Lima Duarte diz que, na juventude, recusou ir à zona de prostituição 'porque só tinha preta'

Ator de 96 anos discursou durante premiação da Associação Paulista de Críticos da Arte, na noite de segunda (4).

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Redação producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 10:32)
Pessoa idosa em posto de combustível, apoiada em uma bomba numerada 24, com prédios ao fundo ao entardecer.
Legenda: Lima Duarte foi homenageado pela premiação, mas criticado pela plateia do evento.
Foto: Edu Araujo/Agnews;

O ator Lima Duarte, de 96 anos, causou polêmica durante a cerimônia de premiação da Associação Paulista de Críticos da Arte (APCA), realizada na última segunda-feira (4). Homenageado da noite, o artista disse ter "recusado", na juventude, ir a uma zona de prostituição com mulheres pretas.

A declaração causou constrangimento entre os presentes no evento, tanto no palco como na plateia. Segundo convidados, a fala teve teor racista.

O que aconteceu

O discurso foi realizado quando o artista subiu ao palco para receber um troféu especial pelos 75 anos de trajetória na TV brasileira. No discurso, ele contou que se recusou, aos 15 anos, a ir a uma zona de prostituição em São Paulo frequentada por mulheres negras.

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O episódio, contou ele, ocorreu quando saiu da cidade de Sacramento (MG) e foi para a capital paulista, onde trabalhou no Mercado Municipal. Um colega o chamou para ir à "zona" da cidade.

"Eu falei: 'o que é zona?' Ele falou: 'é mulher'. Eu respondi: 'vamos'", relatou. O amigo, então, explicou que duas ruas eram conhecidas pela prostituição na Cidade, a Aimorés e a Itaboca. A segunda, citada como a opção mais barata, seria a que as mulheres pretas frequentavam.

"Não fui. Moleque de rua, dormia embaixo de caminhão. Não fui porque só tinha preta... Que vida, hein, que coisas eu fui percebendo ao longo da vida. Então, nós fomos na Aimorés", concluiu ele.

Após o ocorrido, três mulheres premiadas rebateram a frase de Lima. Carmen Luz, Shirley Cruz e Grace Passô foram aplaudidas pelo público durante os discursos.  "Mulheres pretas, levantai-vos", disse Carmen. Ela foi premiada na categoria Programa/Memória/Projeto/Difusão com a iniciativa "Minas de Ouro". 

"Esse trabalho ['Minas de Ouro'] é uma obra de vingar, mas também de vingança. É uma obra que invadiu a cidade de Campinas para reverenciar o samba. O samba das mulheres pretas, que não estão no mundo para serem recusadas", disse. 

Enquanto isso, Shirley Cruz, eleita melhor atriz de cinema pelo filme "A Melhor Mãe do Mundo", agradeceu o posicionamento de Carmen. "Sou uma mulher de pensamento próspero, de atitudes prósperas. Sou a prosperidade das minhas ancestrais. Prosperidade é um direito nosso. Vejam só, de rejeitados a premiados. Carmen Luz, te amo", discursou.

Ator se pronunciou após repercussão da fala

Procurado pela colunista Monica Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo, após a repercussão da fala, Lima Duarte argumentou que a história era da infância, que retratava um "Brasil muito duro", de um "menino sem formação" e que vivia na rua.

"Aquela fala nasceu como retrato de um tempo e também como forma de protesto, do olhar de quem respeita e entende uma luta que é de todos", comentou à publicação. 

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