Retirada de famílias e lugares remotos: os bastidores de ações da Defesa Civil em dias de chuvas no CE

Reportagem do Diário do Nordeste acompanhou uma manhã de vistorias e ações realizadas pelo órgão em Itapipoca

Escrito por Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
25 de Março de 2023 - 07:00 (Atualizado às 10:22)
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Legenda: Defesa Civil de Itapipoca vistoria área com risco de deslizamento, no distrito de Arapari, região serrana da cidade
Foto: Ismael Soares

O sol a pino e a vida aparentemente normal na cidade, na manhã de quarta-feira (22), não demonstravam, mas a alguns quilômetros serra acima a população de Itapipoca, no Ceará, ainda respirava entre paredes úmidas e solo instável.

As fortes chuvas que assolaram a região no sábado (18), quando foi registrado um acumulado de 92 milímetros, causaram deslizamentos e enchentes, bloqueando estradas na região serrana e derrubando casas cujas estruturas já se desgastam há anos.

Os problemas se iniciam ainda na sede da cidade, onde mais de 400 moradores dos bairros da Ladeira e Sanharão precisaram deixar suas casas, após alerta da Defesa Civil local de que havia risco de deslizamentos.

Bairro da Ladeira, em Itapipoca, tem mais de 400 pessoas vivendo em moradias de risco; Prefeitura chegou a evacuar o local, mas famílias retornaram
Legenda: Bairro da Ladeira, em Itapipoca, tem mais de 400 pessoas vivendo em moradias de risco; Prefeitura chegou a evacuar o local, mas famílias retornaram
Foto: Ismael Soares

O trabalho preventivo, aliás, é ininterrupto. Remotamente ou in loco, engenheiros monitoram e reforçam barragens de açudes, enquanto agentes da Defesa Civil e de assistência social atendem chamados, visitam e evacuam moradias ameaçadas em regiões de difícil acesso.

Na manhã de quarta-feira (22), o Diário do Nordeste acompanhou, com exclusividade, o trabalho de uma das equipes, liderada por Cláudio Brito, coordenador da Defesa Civil de Itapipoca, e Paula Braga, secretária de Assistência Social da cidade

Detalhamos aqui, então, os bastidores desse trabalho, desde o trajeto das equipes até as dificuldades de evacuação das residências – já que muitos moradores se recusam a deixar o próprio teto, ainda que precário.

A experiência que narramos a seguir, porém, é apenas uma tentativa. A dimensão dos estragos que as chuvas deixaram em áreas de risco cearenses – e a esperança que resiste na população – vai para muito além de fotos, vídeos e relatos.

Subida à serra

Para subir às regiões mais altas, é necessário um carro 4x4
Legenda: Para subir às regiões mais altas, é necessário um carro 4x4
Foto: Ismael Soares

8h30

Chegamos à sede da Prefeitura de Itapipoca, ponto de encontro das equipes que subiriam para atender as ocorrências na região serrana. Cláudio Brito, coordenador da Defesa Civil municipal; e Paula Braga, secretária de Assistência Social, integram os trabalhos pessoalmente.

9h30

A cerca de 7km do ponto de partida, as equipes desembarcam no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) do distrito de Arapari; e abastecem os carros com cestas básicas, frutas, legumes e materiais de higiene pessoal.

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Aqui, temos de estacionar o nosso carro e seguir viagem nos veículos 4x4 da prefeitura, devido à dificuldade de tráfego nas estradas tão íngremes quanto danificadas pelos múltiplos deslizamentos.

10h

A Defesa Civil visita a primeira residência sob risco. O imóvel fica próximo a uma encosta de pedras que estão com fixação comprometida e ameaçam rolar por cima da casa. Em relevo irregular, a própria residência já tem rachaduras visíveis.

“Tem três pedras que, se der chuva forte, descem na mesma direção do curso d’água e atingem a casa. Não são grandes, mas têm tamanho suficiente pra derrubar. Tem também um poste na iminência de cair”, reporta Cláudio à equipe.

A assistente social que já acompanha a família tenta contato por telefone, já que, por medo, eles não dormem na casa desde as últimas chuvas fortes. Sem sucesso no contato, já que o sinal de celular é nulo no topo da serra, a equipe segue para o próximo destino.

Foto: Ismael Soares

11h

Defesa Civil e assistência social chegam a outra residência no alto da serra, na localidade de Mocambo de Cima, no distrito de Arapari. Dois cômodos da casa que Maria de Sousa, 55, construiu com o marido nos anos 1980 desabaram após as precipitações.

Para chegar lá, inclusive, foi preciso “escalar” uma ladeira desgastada pela água, ainda presente em poças de barro e lodo. Ao contrário da repórter e do fotógrafo, que precisaram redobrar cuidados, o caminho já é percorrido com alguma facilidade pela equipe municipal.

Durante a visita, a casa de Maria foi vistoriada e, por não ter mais condições seguras de habitação, interditada. Ela e o marido precisariam, a partir daquele momento, morar na casa do filho. A notícia, apesar de “esperada”, chega como um soco no estômago.

A assistência social cadastra a família para verificar de quais benefícios além do aluguel social ela precisa agora. Em conversa com a reportagem, como se “a ficha caísse”, Maria chora. “Vivo aqui a vida toda, faço o que agora?” “A senhora não tá só”, responde Cláudio.

Defesa Civil prepara auto de interdição da casa de Maria de Sousa, em Mocambo de Cima
Legenda: Defesa Civil prepara auto de interdição da casa de Maria de Sousa, em Mocambo de Cima
Foto: Ismael Soares

“A gente sabe que não dá pra ficar”

11h30

Mais um imóvel é evacuado e interditado pelo órgão municipal. Enquanto segue para outro endereço já programado, o coordenador da Defesa Civil avista uma casa no alto de uma “ladeira” de barro vermelho – e, então, solicita a parada da equipe.

À beira de uma encosta que já teve deslizamentos, a casa tem infiltrações, rachaduras e zero condição de moradia. Na residência, minúscula, vivem 4 pessoas: Adriano da Silva, 41, e os filhos. A vista da janela do quarto da família é o morro que ameaça deslizar.

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“A gente sabe que não dá pra ficar, mas tá aqui porque não tem pra onde ir”, confessa o agricultor. A Defesa Civil coleta os dados do proprietário da casa e o auto de interdição é lavrado. 

Agora, Adriano precisa encontrar uma casa para alugar, e aguardar os trâmites do aluguel social para conseguir outro teto. “Vou procurar em Itapipoca mesmo”, diz. Caso se mude para a sede, ele vai economizar os R$ 400 de passagens dos filhos para ir à escola.

Adriano e os filhos precisaram desocupar a própria casa, diante do risco de deslizamento
Legenda: Adriano e os filhos precisaram desocupar a própria casa, diante do risco de deslizamento
Foto: Ismael Soares

Sob a chuva que havia dado trégua, mas voltou; a equipe desce de volta a ladeira da casa de Adriano até a estrada. Já no carro, uma das profissionais do CRAS de Arapari, que dá suporte à ação, confessa aos colegas:

Quando tá aqui, a gente tem que resolver, ser prática, ajudar essas pessoas. Mas é claro que a gente sente, e sente muito. Chego em casa, no fim do dia, e meu corpo treme de tanto cansaço mental.

12h10

Volta a chover na serra. Com galochas nos pés, mas sem guarda-chuva, a equipe chega a uma moradia com alto risco de desabamento. O telhado está visivelmente comprometido, e as paredes, já enviesadas, são sustentadas por tocos de madeira. 

O dono da casa, um idoso de 82 anos, se recusa a sair, mesmo sob o laudo-sentença do coordenador da Defesa Civil: “não é seguro, seu José, sua casa pode cair a qualquer momento”.

Foto: Ismael Soares

As assistentes sociais, Cláudio e até a assessora de comunicação que nos acompanha no percurso investem longos minutos tentando convencê-lo a deixar o local. Com ele, vive uma criança de 8 anos de idade. 

“Só saio daqui quando o senhor sair, não adianta”, reforça Cláudio. E então José e o filho pequeno embarcam no carro da prefeitura rumo à casa de parentes.

O trabalho de convencimento, aliás, é um dos mais delicados. Como conciliar a necessidade de garantir a segurança física das famílias com a compreensão de que, para elas, não é fácil “abandonar” o próprio teto?

Diversas encostas deslizaram após fortes chuvas
Legenda: Diversas encostas deslizaram após fortes chuvas
Foto: Ismael Soares

12h18

Mais uma interdição, mais uma família que não quer sair de casa. Barro e madeira são o que ergue as paredes de Lindalva de Sousa, 29, na parte de baixo de um barranco cujo acesso foi o mais complicado para a equipe. À beira de um rio caudaloso, a casa quase foi inundada, no fim de semana.

O solo lamacento ao redor imita pedra: mas, ao pisarmos, se desmancha. Com a combinação de lama, lodo e inclinação acentuada – rotineira para moradores –, a repórter precisou ser apoiada pela secretária de Assistência Social para não cair.

Mesmo sob protesto, o auto de interdição da casa de Lindalva é lavrado. Ela e a família precisarão, então, seguir para a casa de uma irmã.

Secretária de Assistência Social de Itapipoca, Paula Braga, conversa com a dona de casa Lindalva sobre os riscos de continuar na casa com risco iminente de desabamento
Legenda: Secretária de Assistência Social de Itapipoca, Paula Braga, conversa com a dona de casa Lindalva sobre os riscos de continuar na casa com risco iminente de desabamento
Foto: Ismael Soares

12h35

A equipe chega à Escola Municipal Menino Deus, ainda em Mocambo de Cima. A instituição está com aulas suspensas nesta semana, porque os estudantes não conseguem chegar até lá. 

Algumas das turmas, que vão desde a creche até o 9º ano, têm aulas remotas. Uma professora “guarda” o local, que pode servir, a qualquer momento, como abrigo para famílias em situação de risco.

A pausa na escola é estratégica: por meio do Wi-Fi, a equipe municipal se atualiza, envia e recebe mensagens. “Tá caindo um pau d’água em Itapipoca”, comunica Paula, secretária de Assistência Social.

Com a notícia, todos se entreolham preocupados. Questionamos o porquê e descobrimos que o nosso retorno depende da integridade de uma ponte que já havia sido destruída pela água no fim de semana. Se a chuva “engrossar”, ficamos ilhados.

Foto: Ismael Soares

13h05

Os profissionais, então, concluem que os casos mais graves já haviam sido atendidos, e decidem retornar à cidade. No dia seguinte – ou provavelmente mais tarde no mesmo dia –, Cláudio e a equipe retornariam às atividades, prevenindo ocorrências. 

Nossa equipe, por outro lado, encerraria  ali a cobertura iniciada na terça-feira (21) em Uruburetama e Itapajé, também atingidas pelas precipitações intensas.

Preparamos a volta para casa levando na bagagem múltiplos cenários, relatos plurais e uma surpresa essencial: entre quase duas dezenas de entrevistados, ninguém reclamou da chuva. Nenhum pediu que parasse de chover.

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