Ampliação do uso de tecnologias é desafio para a indústria cearense, mostra estudo inédito

Empresas do Ceará ainda não estão inseridas no conceito da indústria 4.0, aponta oeconomista sênior do Banco Mundial, Xavier Cicera

Legenda: A pesquisa considerou a realidade em mais de 30 municípios cearenses e um total de 711 empesas de diferentes portes e setores, como agropecuário, indústria, comércio e serviços
Foto: Thiago Gadelha

A mudança cultural para garantir a adoção de novas tecnologias deverá ser crucial para a indústria cearense não perder espaço na economia local.

A perspectiva faz parte da análise de uma pesquisa elaborada pelo Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) e do Banco Mundial sobre o nível de uso de inovações tecnológicas para o aumento da capacidade produtiva. 

Os dados do levantamento apontam que o Ceará apresentou um resultado médio de 2,5 no índice de adoção tecnológica, em uma base que varia entre 1 (básico) e 5 (nível de fronteira).

Segundo o Observatório, o objetivo era medir a sofisticação das tecnologias "mais intensivamente utilizadas pelas empresas locais e identificar diversos aspectos correlacionais a esse uso". 

A pesquisa considerou a realidade em mais de 30 municípios cearenses e um total de 711 empesas de diferentes portes e setores, como agropecuário, indústria, comércio e serviços. 

E a análise do economista sênior do Banco Mundial, Xavier Cicera, aponta para uma falta de homogeneidade do nível de adoção tecnológica entre as empresas. Ele defendeu que as empresas cearenses ainda não estão inseridas nos conceitos da Indústria 4.0. 

"Existe um gap alto em termos de adoção tecnológica pelas empresas no Ceará. O nível de adesão à Indústria 4.0 ainda é baixo", comentou. 

Espaço para avançar

Segundo o gerente do Observatório da Indústria do Sistema Fiec, Guilherme Muchale, ainda há muito espaço para evolução e adoção de tecnologias no Estado, principalmente em mecanismos para ajudar a produção. 

O relatório do Observatório da Indústria indica que as áreas internas das empresas que mais incorporam tecnologias avançadas são a "administração dos negócios" e o "planejamento de produção".

"O resumo dos resultados mostra que a indústria cearense tem adotado tecnologias, mas ainda há espaço para usar mais. A gente traz novas tecnologias, mas não usa como forma principal da produção"
Guilherme Muchale
Gerente do Observatório da Indústria do Sistema Fiec

Contudo, para evoluir nesse cenário é preciso que haja uma mudança cultural para melhorar índices de gestão e educação das forças produtivas e dos executivos no cenário local.

Segundo Muchale, as empresas precisam focar em impulsionar mais os investimentos em capacitação e as iniciativas de adoção das novas tecnologias como ferramentas principais da produção. 

"Por mais que o Ceará se posicione à frente do país em desenvolvimento na África e no Leste Asiático, em termos de práticas de gestão, as indústrias ainda não conseguem apresentar um diferencial. Então, temo essa necessidade de avançar na gestão para que a utilização das tecnologias tenha um resultado mais positivo", disse. 

"O outro aspecto é a questão educacional, principalmente no que se refere à educação executiva. Às vezes, o principal executivo da empresa, e muitas vezes o corpo gerencial, tem níveis educacionais muito mais baixos do que em outros países em desenvolvimento também", explicou Muchale. 

Riscos para o Ceará 

Analisando o cenário e as perspectivavas de desempenho do setor a partir dos conceitos da indústria 4.0, aliado ao cenário de um mercado globalizado, Muchale afirmou que o mercado cearense, assim como o brasileiro, corre risco de ver uma redução da participação da indústria para a geração de riquezas na economia. 

O gerente do Observatório da Fiec comentou que a inovação tecnológica será, no curto e médio prazo, fator extremamente relevante para a competição no mercado. Logo, caso o mercado estadual não consiga reverter o quadro de resistência à adoção de novas tecnologias e não melhore a questão educacional, muitas empresas podem acabar não resistindo. 

A gente está em um lapso temporal. A gente tem na janela de oportunidades, talvez nesses próximos dois ou três anos, que se não forem aproveitadas, vão gerar um distanciamento tecnológico tão forte, que basicamente qualquer abertura econômica do país vai gerar uma redução da participação da indústria no PIB", disse.
Guilherme Muchale
gerente do Observatório da Fiec

"Ou seja, quem não adotar essa tecnologia em um espaço aí de médio prazo, infelizmente não vai sobreviver. E isso é um cenário de aventura econômica", completa. 

Resistência local 

Contudo, apesar dos dilemas citados, a pesquisa apontou que o empresário cearense ainda encara o cenário econômico nacional e local com uma certa instabilidade, o que poderia estar reduzindo os investimentos em novas tecnologias. 

Conforme a pesquisa da Fiec com o Banco Mundial, a principal barreira apontada para adoção de novas tecnologias é a insuficiência ou a incerteza da demanda.

Por outro lado, as maiores motivações destacadas pelo setor foram a depreciação de equipamento e a competição no mercado doméstico. 

Agenda da indústria 

Para tentar reverter o quadro, Muchale ressaltou a agenda mantida pela Fiec para impulsionar a evolução da indústria cearense, que incluem a cooperação com órgãos internacionais e parcerias com o Governo Federal e o Governo do Estado.

Além disso, ele ressaltou a importância do contato do mercado com o ambiente acadêmico, citando parcerias com as universidades e institutos de tecnologia. 

Contudo, o economista ponderou que o poder público poderia ampliar a participação e incentivo às políticas de inovação no mercado privado, até mesmo dando mais previsibilidade aos editais de inovação científica, por exemplo. 

Eu acho que existe uma necessidade e um compromisso público. A ampliação dos recursos  estaduais e públicos para as ciências, a tecnologia, e a inovação são muito importantes para o papel do Estado, que é muito relevante na disseminação de tecnologia", disse.
Guilherme Muchale
gerente do Observatório da Indústria

"O Estado pode participar como um agente animador do cenário, estudando junto com a academia e se aliando ao setor produtivo para garantir essa maior velocidade na adoção tecnológica", completou.

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