Guilherme Benchimol: "O Brasil é o sonho dos empreendedores"; confira entrevista com fundador da XP

Executivo fala de perspectivas para o mercado de ações, reformas, pandemia, auxílio emergencial, empreendedorismo e mais. Entrevista marca estreia do Diálogo Econômico, novo espaço de debate no Diário do Nordeste com personalidades da economia

Diálogo Econômico com Guilherme Benchimol
Legenda: Diário do Nordeste estreia o Diálogo Econômico, espaço de grandes entrevistas com personalidades do mundo da economia

O brasileiro teve de se despir de velhos hábitos no mundo dos investimentos. Não é um processo fácil e muito menos rápido, mas a cultura de deixar todo o dinheirinho na caderneta de poupança vem caducando diante do cenário de juros tão baixos. Para ganhar mais, é preciso correr algum risco, e parte da população parece, enfim, ter captado esta ideia.

Em 2020, foi intenso o crescimento de investidores em Bolsa de Valores, mas este processo já vem se consolidando ao longo dos últimos anos. De acordo com a B3, a quantidade de pessoas que investem no mercado de ações cresceu mais de cinco vezes na última década.

O economista Guilherme Benchimol é um dos rostos que melhor ilustram este movimento no País. O CEO e fundador da XP Investimentos criou a gigante do setor financeiro de um sonho grande, mas tudo começou pequeno, como ele próprio gosta de frisar. A XP Inc hoje está listada na Nasdaq, com valor de mercado na casa dos R$ 145 bilhões.

Nesta entrevista exclusiva, o executivo fala sobre previsões para o mercado de ações, comenta a conjuntura política para a aprovação de reformas estruturais, opina sobre o retorno do auxílio emergencial e dá conselhos para quem almeja começar a empreender.

A entrevista marca a estreia do Diálogo Econômico, novo espaço do Diário do Nordeste para grandes entrevistas com personalidades do mundo da economia.

Confira na íntegra entrevista com Guilherme Benchimol

No ano passado, o número de investidores na Bolsa teve um crescimento muito forte. No caso dos investidores cearenses, por exemplo, a alta foi de 108%. O brasileiro, enfim, despertou para o mercado de ações?

A alavanca de impulsionamento na direção de tomar um pouco mais de risco, seja investindo em ações, seja procurando alguma coisa diferente do CDI, é justamente a queda da taxa de juros. O Brasil, desde 1994, tem uma taxa de juros média de 13% ao ano. Mesmo com os 2% atuais, a média de juros do Brasil há 26 anos é de 13% ao ano. Então, o brasileiro não é conservador à toa. É conservador porque foi bom ser conservador, porque as taxas de juros eram altas. E com isso a população se acostumou a ser rentista comprando título público. 

No ano passado, quando veio a pandemia, os juros que já vinham caindo por que a gente vinha conseguindo administrar as contas públicas, tiveram de ser implodidos. A gente tá com juros de 2% ao ano. Isso por si só leva a população que estava acostumada a investir daquela forma fácil, que era você ter muita liquidez e baixo risco, a comprar um pouco mais de ações, de fundos multimercado e assim por diante.

E não é só um efeito no mercado financeiro. É um efeito na economia real. Com juros de 13% ao ano, que é o cenário anterior, ninguém pensa em empreender.

Por que eu vou montar uma pizzaria se a pizzaria, se der tudo certo, vai me retornar 15%? Entre ter trabalho e ganhar 15% se eu posso fazer nada e ganhar 13%, eu fico sem fazer nada e viro rentista. Essa transformação é muito poderosa porque isso mexe na forma como o dinheiro circula na economia. Agora com 2% ao ano (de juros), o dinheiro tá livre, e dinheiro livre começa a comprar ativo.

Confira no áudio abaixo conselhos de Guilherme Benchimol para quem quer começar a empreender e investir

Powered by RedCircle

Diante deste cenário de juro baixo, temos uma perspectiva de mais IPOs em 2021? 

Sem dúvida, eu diria que em 2021 a gente vai ter mais IPOs do que a gente teve em 2020. Num ambiente com juro baixo, tem capital sobrando e isso acaba tomando um pouco mais de risco. E, naturalmente, os empreendedores que ficam mais animados porque o ambiente econômico fica mais convidativo, vão ao mercado, captam mais dinheiro e com isso eles fazem crescer ainda mais suas companhias.

A coisa mais importante que o Brasil como um todo (governo e sociedade cobrando) deveria fazer é garantir que estes juros baixos sejam juros baixos de longo prazo, porque é justamente isto que traz mais empresas, aloca o capital na direção de atividades produtivos, e é este movimento que gera emprego e renda e faz a economia circular.

Guilherme Benchimol

O retorno do juro aos patamares de antes poderia reverter todo este processo? 

Sim, porque o juro mais alto empossa o capital. Ninguém quer assumir risco se você tem um dinheiro mais fácil. Até acho que o ponto de equilíbrio do juro no Brasil não é 2%, acho que alguma coisa em torno de 4%. Se for 4%, tá muito bom. O que não pode é voltar a ser 10%, 13%, 15%, porque aí a gente interrompe este ciclo.

Empresas abrindo capital é sinal de abundância na economia, de crescimento, de aumento de salário, de competição, inovação. Mas se o juro fica alto, a população fica avessa a tomar risco, e o dinheiro passa a circular muito menos.

Então é fundamental que o Brasil faça as reformas estruturais, garanta um estado mais eficiente, porque isso gera solvência a longo prazo e é este o estímulo de que a economia precisa. 

Alguns analistas falam em risco de bolhas no mercado de ações. Qual a sua opinião em relação a isso? 

Olha, eu acho que bolha só acontece quando você tem alavancagem. Hoje, pra você ter uma ideia, no Brasil tem mais ou menos 3 milhões de pessoas que investem em ações. Isso dá 1,5% da população brasileira. É muito pouco. Quando a gente compara por exemplo com os Estados Unidos: uns 50% dos americanos investem em ações. Então quando a gente pensa que pouca gente no Brasil investe em ações, e a maior parte da poupança do Brasil está aplicada no CDI, e o produto mais conhecido no País chama-se caderneta de poupança - o que é uma barbaridade, que tem mais de R$ 1 trilhão e as pessoas quando investem neste produto recebem 70% do CDI e tem aniversário mensal - então, olha só quanta gente não vai entrar na Bolsa.

O Brasil nunca teve um ciclo econômico de longo prazo, verdadeiro e consistente. Sempre foram aqueles voos de galinha. Se o Brasil tiver um cenário de juro baixo de longo prazo, acho que a gente está muito longe do que o mercado pode subir. Sou otimista para longuíssimo prazo. Acho que o Brasil pode ter um vento de cauda de muitos anos.

E bolha normalmente acontece quando tem alavancagem, quando as pessoas tomam empréstimos e com isso compram ações. Não é o que eu vejo no mercado. O que a gente tá vendo hoje é simplesmente um reflexo de uma política monetária mundial, efeito da pandemia, em que todos os bancos centrais do mundo tiveram de reduzir juros, e juros baixos é dinheiro sobrando, e dinheiro sobrando compra coisas.

Não acho que os juros no mundo vão subir no curto prazo. O FED anunciou que não vai subir os juros até 2023. Então a gente tem pelo menos dois anos de juros praticamente negativos no mundo. Eu diria que o mercado vai continuar, sim, se valorizando. Obviamente que não é uma linha reta, é um zigue-zague, mas eu sou otimista e acho que o Brasil não tem bolha, não. Muito pelo contrário.

XP Nasdaq

Tivemos recentemente o caso da Gamestop, um movimento especulativo no mercado que ainda continua repercutindo. O que você acha disso? Isso deve criar uma regulação maior no mercado brasileiro? 

Manipulação de preço é crime em qualquer país que tenha um mercado financeiro organizado. Os órgãos reguladores estão super de olho. Os investidores não podem se reunir e, através de redes sociais e grupos de mensagens, manipular o preço de um ativo. Isso é crime.

É fundamental que os reguladores façam seu trabalho e que a população entenda que não é assim que as coisas funcionam. Mas eu vejo que esse tipo de coisa fica cada vez mais comum. Como você tem hoje liquidez sobrando no mundo, surgem muitos influenciadores de finanças... essa mistura toda dá problema às vezes. O cenário nunca é perfeito. 

Em relação ao mercado de criptomoedas, você acredita na consolidação deste tipo de ativo? A XP pretende entrar nessa área de alguma forma? 

A gente não pretende entrar. É um mercado extremamente volátil, altamente especulativo. O crescimento dessa indústria depende muito da capacidade das criptomoedas, acima de tudo do bitcoin, de se transformar num meio de pagamento. Hoje em dia o bitcoin funciona como reserva de valor, parecido talvez com o ouro. A diferença é que o bitcoin é tecnológico, mas o conceito é o mesmo.

Eu sempre digo que é um projeto muito arriscado. A chance de dar certo é 50% e de dar errado também é 50%. Se alguém quiser ter à disposição este ativo, que tenha um pouquinho, algo que não represente uma parcela importante de sua carteira, e saiba que é um ativo de alto risco. 

A Câmara e o Senado estão sob novo comando. E agora o Governo tem um bom capital político nas duas Casas, inclusive tendo apoiado os dois novos presidentes. O cenário agora é favorável à aprovação de reformas? 

Sem dúvida. No regime governamental que a gente segue, o presidente não consegue comandar o País se ele não tem a maioria do Congresso. Então se você tem o comando do Congresso alinhado ao Governo, a probabilidade de aprovar as reformas fica maior. Não tenho dúvida de que a gente tem uma probabilidade bem alta de fazer com que as reformas andem e andem bem. É justamente isso que vai garantir a estabilidade econômica e o juro baixo a longo prazo. 

Quanto à reforma tributária, quais são os pontos que você considera cruciais para serem aprovados? 

Falar sobre reforma tributária é muito complexo, né?! No fim, a gente tem que fazer um regime de arrecadação que seja mais inteligente – que não tenha bitributações, que não tenha cascateamento, entre outras coisas mais. É uma forma que possa simplificar a tributação das empresas, equalizar certas coisas que não são razoáveis no Brasil. 

Tem tanto benchmarking no mundo, tem tanto país que criou uma forma de taxar a população de um jeito inteligente. É basicamente copiar o que deu certo e inventar pouca moda. 

Guilherme Benchimol

Qual a sua avaliação sobre as discussões em torno do retorno do auxílio emergencial

Eu acho que não tá na hora de ter essa conversa ainda. O que foi injetado de capital no bolso da população foi bastante dinheiro. Então, acho que agora a gente deveria estar priorizando as reformas. Quando você prioriza as reformas, sobra dinheiro e com o dinheiro você consegue fazer isso aí.

Neste momento em que acabou de terminar a ajuda, se a gente fizesse uma grande força-tarefa e aprovasse tudo que precisa, a gente já teria a folga no orçamento pra que, se fosse necessário, a gente voltasse a ajudar. Obviamente, se a pandemia demorar um pouco mais e a vacina ficar um pouco mais lenta, a população mais carente vai precisar de ajuda. E a gente vai ter que ajudar. Mas a gente tem que tentar ajudar sem destruir as contas públicas do Governo, se não a destruição é ainda maior. Os juros sobem, mais empresas fecham e a gente volta àquele ciclo que a gente conhece bem. 

Esse tema não deveria ser prioridade do momento. A prioridade é: “eu não tenho dinheiro. Se eu não tenho dinheiro, vamos buscar uma maneira de fazer com que o orçamento fique saudável e aí sim, se necessário, a gente ajude a quem precisa”. 

No estágio atual, foram injetados mais de R$ 600 bilhões. É muito dinheiro. A poupança bateu recorde. Então, é focar naquilo que precisa, e na sequência a gente vai ter que botar este assunto em pauta porque a gente tem que ajudar a quem precisa e atravessar este momento. Mas antes tem que fazer o dever de casa.

Quão importante vai ser a vacinação para a retomada econômica neste ano? 

A vacina é fundamental. A economia só vai voltar ao normal, as pessoas só vão voltar pra rua e consumir quando estiverem imunizadas. A volta à normalidade e a retomada da economia é 100% correlacionada com a vacina. 

O que a pandemia mudou na XP? 

O que mais mudou foi a compreensão que dá pra ter uma empresa onde funcionários possuem muito mais qualidade de vida. Nós somos hoje quase quatro mil funcionários na empresa. Na média, são duas horas e meia de trânsito por dia (em São Paulo), tem gente que mora longe, mora apertado, acaba tendo uma qualidade de vida que não é tão boa; acaba vendo o filho só no fim de semana. E quando a gente foi obrigado a ficar em casa, todo mundo teve que aprender a se virar, a se conectar, a encontrar outras maneiras de interagir e de fazer o trabalho que precisa ser feito.  

Muita gente talvez tivesse impressão que as pessoas que trabalhassem de casa não eram tão comprometidas com o trabalho, e todo mundo agora viu que isso não era verdade. Eu diria que o legado que a pandemia vai deixar na XP é que as pessoas vão ter muito mais qualidade de vida, vão poder trabalhar onde quiserem, morar onde quiserem. Hoje nós já temos 70% dos nossos funcionários querendo se mudar. E eu fico muito feliz, porque a pessoa vai buscar um lugar onde se identifica mais, vai ter uma casa maior, um custo de vida menor.  

E a gente tá montando uma sede nova, no interior de São Paulo, chamada Vila XP, que é um lugar que vai funcionar como um ponto de encontro onde as pessoas vão se encontrar lá e a gente vai fazer alguns rituais que funcionam melhor fisicamente, como trocas de melhores práticas, como treinamentos, falar de cultura. Mas eu confesso que para a XP, o conceito de bater ponto e ir todo dia no escritório, ele não faz mais sentido

Qual o percentual de funcionários em home office hoje? 

Mais de 90%. 

Antes da pandemia, vocês trabalhavam no sistema de home office? 

Não, antes era inaceitável. Nós tivemos de ter a experiência pra entender. 

O que vocês traçaram de metas para este ano? 

Desejo que todo ano a gente atinja as metas impossíveis. A gente tem a cultura na empresa de metas impossíveis e todo ano eu quero que elas sejam atingidas e todos os anos foram atingidas. Não existe meta impossível.
  

Mas eu diria que as nossas maiores metas este ano são voltadas à construção da nossa experiência de cartão de crédito e serviço de banco digital. A gente quer, cada vez mais, que os clientes que invistam com a gente tenham um cartão de crédito fora de série e possam ter uma conta digital e um banco que as trate de verdade como clientes especiais, sem tarifas escondidas, com uma taxa de crédito muito acessível e experiências nunca vistas antes no Brasil. Entregar isso é nossa grande expectativa neste ano. 

Mudando a chave para o empreendedorismo, você acha que o Brasil é um bom lugar para empreender? 

Você tem que empreender onde tem problema. No Brasil, não falta problema, e o empreendedor gosta de problema. Se você morar na Suíça, não tem problema. O Brasil é o sonho dos empreendedores, um país continental, um povo amistoso, tem estabilidade econômica, tem 210 milhões de habitantes e tá cheio de problema, né?! Falta tudo no Brasil. Falta infraestrutura, saneamento, competição no setor financeiro. O Brasil é o país dos monopólios e oligopólios. Então, a minha trajetória é um pouco isso. Quantos outros empreendedores que estão surgindo não tem trajetórias tão legais ou até melhores?! Quem quer empreender não vai pra Miami nem pra Portugal. Vem pro Brasil, bota a cara a tapa, pensa no longo prazo, faz a coisa certa que a recompensa aqui é maravilhosa. 

Você pode dar um conselho para quem quer começar a empreender hoje e um conselho para quem quer começar a investir na Bolsa hoje? 

Quem quer começar a empreender, tenha um sonho grande na cabeça, porque ter um sonho grande é algo que faz a sua vida valer a pena, é inspirador. Mas comece pequeno. Sonhar grande não significa começar grande. Sonha que você vai chegar àquele lugar maravilhoso, saiba que vai demorar muito, que é no longo prazo que se atingem estes resultados impossíveis; saiba também que você vai ter muitos obstáculos, mas se você tiver resiliência, obstinação, você vai atravessar todos eles, acima de tudo se você for uma pessoa humilde, aprendendo com os erros, tentando de novo, corrigindo e, quando menos esperar, você vai chegar lá. Mas comece pequeno. Não fique com vergonha de começar da sala de casa, do quarto.  

E pra investir em renda variável, o mais importante é: busque uma pessoa de confiança que possa te assessorar, te ajudar a entender um pouco mais dos riscos e sobre como funciona. Também tem muita literatura interessante sobre o tema. Quanto mais você for conhecendo sobre o assunto, mais você vai tendo opinião própria e ficando confortável com a direção a seguir.

Quero receber conteúdos exclusivos sobre negócios