Vacina contra varíola dos macacos existe, mas não está disponível no Brasil

Como os últimos casos da doença em sua forma comum ocorreram há mais de 40 anos, campanhas de imunização foram extintas em todo o mundo.

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Ceará
Ilustração de vírus da varíola, ilustrando o vírus da varíola do macaco.
Legenda: Em 1980, varíola foi considerada erradicada oficialmente pela Organização Mundial de Sáude (OMS)
Foto: Shutterstock

A varíola dos macacos tem preocupado autoridades de saúde após registros de casos na África, Europa e Estados Unidos. Atualmente, existem vacinas contra a doença, mas elas não estão amplamente disponíveis para a população geral.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a vacina contra a varíola humana tem cerca de 85% de eficácia contra a varíola dos macacos. A questão é que, como a varíola humana foi erradicada há mais de 40 anos, as campanhas de imunização pararam de ocorrer.

Erradicar uma doença significa reduzir a zero sua propagação no ambiente. No Brasil, o último caso da varíola foi registrado em 1971. Mundialmente, o reconhecimento da erradicação ocorreu em 1979, pela OMS.

Logo, como a doença parou de circular em todo o globo, as autoridades de saúde decidiram interromper a imunização. Ou seja, populações de todos os países com idade inferior a 40 ou 50 anos nunca tomaram essa vacina.

A Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) confirmou que o imunobiológico contra a varíola não está incluída no Plano Nacional de Imunização (PNI), do Ministério da Saúde (MS), “assim como não há um fluxo de comercialização entre Estados e a indústria farmacêutica”.

A representante de uma clínica de imunização, em Fortaleza, também afirmou que essa vacina não está disponível nem mesmo para compra privada no Brasil.

O Ministério da Saúde confirmou que, após o Brasil receber a Certificação Internacional da Erradicação da varíola humana, em 1973, foi decretado o fim das campanhas de vacinação. A Pasta não respondeu se atualmente há alguma reserva técnica do imunizante, se há intenção de compra e nem para quais públicos ele seria destinado.

Além disso, o MS criou uma Sala de Situação para elaborar um plano de ação para o rastreamento de casos suspeitos e a definição do diagnóstico da doença. “Até o momento, não há notificação de casos suspeitos da doença no País”, ressalta. 

Barrar a transmissão

O imunologista Edson Teixeira, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), considera que ainda não há motivo para grande preocupação, mas é preciso monitorar a evolução da doença. 

Ela é menos letal do que a variedade original e não tem tratamento específico. Teria que se pensar, caso haja a aceleração do número de casos ao redor do mundo, no desenvolvimento de uma vacina específica, mas a vacina da varíola [humana] já promove alguma proteção".
Edson Teixeira
Imunologista e professor da UFC

Segundo o especialista, o ideal neste momento é impedir a chegada do vírus ao Brasil e, consequentemente, sua transmissão comunitária, já que o país integra uma grande rede de voos internacionais.

Por isso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou a manutenção de medidas de proteção individuais e coletivas em aeroportos e aeronaves, como o uso de máscaras e higienização constante das mãos.

“A Anvisa atua consoante às ações das demais agências e organismos de saúde mundiais e permanece monitorando a evolução do quadro em constante contato com o Ministério da Saúde”, ressalta o órgão.

Vacina em outros países

O Instituto Butantan reforça que, embora uma vacina (MVA-BN) e um antiviral específico (tecovirimat) tenham sido aprovados contra a varíola dos macacos, em 2019 e 2022, respectivamente, essas contramedidas “ainda não estão amplamente disponíveis”. 

Nem o Butantan nem a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), principais fornecedoras de imunobiológicos ao Sistema Único de Saúde (SUS), produzem vacinas contra a varíola no Brasil.

No caso americano, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) afirma que, em situações não-emergenciais, somente militares e pesquisadores de laboratório que trabalham diretamente com a família de vírus Orthopoxvirus têm recomendação para receber o imunizante.

No Reino Unido, as autoridades oferecem a vacina contra varíola comum a profissionais de saúde e pessoas que podem ter sido expostas à varíola dos macacos. Alemanha e França também já ponderam a aplicação em determinados públicos.

Sintomas e transmissão

Para o imunologista Edson Teixeira, a varíola assusta porque causou mortes no passado, só sendo controlada após a campanha de vacinação em massa feita pela OMS. Por isso, o ideal é impedir sua disseminação em outros países.

A varíola dos macacos, ou “monkeypox”, é transmitida aos seres humanos através do contato próximo com pessoas ou animais infectados, como lesões, fluidos corporais e gotículas respiratórias; ou com objetos contaminados com o vírus, como roupas de cama.

A doença costuma ser autolimitada (tem um fim sozinha), com os sintomas durando de duas a quatro semanas. Mesmo assim, casos graves podem ocorrer, e a taxa de mortalidade é de 3% a 6%.

Conforme o Butantan, os sintomas iniciais incluem:

  • febre
  • dor de cabeça
  • dores musculares e nas costas
  • linfonodos inchados
  • calafrios
  • exaustão
  • lesões na pele se desenvolvem primeiramente no rosto e depois se espalham para outras partes do corpo, incluindo genitais 

As lesões parecem as da catapora ou da sífilis até formarem uma crosta, que depois cai. A recomendação atual é que pessoas infectadas fiquem isoladas e em observação por 21 dias.