Como profissionais do SVO no Ceará lidam com a morte no dia a dia
Dezenas de trabalhadores atuam para confortar famílias e explicar causas dos óbitos.
Às vezes, o primeiro contato da família com o Serviço de Verificação de Óbito Dr. Rocha Furtado (SVO), em Fortaleza, é feito por uma dupla de profissionais. Jair Cleudon, motorista do serviço há oito meses, é quem vai até as residências com um parceiro para recolher corpos de pessoas que morreram sem causa definida. O trabalho exige força física, mas também solidariedade.
“Buscamos conversar com a família e com o responsável que está ali para termos essa sensibilidade, podermos fazer primeiro um exame, e depois passar todos os trâmites que o SVO disponibiliza”, explica Jair.
Ele sabe que cada chegada deles simboliza uma despedida. Por isso, antes do transporte, orienta, acolhe e tenta oferecer segurança em meio ao luto. “A gente busca tratar da melhor forma para que a gente possa, vamos dizer assim, abraçar a família. É o mínimo ali pra gente poder confortar, oferecer esse serviço e trazer uma segurança para ela”.
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A convivência com a morte, diz, nunca é simples, mas o tempo ensina a lidar com o peso dela. “Hoje nós já estamos mais acostumados”, confessa. “A princípio, era uma sensação… eu não vou dizer que seria agradável, né? Porque a morte não é agradável a ninguém aqui nesse plano”.
Ainda assim, o cuidado com o outro continua sendo o que o move. “É ter simpatia, é ter empatia de lidar com aquela situação. Porque, quer queira, quer não, nós também temos família, temos amigos, temos parentes”.
Se Jair acolhe com gestos e palavras, a assistente social Carmen Silva Soares, há 18 anos no SVO, faz isso com escuta e orientação. É ela quem recebe as famílias após a chegada dos corpos. Orienta sobre documentação, auxílio para sepultamento e, quando possível, doação de órgãos, especialmente as córneas.
Em 2024, o SVO firmou uma parceria com o Banco de Olhos do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), único público no Estado. Todos os óbitos encaminhados para o Serviço, a partir de hospitais ou residências, passaram a contar com uma equipe do Banco para captação do tecido, após entrevista e aprovação da família. Em agosto deste ano, foram feitas as primeiras captações.
“Se tiver dentro do perfil, a gente aborda a família, pergunta se ela deseja”, explica Carmen. “Eu digo: ‘você pode ajudar até duas pessoas, porque tem gente na fila de espera’”.
Parar o pranto
Em um ambiente em que a dor é constante, Carmen aprendeu a encontrar equilíbrio entre empatia e força. “A gente muda, a gente fica mais forte pra atender a família. Porque se a gente ficar muito sentimental…”, reflete ela, que diz chorar assistindo novelas.
Há casos, porém, que ainda a comovem. “Tem gente que nem sabe que existe assistência. Diz logo: ‘Onde é que eu vou sepultar o meu parente? No meu quintal?’ Aí eu explico: não precisa ser no seu quintal, nem pode. A Prefeitura concede um auxílio. Muitos querem deixar o corpo aqui porque não têm onde velar”.
O auxílio-funeral municipal fornece o serviço de sepultamento de pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, que inclui traslado do corpo, urna funerária e ornamentação, dentre outros serviços funerários.
O benefício eventual é concedido em hospitais, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e no próprio SVO. Nos hospitais e UPAs, o familiar pode procurar o setor de serviço social, que realiza o contato com a funerária credenciada que realiza o serviço.
Para ter acesso, é preciso apresentar documentos como identidade e comprovante de endereço da pessoa que faleceu, identidade do solicitante, declaração ou atestado de óbito e encaminhamento do auxílio-funeral.
profissionais atuam no SVO de Fortaleza, entre diversas equipes e especialidades.
Entender os diversos fins
O trabalho no SVO vai além da dor: também é ciência e aprendizado. José Rubens Costa Lima, doutor em Biotecnologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e epidemiologista do Núcleo de Estudos e Pesquisas (Nuep/SVO), vê nas mortes uma oportunidade de compreender melhor a vida.
“De fato, o interesse é a gente tentar reconhecer como foi a vida e tentar entender o processo da morte”, explica. “Fazer as associações para tentar fazer a melhor descrição possível e historiar isso: quando começou, quando evoluiu, como foi esta morte – quão confortável, quão precoce, quão inconveniente”.
Ele lembra que, ao longo da história, foi o estudo das causas da morte que transformou a medicina empírica em ciência formal. “A medicina se transforma muito quando surge a patologia. O estudo da morte com profundidade foi o que transformou a medicina em ciência verdadeira”, afirma.
“A gente vê por dentro, né? Depois de tudo que aconteceu, a gente vai poder correlacionar. Então, isso dá um entendimento muito maior da vida”, entende.
Aprender com a morte
Apesar da rotina entre as mesas frias de necrópsia e os relatórios técnicos, o médico patologista Sami Gadelha, diretor técnico do SVO, também encontra espaço para ter nós na garganta. Embora analise diversos corpos no dia a dia, ainda há casos que o tocam de maneira particular.
“Pela minha história de vida, fico particularmente sensível quando lido com pessoas que têm algum tipo de neurodivergência ou transtorno cognitivo, porque eu sou autista e tenho um filho autista”, compartilha. “Essas autópsias sempre me deixam um pouco mexido porque você sempre pensa que poderia ter sido você ou seu filho”.
Um caso, em especial, o marcou: o de um jovem autista não verbal que morreu por apendicite. “Ele não conseguia explicar pro pai dele o que estava sentindo. Quando muito, ele falava ‘barriga dodói’, mas o pai não conseguia entender. São pessoas que faleceram simplesmente porque não conseguiram comunicar direito o que estavam sentindo”, relata.
As estatísticas do trabalho também o fizeram refletir e mudar perspectivas sobre a própria vida. “Como eu tenho 39 anos, tô vendo gente mais nova que eu morrendo de infarto, aí voltei pra academia”, confessa, com bom humor.
Entre a observação científica e o acolhimento humano, os profissionais do SVO lidam diariamente com a finitude e, ao mesmo tempo, com o desejo da continuidade. Mas o que importa mesmo para eles, segundo o motorista Jair Cleudon, é tratar o outro
“Como se fosse comigo, né? Como se fosse um parente meu".