Retirada de famílias e lugares remotos: os bastidores de ações da Defesa Civil em dias de chuvas no CE
Reportagem do Diário do Nordeste acompanhou uma manhã de vistorias e ações realizadas pelo órgão em Itapipoca
O sol a pino e a vida aparentemente normal na cidade, na manhã de quarta-feira (22), não demonstravam, mas a alguns quilômetros serra acima a população de Itapipoca, no Ceará, ainda respirava entre paredes úmidas e solo instável.
As fortes chuvas que assolaram a região no sábado (18), quando foi registrado um acumulado de 92 milímetros, causaram deslizamentos e enchentes, bloqueando estradas na região serrana e derrubando casas cujas estruturas já se desgastam há anos.
Os problemas se iniciam ainda na sede da cidade, onde mais de 400 moradores dos bairros da Ladeira e Sanharão precisaram deixar suas casas, após alerta da Defesa Civil local de que havia risco de deslizamentos.
O trabalho preventivo, aliás, é ininterrupto. Remotamente ou in loco, engenheiros monitoram e reforçam barragens de açudes, enquanto agentes da Defesa Civil e de assistência social atendem chamados, visitam e evacuam moradias ameaçadas em regiões de difícil acesso.
Na manhã de quarta-feira (22), o Diário do Nordeste acompanhou, com exclusividade, o trabalho de uma das equipes, liderada por Cláudio Brito, coordenador da Defesa Civil de Itapipoca, e Paula Braga, secretária de Assistência Social da cidade
Detalhamos aqui, então, os bastidores desse trabalho, desde o trajeto das equipes até as dificuldades de evacuação das residências – já que muitos moradores se recusam a deixar o próprio teto, ainda que precário.
A experiência que narramos a seguir, porém, é apenas uma tentativa. A dimensão dos estragos que as chuvas deixaram em áreas de risco cearenses – e a esperança que resiste na população – vai para muito além de fotos, vídeos e relatos.
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Subida à serra
8h30
Chegamos à sede da Prefeitura de Itapipoca, ponto de encontro das equipes que subiriam para atender as ocorrências na região serrana. Cláudio Brito, coordenador da Defesa Civil municipal; e Paula Braga, secretária de Assistência Social, integram os trabalhos pessoalmente.
9h30
A cerca de 7km do ponto de partida, as equipes desembarcam no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) do distrito de Arapari; e abastecem os carros com cestas básicas, frutas, legumes e materiais de higiene pessoal.
Aqui, temos de estacionar o nosso carro e seguir viagem nos veículos 4x4 da prefeitura, devido à dificuldade de tráfego nas estradas tão íngremes quanto danificadas pelos múltiplos deslizamentos.
10h
A Defesa Civil visita a primeira residência sob risco. O imóvel fica próximo a uma encosta de pedras que estão com fixação comprometida e ameaçam rolar por cima da casa. Em relevo irregular, a própria residência já tem rachaduras visíveis.
“Tem três pedras que, se der chuva forte, descem na mesma direção do curso d’água e atingem a casa. Não são grandes, mas têm tamanho suficiente pra derrubar. Tem também um poste na iminência de cair”, reporta Cláudio à equipe.
A assistente social que já acompanha a família tenta contato por telefone, já que, por medo, eles não dormem na casa desde as últimas chuvas fortes. Sem sucesso no contato, já que o sinal de celular é nulo no topo da serra, a equipe segue para o próximo destino.
11h
Defesa Civil e assistência social chegam a outra residência no alto da serra, na localidade de Mocambo de Cima, no distrito de Arapari. Dois cômodos da casa que Maria de Sousa, 55, construiu com o marido nos anos 1980 desabaram após as precipitações.
Para chegar lá, inclusive, foi preciso “escalar” uma ladeira desgastada pela água, ainda presente em poças de barro e lodo. Ao contrário da repórter e do fotógrafo, que precisaram redobrar cuidados, o caminho já é percorrido com alguma facilidade pela equipe municipal.
Durante a visita, a casa de Maria foi vistoriada e, por não ter mais condições seguras de habitação, interditada. Ela e o marido precisariam, a partir daquele momento, morar na casa do filho. A notícia, apesar de “esperada”, chega como um soco no estômago.
A assistência social cadastra a família para verificar de quais benefícios além do aluguel social ela precisa agora. Em conversa com a reportagem, como se “a ficha caísse”, Maria chora. “Vivo aqui a vida toda, faço o que agora?” “A senhora não tá só”, responde Cláudio.
“A gente sabe que não dá pra ficar”
11h30
Mais um imóvel é evacuado e interditado pelo órgão municipal. Enquanto segue para outro endereço já programado, o coordenador da Defesa Civil avista uma casa no alto de uma “ladeira” de barro vermelho – e, então, solicita a parada da equipe.
À beira de uma encosta que já teve deslizamentos, a casa tem infiltrações, rachaduras e zero condição de moradia. Na residência, minúscula, vivem 4 pessoas: Adriano da Silva, 41, e os filhos. A vista da janela do quarto da família é o morro que ameaça deslizar.
“A gente sabe que não dá pra ficar, mas tá aqui porque não tem pra onde ir”, confessa o agricultor. A Defesa Civil coleta os dados do proprietário da casa e o auto de interdição é lavrado.
Agora, Adriano precisa encontrar uma casa para alugar, e aguardar os trâmites do aluguel social para conseguir outro teto. “Vou procurar em Itapipoca mesmo”, diz. Caso se mude para a sede, ele vai economizar os R$ 400 de passagens dos filhos para ir à escola.
Sob a chuva que havia dado trégua, mas voltou; a equipe desce de volta a ladeira da casa de Adriano até a estrada. Já no carro, uma das profissionais do CRAS de Arapari, que dá suporte à ação, confessa aos colegas:
Quando tá aqui, a gente tem que resolver, ser prática, ajudar essas pessoas. Mas é claro que a gente sente, e sente muito. Chego em casa, no fim do dia, e meu corpo treme de tanto cansaço mental.
12h10
Volta a chover na serra. Com galochas nos pés, mas sem guarda-chuva, a equipe chega a uma moradia com alto risco de desabamento. O telhado está visivelmente comprometido, e as paredes, já enviesadas, são sustentadas por tocos de madeira.
O dono da casa, um idoso de 82 anos, se recusa a sair, mesmo sob o laudo-sentença do coordenador da Defesa Civil: “não é seguro, seu José, sua casa pode cair a qualquer momento”.
As assistentes sociais, Cláudio e até a assessora de comunicação que nos acompanha no percurso investem longos minutos tentando convencê-lo a deixar o local. Com ele, vive uma criança de 8 anos de idade.
“Só saio daqui quando o senhor sair, não adianta”, reforça Cláudio. E então José e o filho pequeno embarcam no carro da prefeitura rumo à casa de parentes.
O trabalho de convencimento, aliás, é um dos mais delicados. Como conciliar a necessidade de garantir a segurança física das famílias com a compreensão de que, para elas, não é fácil “abandonar” o próprio teto?
12h18
Mais uma interdição, mais uma família que não quer sair de casa. Barro e madeira são o que ergue as paredes de Lindalva de Sousa, 29, na parte de baixo de um barranco cujo acesso foi o mais complicado para a equipe. À beira de um rio caudaloso, a casa quase foi inundada, no fim de semana.
O solo lamacento ao redor imita pedra: mas, ao pisarmos, se desmancha. Com a combinação de lama, lodo e inclinação acentuada – rotineira para moradores –, a repórter precisou ser apoiada pela secretária de Assistência Social para não cair.
Mesmo sob protesto, o auto de interdição da casa de Lindalva é lavrado. Ela e a família precisarão, então, seguir para a casa de uma irmã.
12h35
A equipe chega à Escola Municipal Menino Deus, ainda em Mocambo de Cima. A instituição está com aulas suspensas nesta semana, porque os estudantes não conseguem chegar até lá.
Algumas das turmas, que vão desde a creche até o 9º ano, têm aulas remotas. Uma professora “guarda” o local, que pode servir, a qualquer momento, como abrigo para famílias em situação de risco.
A pausa na escola é estratégica: por meio do Wi-Fi, a equipe municipal se atualiza, envia e recebe mensagens. “Tá caindo um pau d’água em Itapipoca”, comunica Paula, secretária de Assistência Social.
Com a notícia, todos se entreolham preocupados. Questionamos o porquê e descobrimos que o nosso retorno depende da integridade de uma ponte que já havia sido destruída pela água no fim de semana. Se a chuva “engrossar”, ficamos ilhados.
13h05
Os profissionais, então, concluem que os casos mais graves já haviam sido atendidos, e decidem retornar à cidade. No dia seguinte – ou provavelmente mais tarde no mesmo dia –, Cláudio e a equipe retornariam às atividades, prevenindo ocorrências.
Nossa equipe, por outro lado, encerraria ali a cobertura iniciada na terça-feira (21) em Uruburetama e Itapajé, também atingidas pelas precipitações intensas.
Preparamos a volta para casa levando na bagagem múltiplos cenários, relatos plurais e uma surpresa essencial: entre quase duas dezenas de entrevistados, ninguém reclamou da chuva. Nenhum pediu que parasse de chover.

