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Bezerra de Menezes, Rodolfo Teófilo, Frei Tito de Alencar, Belchior, Eleazar de Carvalho e Maria Luíza Fontenele são algumas das figuras ilustres que passaram pelas salas de aula e foram formadas pelo Colégio Liceu do Ceará. Situada no tradicional bairro Jacarecanga, em Fortaleza, a escola é a mais antiga do Estado.

O Liceu chegou aos 178 anos em outubro de 2023 e há 86 anos está no atual endereço. Nos seis últimos, a emblemática instituição ganhou um novo capítulo: tornou-se de tempo integral e busca recuperar os bons resultados que, em tempos passados, a consagraram no cotidiano e na memória coletiva. 

Pela escadaria da entrada passam por dia cerca de 425 alunos na Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Liceu do Ceará, que integra a rede publica estadual. Estudantes do Ensino Médio entram às 7h e ficam até 17h50. 

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A identidade do tempo integral, novidade implementada em 2017, relata o diretor, Edson Braga, “busca consolidação no Liceu de tantas histórias”. Indicadores como qualidade do aprendizado e taxa de abandono têm melhorado na unidade que, além dos espaços convencionais de sala de aula, tem, dentre outros, laboratórios de matemática, química, física, redação, refeitório e ginásio poliesportivo. 

Esta matéria faz parte da segunda edição da série de reportagens especiais, "Terra de Sabidos - escola de todos os tempos", que conta a história de estudantes, professores e gestores de unidades estaduais do tempo integral, discutindo o impacto desse modelo de ensino na vida dos alunos e de toda a comunidade escolar, assim como de cidades inteiras.

Na adoção do tempo integral, a escola saiu do contexto de mais de 1.500 matrículas e funcionamento nos três turnos, para a realidade com um terço desses alunos, com disciplinas regulares aliadas às eletivas e aos projetos de vida dos estudantes.

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Legenda: Escola mais antiga do Ceará tem 178 anos
Foto: Thiago Gadelha

Edson está na direção da escola desde 2018, e conta que quando chegou ao local, a demanda era por “resgatar o Liceu, sua história, sua fama, seu legado”. De acordo com ele, nas últimas décadas, “a educação se pulverizou muito” e, dentre outros fatores, em paralelo ao surgimento de inúmeras escolas, “o Liceu perdeu esse protagonismo". À época, relembra, a instituição amargava uma dura realidade, com indicadores negativos, problemas internos e jovens estudantes enfrentando adversidades.  

“Em 2018, quando cheguei, a escola estava iniciando seu processo de tempo integral. O aluno cearense não estava habituado a passar o dia na escola. Esse é um grande desafio. Esse passar o dia. A proposta tem que ser muito bem elaborada para que esse aluno sinta a escola atrativa”, destaca.

Na unidade, os alunos têm 9 aulas por dia e uma hora para o almoço e descanso. São ofertadas três alimentações. 

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Legenda: Áreas internas do Liceu do Ceará
Foto: Thiago Gadelha

Escola de muitos tempos

A unidade cuja aula inaugural ocorreu em 19 de outubro de 1845, tendo como diretor o intelectual e político Dr. Thomas Pompeu de Souza Brasil, o Senador Pompeu, 178 anos depois segue cheia de boas referências, mas também de necessidades de reconstrução de indicadores. 

O diretor reforça que “sempre vão ter histórias diferentes em relação ao Liceu do Ceará”. O atual, acrescenta, “é o Liceu do tempo integral, que viveu a pandemia. É o Liceu que tinha péssimos resultados e estava basicamente esquecido e, de repente, a gente vem com um grande propósito de transformar e resgatar essa história”.  

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Legenda: 1. Professora Quelane Queiroz 2. Diretor Edson Braga
Foto: Thiago Gadelha

Um dos diferenciais, aponta ele, é que “antes era uma escola muito voltada para a formação do aluno e a sua formação básica, praticamente, já colocava esse aluno dentro da universidade. Hoje em dia, o tempo integral tem uma função social de organizar a formação desse aluno de uma forma muito mais ampla”.

Esportes, formação financeira e para a cidadania, espaços culturais, feiras e pesquisas de campo são exemplos mencionados por Edson como representativos da nova dinâmica. 

Eu falo para os pais assim: aqui já passaram grandes nomes. Hoje os protagonistas do Liceu do Ceará são os filhos de vocês. E quero que os filhos de vocês saiam daqui e façam a diferença lá fora. Já tivemos governadores, grandes empresários, engenheiros, advogados, hoje são os filhos de vocês que vão fazer essa diferença lá fora. Estejam ao lado dos filhos de vocês. 

A professora de Português Quelane Queiroz tem testemunhado as transformações. Ela trabalha na unidade há 18 anos.

“Tínhamos uma escola que era de três turnos e tínhamos muitos alunos por ser uma escola mais tradicional. Cerca de 1.500 alunos. E a mudança vem muito no viés quantitativo também. Se no regular, tínhamos alunos diferentes, no integral é o mesmo quantitativo de alunos e são nove aulas, mas eles ficam 10 horas aula porque tem o horário do almoço”, relata. 

Ter a jornada ampliada reflete também, segundo ela, em um maior envolvimento e conhecimento dos alunos. “A gente sabe exatamente o nome do aluno, a família. É um universo bem mais interessante em termos de família do que a escola regular”. 

Dentre os obstáculos, ela aponta a elevação dos níveis de aprendizagem. “Estamos na tentativa, mas ainda não conseguimos avançar tanto”. 

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Ela acrescenta que: “os alunos são muito participativos na escola, a gente consegue grande êxito não só nas atividades acadêmicas, mas também nos esportes, nas culturais. Temos conseguido muita participação dos alunos nisso. E o que é negativo, eles ainda se desafiam pouco a estudar. Mas nas feiras, nos trabalhos, eles se dedicam muito. Fazem coisas incríveis”. 

Melhoria dos indicadores

Conforme o diretor, Edson Braga, na atual realidade a escola tem “alguns indicadores que são muito sensíveis e apontam efetivamente o que está acontecendo, como os índices de aprovação, abandono e frequência”. 

Dados do Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) indicam que entre 2010 e 2020, o Liceu do Ceará registrou altos índices de abandono, com o pico de 268 saídas em 2013. Em 2017, recuou para 60. Já em 2021 e 2022 o índice permaneceu zero. 

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Legenda: 1. Sala de aula 2. Desfile no 7 de setembro 3. Alunos em sala
Foto: Thiago Gadelha

Percebemos que havia uma necessidade de focar para reduzir o abandono. Ele era uma questão forte. Então, é um trabalho de convencimento, de tornar a escola atrativa, de fazer com que o aluno inicie e permaneça. Esse trabalho de ver também as ações pedagógicas para diminuir as reprovações tinham índices significativos. 

O Censo indica ainda que entre 2010 e 2019, as reprovações na unidade também alarmavam. Com o extremo em 2010, com 378 reprovações.

Em 2017, esse índice teve uma queda em relação aos anos anteriores, visto que sempre foram mais de 100 reprovações por ano. No primeiro ano do tempo integral, foram 71 reprovações. Em 2018, caiu para 45, em 2019, para 31. 

Em 2020, 2021 e 2022, anos da pandemia, não foram registradas reprovações na escola. “Tem que ser feito um trabalho de recondução das aprendizagens, principalmente, no pós-pandemia. São muitas ações para fazer com que o aluno trabalhe essa aprendizagem de forma significativa”, reforça o diretor. 

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No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) - indicador que mede a qualidade educacional no país - o Liceu do Ceará, embora não tenha uma nota tão alta, tem conseguido subir o índice a cada 2 anos, e superar a meta estabelecida para a escola. Em 2019, o Ideb projetado era de 3,6 e o alcançado foi 4,4. Em 2021, a projeção era 3,8 e o atingido foi 4,5. 

Formação integral

No interior da escola as histórias de vida são diversas. Mikael Costa, adolescente de 17 anos, aluno do 3º ano e morador da Barra do Ceará teve no Liceu a primeira experiência com a rede pública e também com o tempo integral. 

“Sempre estudei em escola regular e estudava em uma escola particular. Tive outras opções, mas optei pelo Liceu porque muita gente da minha família já tinha estudado aqui, então sempre falavam que era uma escola que teve uma visibilidade muito importante para o Ceará e eu optei por estudar nela”. 

Quando as aulas de Mikael na escola tiveram início, a pandemia de Covid já causava inúmeros impactos também na educação. Para ele, a adaptação não foi fácil, mas aconteceu em meses. Fazer amizades na escola e usufruir das diversas atividades, avalia, faz o tempo integral “ficar menos cansativo”. 

Ele é presidente do Grêmio estudantil e destaca que os estudantes se envolvem bastante em buscas de melhoria para a escola, a exemplo da climatização das salas. Sobre a diversidade no ambiente escolar, ele pondera que os diferentes perfis de estudantes são visíveis, mas que as chances acompanham essa dinâmica.  

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Legenda: Estudantes Emylee Silva Freitas e Mikael Costa
Foto: Thiago Gadelha

Aqui tem realmente essa diferença. Tem gente que tem uma questão financeira melhor do que outras. Mas, de certa forma, nenhuma pessoa é prejudicada por ter mais ou menos dinheiro. O colégio sempre tenta igualar. Eu que passei minha vida inteira estudando em escola particular e vim para a escola pública, posso garantir que os alunos que focam em passar no vestibular, e ter uma vida acadêmica de sucesso, dentro do colégio a oportunidade é para todos. 

Entre os alunos, a possibilidade de contato com uma ampla gama de assuntos relacionados com as disciplinas da área flexível, é ponto de destaque. 

Para Emylee Silva Freitas, de 18 anos e aluna do 3º ano, esse é um aspecto diferenciado. “No ano passado, eu fiz eletivas que me ensinaram conteúdos a mais, como microbiologia e meio ambiente urbano. Aprendi inclusive a manusear o microscópio, por exemplo. Esse ano, as eletivas são mais voltadas para o Enem. Mas sempre acrescenta muito. Fora as aulas de campo e os seminários”, afirma.  

A estudante reitera pontos já mencionados por professores e gestores, e diz que há um envolvimento muito intenso dos alunos com as atividades extra-sala de aula, como eventos científicos e culturais. Junto aos esportes, destaca ela, são hoje as marcas positivas incontestáveis na escola que busca a reafirmação dos legados históricos.