Ex-aluno do Liceu do Ceará integra comitiva de estudantes em imersão inédita na China
Estudante de Administração Pública na FGV, Gabriel Rocha é o único cearense da turma e participará de intercâmbio acadêmico.
Entre salas quentes, cadeiras quebradas e questionamentos sobre desigualdade na educação pública, foi na época do colégio que nasceu o interesse de Gabriel Rocha pelo setor público. Agora, anos depois, o ex-aluno do Liceu do Ceará, em Fortaleza, embarca para uma experiência inédita: uma imersão acadêmica na China.
A atividade é parte da graduação em Administração Pública na Fundação Getulio Vargas (FGV), que Gabriel cursa em São Paulo. Aos 21 anos, o jovem está no quinto semestre do curso e é o único cearense da turma. Bolsista, ele se mudou para a capital paulista em 2024 e, desde então, convive com contrastes que marcaram sua trajetória.
“Desde o começo da graduação, eu sempre tive esse deslocamento. A FGV é uma instituição de elite acadêmica e financeira. Então é muito difícil ver alunos nordestinos, ainda mais bolsistas. Eu não conhecia nenhum cearense aqui."
A viagem para a China faz parte da grade curricular e integra a chamada “imersão Sul-Sul”, uma experiência internacional voltada à formação dos estudantes. Esta edição, no entanto, é inédita: “É a última viagem do curso e, geralmente, acontece em países da América Latina. Mas, dessa vez, a gente vai para a China, algo que a coordenação tenta há anos. É a primeira vez que conseguimos ir para um país com esse papel no Sul Global”, explica.
Durante duas semanas, entre os dias 2 e 17 de maio, os alunos terão aulas, atividades culturais e contato direto com aspectos da organização política e social chinesa, incluindo o funcionamento do Partido Comunista.
“A ideia é entender como um país com um modelo tão diferente consegue alcançar resultados importantes em áreas como tecnologia, planejamento e educação, e pensar o que pode ser adaptado à realidade brasileira”, afirma.
Raízes no ensino público
Foi no Liceu do Ceará, uma das escolas públicas mais tradicionais do Estado, que Gabriel começou a desenvolver o olhar crítico que hoje direciona sua formação.
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"Mesmo sem estrutura adequada, com salas muito quentes e dificuldades básicas, foi ali que eu comecei a questionar por que alguns têm mais oportunidades que outros. Foi isso que me levou a pensar em transformação por meio da política", relembra.
A professora de Língua Portuguesa e Redação, Clea Gadelha, acompanhou o estudante ao longo dos três anos do ensino médio e destaca o perfil do ex-aluno: “Ele era muito estudioso, tímido no início, mas com muito protagonismo. Sempre sonhou alto. É um líder natural, muito inteligente e com um senso de justiça muito forte”.
Com mais de três décadas de atuação no Liceu, a docente também ressalta o potencial transformador de histórias como a de Gabriel. “Ele é um menino humilde, de escola pública, que poderia ter desistido como muitos, mas quis ir além. Essa garra faz toda a diferença”, diz.
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Educação como 'virada de chave'
Filho de um técnico de refrigeração e de uma artesã, Gabriel é o primeiro da família a acessar o ensino superior. Os pais vieram do interior do Ceará e não concluíram a educação básica.
Minha vida mudou a partir de oportunidades educacionais. Eu não cheguei aqui sozinho, é fruto de uma rede de professores e de apoio ao longo da minha trajetória. Quando eu chego aqui em São Paulo, eu tenho acesso a coisas que eu não tive no ensino médio: estrutura, tecnologia, experiências. Mas também percebo que a minha vivência no Nordeste é muito valiosa. Ela traz uma perspectiva que nem todo mundo tem.
Antes de ingressar na FGV, ele participou de programas de formação e chegou a trabalhar em uma ONG em Fortaleza, voltada ao impacto social. Em 2025, foi selecionado para um programa de liderança que o levou a uma imersão internacional nos Estados Unidos, com aulas em universidades como Harvard e MIT. Agora, a experiência na China amplia ainda mais o repertório acadêmico e profissional do estudante.
Planos de retorno
Apesar das conquistas fora do Ceará, Gabriel mantém o vínculo com a terra natal e já projeta os próximos passos.
“Eu pretendo ter outras experiências, mas quero voltar para Fortaleza e trabalhar com desenvolvimento local, seja na Capital ou no Estado. A gente precisa de gestores públicos que conheçam a realidade e tenham capacitação para transformá-la”, vislumbra.
Para a professora Clea, o futuro do ex-aluno ainda reserva voos mais altos. “O Gabriel nunca se contenta. Ele está sempre querendo ir além. Agora é acompanhar quais serão os próximos passos, porque ele ainda vai muito longe”, diz.
*Estagiária sob supervisão das jornalistas Dahiana Araújo e Mariana Lazari.