Saiba como a Covid impacta na circulação de vírus respiratórios e como evitar gripes recorrentes

Os menores de 5 anos são, especialmente, afetados pelas síndromes gripais e medidas indicadas por especialistas interrompem ciclo de transmissão viral

Escrito por Lucas Falconery, lucas.falconery@svm.com.br

Ceará
Emergência
Legenda: Pequenos são mais afetados por doenças respiratórias no período
Foto: Fabiane de Paula

Uma nuvem de vírus respiratórios sempre se espalhou no nosso cotidiano, mas a chegada do Sars-Cov-2, que causa a Covid, cria as condições para uma enxurrada de infecções afetando, principalmente, as crianças. O período alerta para a prevenção e cuidado com os pequenos com gripes frequentes.

As crianças entre 0 e 4 anos ocupam espaço de destaque nos atendimentos por síndromes gripais nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do Ceará. Em geral, a demanda dos pequenos representou 3% do total de janeiro e passou para 19,5% em fevereiro.

Antes da cura de uma infecção, por causa do organismo fragilizado, a criança pode se tornar alvo de outras doenças respiratórias. As chuvas, a baixa cobertura vacinal e a desobrigação das máscaras completam o cenário perfeito para os vírus.

Como numa espécie de competição, os vírus disputam espaço entre a população. E o coronavírus tem a vantagem de ser altamente transmissível, como a variante Ômicron, para garantir o seu lugar.

“Quando você tem um novo vírus introduzido nessa circulação, que está conseguindo realmente causar uma transmissão sustentada em uma população, os outros vírus sofrem alguns tipos de pressão”, explica o virologista e biomédico Mário Oliveira.

O especialista explica que alguns vírus se propagam com sazonalidade, ou seja, em períodos específicos. A influenza, por exemplo, costuma aparecer em dezembro e se fortalecer em janeiro e fevereiro.

Estão entre os vírus respiratórios mais comuns:

  • Influenza A e B
  • Sars-Cov-2 (Coronavírus)
  • Adenovírus
  • Rinovírus
  • Vírus Sincicial Respiratório (VSR)

“Todos estão circulando e tentando causar infecções, principalmente, em crianças normalmente de poucos meses até 5 anos, que é o mais comum porque a imunidade ainda está se desenvolvendo”, completa Mário.

As viroses em série já aconteciam, mas fatores trazidos pela pandemia intensificam o cenário neste ano. Entre eles, a falta de convívio social nos 2 anos de isolamento, quando o sistema imunológico ficou menos exposto.

Agora, quando uma criança está se recuperando de uma infecção, uma nova janela pode ser aberta, como explica a médica pediatra, Izabella Tamira.

“Ainda fica com uma tosse residual, coriza e quando isso está se resolvendo, tem contato com outros vírus diferentes e reabre o quadro respiratório”, completa.

Às vezes, pode até parecer que é uma doença só, de forma contínua, mas o que a gente tem, na verdade, são várias infecções respiratórias por vírus diferentes
Izabella Tamira
Médica pediatra

Por isso a importância de conhecer qual a doença e tomar as medidas de controle da doença, como explica.

"Entra a questão da Covid, porque a gente deve levar em consideração que todo quadro gripal ainda deve ser um caso suspeito, que deve ser testado e isolado, se for positivo”, completa.

Em um contexto de aparecimento de subvariantes, esses cuidados devem se intensificar, como destaca a médica epidemiologista Lígia Kerr.

“O coronavírus é muito transmissível e não se tem relatos de doenças mais transmissível do que essas últimas cepas da Ômicron, inclusive o sarampo, que está entre as mais transmissíveis”, ressalta.

É possível se infectar com mais de um vírus?

Casos de coinfecção viral, quando mais de um agente atua sobre o mesmo paciente, são comuns, como contextualiza Mário Oliveira. Nesses casos, também pode haver abertura para outras doenças.

“Em geral, são os vírus que abrem portas para as bactérias, causando uma infecção secundária”, completa. Mas, no caso da coinfecção, isso não significa um agravamento.

"Em relação à coinfecção, não necessariamente a criança vai ter um quadro pior, mas lógico que isso pode acontecer, especialmente, em pacientes que já tenham alguma doença de base", acrescenta Izabella.

Emergências
Legenda: Emergências recebem mais pacientes com síndromes respiratórias

Crianças com asma ou doenças neurológicas, por exemplo, são mais suscetíveis aos quadros graves. "A principal orientação são os cuidados de higiene pessoal, lavagem das mãos ou com álcool 70%, isolar, fazer a testagem para a Covid”, reforça a pediatra. 

O virologista também lembra a importância da imunização. “Nós sabemos que a importância da vacina é, principalmente, para evitar a gravidade de uma determinada doença. Quando temos uma boa quantidade de pessoas vacinadas, com certeza vai diminuir a circulação do microorganismo”.

Diminui a circulação do vírus e até acaba naquele período enquanto a vacina está funcionando. Dependendo da vacina, isso são anos ou meses, como a do coronavírus, que precisamos tomar outras doses
Mário Oliveira
Virologista

Estratégias para barrar a transmissão

Lígia Kerr explica que os imunizantes contra o coronavírus cumprem a função de evitar quadros graves e mortes pela doença, mas ainda há a circulação do Sars-Cov-2.

“A vacina tem protegido muito pouco da infecção, que se inicia nas vias respiratórias superiores, como nariz, faringe. O anticorpo produzido pela vacina está mais longe para ser alcançado, então, não consegue barrar a entrada do vírus”, explica.

São recomendações dos especialistas:

  • Isolamento em caso de nariz escorrendo, febre, espirros e tosse
  • Testagem de Covid
  • Lavagem de mãos e uso de álcool 70%
  • Lavagem nasal para evitar o acúmulo de secreções e as complicações secundárias

Por isso, a especialista defende a continuidade do uso de máscaras, a aplicação da 2ª dose da vacina contra a Covid - bem como da influenza - para aumentar a proteção.

“Mesmo com a vacina protegendo os óbitos, tem ocorrido um aumento das internações, então a gente precisa tomar cuidado. Para as crianças, foi um erro tirar as máscaras, nós passamos 2 anos e de repente abre tudo. E não é assim”, frisa.

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