em cima de uma mesa.
Legenda: No Brasil, salários de admissão tiveram os maiores valores da série histórica para o mês de dezembro.
Foto: Kid Junior.

O salário de admissão — valor inicial acordado no contrato de trabalho entre empregador e empregado no momento da contratação — foi menor no Ceará em dezembro do ano passado na comparação com igual período de 2024. 

Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em dezembro de 2025, o salário médio de admissão foi de R$ 1.940,90, enquanto no mesmo período de 2024 foi de R$ 1.951,70, uma diferença de apenas 0,55%. 

Na comparação com a média do salário admissional do Brasil, a diferença é ainda maior. No País, a média de dezembro de 2025 gira em torno de R$ 2.303,78, cerca de 15,7% maior que a média cearense em igual período. O resultado brasileiro foi o maior da série histórica iniciada em 2020.

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Veja as médias salariais dos meses de dezembro de 2020 até 2025:

Ceará

2020: R$ 1.962,09
2021: R$ 1.923,83
2022: R$ 1.947,43
2023: R$ 1.927,25
2024: R$ 1.951,70
2025: R$ 1.940,90

Brasil

2020: R$ 2.281,11
2021: R$ 2.141,80
2022: R$ 2.161,97
2023: R$ 2.205,69
2024: R$ 2.246,60
2025: R$ 2.303,78

A sazonalidade e a volatilidade do mercado

Para o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador do FGV Ibre, Vitor Hugo Miro, essa variação nos salários de admissão é influenciada pela época do ano.

Ele explica que, nos últimos meses de cada ano, ocorre a geração de muitas vagas temporárias e flexíveis com remunerações menores, enquanto nos primeiros meses as empresas buscam perfis diferentes, com salários melhores.

Em estados como o Ceará, esta sazonalidade pode ser ainda mais marcante pelo maior peso de atividades como comércio, serviços e atividades sazonais relacionados ao turismo".
Vitor Hugo Miro
professor da UFC e pesquisador do FGV IBRE

O pesquisador ressalta que, embora os dados do Ministério do Trabalho mostrem volatilidade por focarem apenas no mercado formal, pesquisas como a Pnad Contínua do IBGE indicam uma trajetória de crescimento dos rendimentos quando incluídos trabalhadores informais e por conta própria.

Miro destaca ainda que o Brasil vive um mercado de trabalho aquecido, com baixa desocupação, o que gera dificuldade para as empresas contratarem.

"Esse cenário tende a pressionar os salários para cima, seja por meio de reajustes diretos, seja pela ampliação de benefícios, como forma de atrair e reter trabalhadores".

Segundo ele, a expectativa é que essa tendência continue em 2026, com os salários apresentando crescimento.

Mudanças estruturais e o perfil das vagas

Já o presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará, Wandemberg Almeida, observa que o recuo salarial no estado traz um significado negativo sobre as mudanças estruturais locais.

"Essa queda reflete não apenas variações salariais, mas também transformações no tipo de contratação, nos setores predominantes e no perfil de trabalhadores demandados", avalia Almeida.

Ele aponta que tem crescido o volume de vagas com salários próximos ao mínimo em setores como serviços gerais, telemarketing e logística, o que puxa a média geral para baixo.

Para o economista, o Ceará tem se concentrado em empregos de baixa qualificação e escolaridade, o que reduz o poder de negociação da mão de obra.

"Houve geração de empregos, isso é fato, mas muitos deles com baixa remuneração. Isso mostra que estamos contratando mais, porém pagando mal, reflexo direto do perfil de qualificação predominante no mercado", pontua Almeida.

Apesar do cenário atual, ele projeta movimentos mais positivos para 2026 com a possível instalação de polos tecnológicos e data centers, que podem demandar mão de obra mais qualificada.

O economista reforça que profissões ligadas à tecnologia da informação, saúde e logística já apresentam maior valorização no estado, mas que o ajuste geral depende de investimentos rápidos em capacitação profissional.

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