'Mar no sertão': entenda por que Açude Orós registrou fortes ondas no CE

Conhecido na comunidade como "maretas", fenômeno foi provocado por forte ventania

Escrito por
Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
Uma margem de rio pedregosa exibe dois barcos de madeira ancorados entre estacas sob um céu dramático carregado de nuvens escuras. As águas esverdeadas formam pequenas ondas com espuma branca que atingem a areia, enquanto galhos secos emergem da água e da margem. O cenário transmite uma atmosfera rústica e melancólica de um dia nublado na natureza.
Legenda: Segundo os habitantes da região, em Iguatu, não houve precipitação na ocasião.
Foto: Reprodução/Karla Saraiva

“São ventanias fortes que fazem a água se agitar e geram essas ondas maravilhosas. Fica lindo demais aqui no Barrocas.” A frase é do pescador Evanilson Saraiva, de 63 anos, e traduz o misto de encanto e respeito que, no último domingo (8), tomou conta de quem vive às margens do Açude Orós, o segundo maior reservatório do Ceará.

Moradores da comunidade ribeirinha do Sítio Barrocas, no distrito de Alencar, em Iguatu - por onde se estende o Açude -, assistiram a um cenário incomum: ondas altas, água agitada e rajadas de vento intensas transformaram a paisagem normalmente serena do reservatório em algo que muitos compararam a um “mar revolto”. Vídeos gravados por moradores circularam rapidamente nas redes sociais, chamando a atenção para a força do fenômeno.

A pescadora Sousenilda Martins, de 46 anos, estava no açude quando a ventania começou, por volta das três da tarde. A casa dela fica a cerca de 40 metros da margem do Açude Orós. Ela contou, em entrevista ao Diário do Nordeste, que nunca tinha visto algo tão forte.

Segundo Sousenilda, não chovia no momento, havia apenas neblina, mas o vento ganhou velocidade rapidamente e, em poucos minutos, as ondas já estavam altas. O medo não era apenas pela água agitada, mas pelo risco de acidentes com embarcações e até com a fiação elétrica nas proximidades.

Uma vista frontal mostra ondas de cor marrom e esverdeada quebrando com espuma branca em uma margem coberta por pedras pequenas e areia. O horizonte exibe águas agitadas sob um céu cinzento e nublado, com silhuetas de montanhas distantes à direita. No canto inferior esquerdo, nota-se apenas a ponta de um barco verde rente à beira.
Legenda: "O sertão vai virar mar", comenta um usuário em vídeo publicado nas redes sociais.
Foto: Reprodução/Karla Saraiva

Ela relata que galhos de árvores caíram e algumas casas tiveram telhas deslocadas. As cordas que prendiam canoas começaram a ceder com a força do vento, e os pescadores evitaram atravessar o açude durante a ventania e aguardaram a situação se acalmar. "O medo foi grande. Num momento como esse, a gente entra para dentro e fica quietinho”, conta.

Já Evanilson Saraiva explica que essas ondas provocadas por ventos fortes, conhecidas na comunidade por “maretas”, fazem parte da vivência de quem mora na região há décadas. Natural de Russas, ele vive no Barrocas desde 1970 e aprendeu a reconhecer os sinais. Quando o vento começa a soprar do sul e a água do açude muda de cor, ficando esverdeada, já se sabe que as ondas estão se formando a quilômetros de distância, vindo em direção às casas.

O pescador descreve que, diferente da maré do mar, as “maretas” são contínuas, sem intervalo entre uma onda e outra. Por isso, ninguém se arrisca a entrar na água. “É impossível colocar embarcação. Quem conhece, evita”, diz.

Por que tem ondas no Açude Orós?

De acordo com o físico Francisco das Chagas Vasconcelos, diretor técnico da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), o fenômeno é explicado pela presença de sistemas como vórtices ciclônicos de altos níveis, comuns neste período de pré-estação chuvosa, favorecendo a formação de rajadas de vento intensas associadas à convecção das nuvens. Essas rajadas, ao atingirem a superfície do açude, provocam o atrito do ar com a água e geram as ondas.

No caso específico do Orós, o formato do reservatório é um fator determinante. Diferentemente de outros açudes mais circulares e profundos, o Orós é alongado e acompanha a direção predominante dos ventos na região. Isso cria uma grande área de “espelho d’água” exposta, facilitando a formação das ondas.

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Outro ponto citado pelo especialista é o volume atual do açude, que está com cerca de 70% da capacidade. Nos últimos anos, o nível estava muito mais baixo, o que reduzia a percepção desse tipo de fenômeno. Com mais água, o efeito visual e físico das ondas se torna mais evidente.

O diretor explica ainda que essas ocorrências não são consideradas anormais, mas podem parecer mais intensas dependendo da combinação entre nível do reservatório, relevo ao redor e sistemas meteorológicos atuantes no momento.

A própria Funceme reforça que avisos meteorológicos emitidos para chuvas intensas já incluem a possibilidade de rajadas de vento, granizo e outros eventos associados.

A recomendação, nesses casos, é evitar navegação em pequenas embarcações e redobrar a atenção em áreas próximas ao reservatório.

Conheça o Açude Orós

O Açude Orós é o segundo maior reservatório do Ceará e carrega uma relação afetiva que atravessa gerações no Interior do Estado. Em abril do ano passado, após 14 anos sem transbordar, a lâmina d’água finalmente ultrapassou o sangradouro, reacendendo uma cena que muitos jovens nunca tinham presenciado e que os mais velhos aguardavam com ansiedade. A expectativa mobilizou moradores, visitantes e até escolas da região, numa contagem regressiva coletiva para ver o “gigante sangrar” novamente.

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Inaugurado em 1961, o Orós foi pensado como resposta histórica às secas que marcaram o Ceará desde o século XIX, com a missão de perenizar o rio Jaguaribe e garantir meios de convivência com o semiárido. Com capacidade para quase 2 bilhões de metros cúbicos de água, o reservatório atende diretamente cerca de 70 mil pessoas, sustenta atividades como pesca, agricultura e pecuária, além de impulsionar o turismo e a cultura local.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo.

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