Mulheres na menopausa e no climatério: quais direitos estão em debate no Brasil?

Ambulatórios públicos ofertam atendimento especializado, mas tratamento dos sintomas ainda não é ofertado pelo SUS.

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
Mulheres de 40 a 65 anos podem passar por período difícil na saúde, mas há tratamentos.
Legenda: Mulheres de 40 a 65 anos podem passar por período difícil na saúde, mas há tratamentos.
Foto: Camila Lima.

Um período importante da vida de milhões de brasileiras ainda possui pouco espaço no debate público e na esfera das políticas de saúde do País: o climatério, que vai dos 40 aos 65 anos e marca a transição da idade reprodutiva para a idade não-reprodutiva. Esse ciclo compreende a conhecida menopausa, nome dado à última menstruação da mulher.

Apesar de afetar cerca de 17 milhões de mulheres no Brasil, não existem leis específicas relacionadas à menopausa ou ao climatério no âmbito da saúde.

Diante desse cenário, o Diário do Nordeste conversou com especialistas para entender quais direitos estão em debate, já que as transformações desse período acabam atravessando diferentes aspectos da vida das mulheres, passando por bem-estar, trabalho, autoestima e relações familiares.

Entre as principais questões apontadas pelas entrevistadas estão a perspectiva do fornecimento gratuito de dois tipos de tratamentos, o hormonal e o não hormonal, que podem garantir mais qualidade de vida às mulheres nessa fase.

Atualmente, nenhum deles é ofertado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na rede privada, a depender do tratamento, o custo dos medicamentos varia entre R$ 70 e R$ 150, em média, tornando-os inacessíveis para boa parte da população. 

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No Brasil, iniciativas recentes buscam avançar no assunto, mas ainda aguardam a tramitação nas casas legislativas. Dois projetos se destacam em relação ao tema:

Projeto de Lei 876/25

Em janeiro deste ano, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que obriga o SUS a elaborar um protocolo específico para o tratamento de sintomas do climatério, com uso de diferentes abordagens terapêuticas, hormonais e não hormonais. 

O texto aprovado amplia a proposta do Projeto de Lei 876/25, que obteve aprovação da Comissão de Saúde no ano passado e versava especificamente sobre a oferta de tratamento hormonal no SUS. No momento, o projeto aguarda análise das comissões de Finanças e Tributação e de Constituição e Justiça e de Cidadania para seguir para aprovação da Câmara e do Senado.

Projeto de Lei 4504/24

Institui a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde e Qualidade de Vida de Mulheres na Menopausa, que visa promover ações voltadas à saúde física e emocional nessa etapa da vida. O projeto tem como intuito, entre outros aspectos, prevenir e tratar os sintomas e condições associadas à menopausa, como osteoporose, doenças cardiovasculares e alterações emocionais, além de ampliar o acesso a medicamentos, terapias e exames necessários no SUS.

O texto também prevê a criação de programas de apoio psicossocial e grupos de acolhimento para mulheres na menopausa e promover ações educativas sobre o tema, entre outras iniciativas. No momento, o projeto de lei aguarda parecer do relator da Comissão de Saúde da Câmara.

Sintomas causam impactos na rotina

Apesar de não existirem políticas voltadas especificamente para esta etapa da vida, a médica ginecologista e obstetra Liduina Rocha lembra que o direito das mulheres à saúde deve ser respeitado em todas as fases, de forma igualitária, englobando o climatério. No entanto, ela reforça que o acesso aos medicamentos que aliviam os sintomas desta etapa não são acessíveis para todas.

“Existem mulheres que têm facilidade de acesso ao cuidado e têm mulheres que não têm facilidade de acesso. Garantir esse acesso é um direito humano e um direito reprodutivo, e deve ser uma política pública de cada município, de cada estado”, ressalta.

Por ser um período com sintomas que impactam as atividades do dia a dia, o climatério também pode causar danos à rotina profissional de muitas mulheres. No entanto, a advogada Priscilla Farias Azevedo, membro da Comissão da Mulher Advogada da OAB Ceará, ressalta que as mulheres que passam pelo climatério não podem sofrer “prejuízos profissionais, constrangimentos ou nenhuma outra exclusão de oportunidade em razão de sua condição”.

Apesar de não haver uma legislação específica sobre o climatério, quadros sintomáticos severos podem ser enquadrados nas previsões legais já existentes para outros quadros de saúde. 

“Quando esses sintomas passam a impactar a vida da trabalhadora e existe uma necessidade, por exemplo, de acompanhamento médico, tem que ser avaliado se ela se enquadra dentro dos requisitos para um afastamento previdenciário, por exemplo”, pontua. “O que a gente tem que sempre é buscar é tudo que está alicerce no princípio da dignidade da pessoa humana”.

Segundo a médica Michelle Sena, afastamentos do ambiente de trabalho não costumam ser indicados, mas adaptações podem ser feitas para garantir uma rotina mais saudável. O primeiro passo, ao perceber mudanças emocionais ou físicas severas, é procurar um atendimento médico especializado.

Depois, buscar medidas para reduzir os sintomas. Para evitar as temidas ondas de calor, por exemplo, é importante priorizar locais ventilados, diminuir a ingestão de bebidas e alimentos quentes ou apimentados e buscar reduzir o nível de estresse. A prática de atividade física também pode ajudar a amenizar os sintomas.

Qual a diferença entre menopausa e climatério?

Pacientes podem optar entre terapia hormonal ou não hormonal. Imagem de apoio ilustrativo.
Legenda: Pacientes podem optar entre terapia hormonal ou não hormonal. Imagem de apoio ilustrativo.
Foto: SeventyFour/Shutterstock.

Muitas vezes confundidos, os termos menopausa e climatério estão relacionados, mas significam coisas diferentes. A menopausa refere-se à última menstruação da mulher, que costuma ocorrer por volta dos 50 anos. Para afirmar que a menopausa ocorreu de fato é preciso estar sem menstruar há 12 meses. 

Já o climatério é um ciclo da vida, entre a vida adulta e velhice, que vai dos 40 aos 65 anos e também compreende a menopausa. “Também temos a transição menopausal, que é aquele período onde os ciclos menstruais começam a ficar irregulares antes de parar completamente”, explica Michelle Sena.

Existe ainda o quadro de insuficiência ovariana prematura, antigamente chamado de menopausa precoce, que se refere a mulheres que tiveram a menopausa antes dos 40 anos. Nesses casos, o tratamento é ainda mais importante, pois os riscos da saúde costumam ser maiores do que os riscos de mulheres que tiveram a menopausa na idade correta.

A médica Liduina Rocha destaca a importância de, ao sentir incômodos, buscar atendimento médico. “Os sintomas do climatério começam pelo menos cinco anos antes da última menstruação. É nesse período em que esses sintomas devem ser percebidos e, na maioria das vezes, quando são um desconforto muito grande, tratados”, explica.

A ginecologista destaca que o período “é fisiológico, não é uma doença”, mas pode trazer sintomas que precisam ser tratados de forma personalizada. “O cuidado deve ser individualizado. É a partir de cada mulher, individualizando as condições dela, que o tratamento do climatério pode ser instituído ou não”, completa.

Fortaleza tem ambulatório especializado no climatério

Ambulatório integra os serviços da Meac.
Legenda: Ambulatório integra os serviços da Meac.
Foto: Unidade de Comunicação Social do Complexo Hospitalar da UFC/Ebserh/Divulgação.

Na capital cearense, a Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac) conta com um serviço especializado, o Ambulatório de Climatério, que atua no diagnóstico e na prescrição de tratamentos adequados, sejam eles hormonais ou terapias alternativas. No último ano, o espaço realizou 1.413 atendimentos.

Para acessar o serviço, é preciso ter entre 40 e 65 anos e ser encaminhada por uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou por equipamentos de saúde do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará (UFC). “São pacientes sintomáticas do climatério e que precisam de tratamento ou hormonal ou não hormonal”, explica Michelle Sena, ginecologista que integra a equipe do ambulatório.

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mulheres cearenses têm entre 40 e 64 anos, segundo o Censo 2022 do IBGE, e podem enfrentar sintomas do climatério

O tratamento base consiste na reposição hormonal com terapias bioidênticas, ou seja, que utilizam estrogênio similar ao que existe no corpo humano – um método moderno e seguro para a maioria das pacientes. 

Para quem não deseja ou não pode fazer a reposição hormonal, como pacientes acima dos 60 anos ou com histórico pessoal de câncer de mama e AVC, há também terapias alternativas com medicamentos antidepressivos, ansiolíticos e/ou fitoterápicos.

Irritabilidade e padrões alterados de sono estão entre os sintomas.
Legenda: Irritabilidade e padrões alterados de sono estão entre os sintomas.
Foto: Fizkes/Shutterstock.

As mulheres atendidas no Ambulatório de Climatério da Meac e em outros equipamentos de saúde, no entanto, não possuem acesso a essas medicações de forma gratuita, já que ainda não existe uma política pública que forneça os medicamentos via SUS. Com isso, muitas mulheres não conseguem custear o tratamento e aliviar sintomas como insônia, irritabilidade e ondas de calor, entre outros problemas.

Para a ginecologista Michelle Sena, “ainda é preciso avançar muito” nas políticas voltadas para essa etapa da vida. “Nós não temos [medicação gratuita] disponível em local nenhum, e isso é uma falha muito grande”, destaca.

“Temos uma deficiência muito grande por parte dos postos de saúde, porque os profissionais generalistas são muito desprovidos de conhecimento dessa área, e muitas vezes ou iniciam tratamentos errados ou nem iniciam nada que poderiam fazer”, completa Michelle.

Principais sintomas do climatério

No climatério, a diminuição de alguns hormônios no corpo, como estrogênio, progesterona e androgênio, podem levar aos fogachos, ondas de calor repentinas que independem da temperatura do ambiente e caracterizam um dos sintomas mais conhecidos do climatério.

Segundo a ginecologista Michelle Sena, nesses momentos, a temperatura do corpo tende a aumentar abruptamente e a paciente pode sentir calafrios, tontura, vermelhidão e até palpitações por alguns minutos, voltando ao estado normal em seguida. Além dos fogachos, uma série de outros sintomas são comuns nesse período.

Veja outros sintomas frequentes do climatério:

  • Confusão mental (perda de memória e/ou dificuldade de concentração);
  • Diminuição do desejo sexual;
  • Irritabilidade;
  • Ganho de peso;
  • Padrões de sono alterados (insônia e outras alterações);
  • Ressecamento da pele;
  • Ressecamento vaginal durante as relações;
  • Unhas e cabelos quebradiços.

Debate avança, mas impacto do climatério ainda é minimizado

Ganho de peso pode significar a chegada de sintomas do climatério.
Legenda: Ganho de peso pode significar a chegada de sintomas do climatério.
Foto: Oatawa/Shutterstock.

Após fazer uma histerectomia parcial em 2023, Tainá (nome fictício) começou a perceber mudanças bruscas: retenção de líquido, aumento de peso, ondas de calor, calafrios, falhas de memória e alterações de humor agora faziam parte de sua rotina. Após uma consulta com uma nutricionista, descobriu que estava com alterações hormonais que indicavam a chegada do climatério.

Hoje com 46 anos, ela ainda considera essa transformação desafiadora. Por não poder fazer reposição hormonal, afirma que ainda está se adaptando e que sofre não só com os sintomas, mas também com julgamentos.

“As pessoas falam que sou muito nova para estar na menopausa, que isso é coisa da minha cabeça e tal. Outras dão apoio, incentivam na comida, nos exercícios. Mas é um processo solitário, porque, por mais que as pessoas saibam que irão passar por isso, você só tem noção do quanto é ruim quando passa por ele”, lamenta.

Essa sensação de solidão durante o período é um fator comum a muitas mulheres no climatério, afirma a médica Liduina Rocha. “Por isso é preciso o cuidado multiprofissional”, aponta.

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Por não encontrar profissionais capacitados para lidar com os sintomas do climatério, a fonoaudióloga Aline Porto do Amaral, de 47 anos, precisou passar por cinco ginecologistas até encontrar uma médica que desse atenção às mudanças que o corpo dela estava enfrentando.

“Meu principal desafio foi encontrar um ginecologista que, mesmo com meus exames de sangue hormonais estando normais, ouvisse meus sintomas clínicos, analisasse e me dissesse o que estava se passando comigo”, lembra.

Na época, Aline tinha apenas 45 anos. Calores, névoa mental, esquecimentos, falta de libido e “paciência zero” chegaram juntos e com força total, atrapalhando sua autopercepção e a relação dela com o marido e os filhos. 

Com o tempo, tratamento médico multidisciplinar e busca por informação qualificada ajudaram a resgatar a fonoaudióloga do período difícil. Atualmente, Aline utiliza implantes hormonais e suplementação injetável. 

“Mas, para ser sincera, esse tratamento não é nada acessível em termos financeiros. Ele é muito caro. Graças a Deus pude fazer, porque agora me sinto outra mulher. Os sintomas estão diminuindo cada vez mais”, conta. “Estou voltando a ser eu de novo”.

Quem também precisou enfrentar mais de um consultório para conseguir o diagnóstico correto foi a arquiteta Tatiana Medina, de 48 anos. Durante o ano passado, ela sofreu com calores e ganho de peso, mas acreditou que as ondas de calor eram apenas sintomas de um ano particularmente quente no Ceará

Ao buscar um endocrinologista pelo plano de saúde para tentar emagrecer, recebeu, em poucos minutos, a prescrição de uma caneta emagrecedora. Achou que havia algo a mais e buscou uma segunda opinião com outra médica, dessa vez em atendimento particular, que a diagnosticou com “uma menopausa severa”. “Foi um baque. Passei uma semana para digerir”, lembra. 

Entender o que significava a chegada daquele momento contribuiu para as mudanças de humor. “Foi um ano muito aperreado. Fiquei muito sem paciência, com uma irritabilidade horrorosa. Não me reconheci durante o ano passado”, lembra. 

“É uma coisa que vai muito além do fogacho”, completa. “Às vezes eu estou escrevendo um texto, um projeto, alguma coisa, e as palavras fogem de fato. Se eu não colocar compromisso na agenda, escrever mesmo, eu não me lembro assim com tanta eficiência, como eu me lembrava antes”.

Com a reposição hormonal, conseguiu aliviar as dores de cabeça que sentia e melhorou a autoestima, “que estava lá embaixo”. “Eu já estou mais satisfeita comigo, emagreci um pouco. Estou levantando novamente”, celebra.

Além do apoio médico, Tatiana também conta hoje com o apoio de outras pessoas. Nas rodas de amigos, falar sobre menopausa e climatério deixou de ser tabu, inclusive entre os homens. “Os rapazes, os maridos, os namorados participam, até porque também vivenciam e tentam entender. E é muito importante essa participação”, destaca. 

Para a ginecologista Michelle Sena, o debate sobre o assunto ganhou espaço nos últimos anos, quando estrelas da televisão brasileira como Angélica, Cláudia Raia e Fernanda Lima começaram a compartilhar suas experiências com os sintomas do climatério na mídia.

“Através delas, nós conseguimos que as pacientes começassem a se interessar e diminuir a vergonha de falar sobre o tema, pesquisar mais, procurar assistência, saber que aquilo [mal-estar] não é normal”, destaca. “Elas foram cruciais nessa virada de chave”, completa.

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