Como profissionais do SVO no Ceará lidam com a morte no dia a dia

Dezenas de trabalhadores atuam para confortar famílias e explicar causas dos óbitos.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
Um médico, identificado como Sami Gadelha, trajando scrubs verdes e máscara, está em um ambiente hospitalar que parece ser uma sala de autópsia ou necrotério, com mesas de aço inoxidável em primeiro plano. Ele tem tatuagens nos antebraços e usa óculos.
Legenda: Apesar de anos de experiência com necrópsias desde a faculdade, médico Sami Gadelha afirma ainda se emocionar com alguns casos.
Foto: Thiago Gadelha.

Às vezes, o primeiro contato da família com o Serviço de Verificação de Óbito Dr. Rocha Furtado (SVO), em Fortaleza, é feito por uma dupla de profissionais. Jair Cleudon, motorista do serviço há oito meses, é quem vai até as residências com um parceiro para recolher corpos de pessoas que morreram sem causa definida. O trabalho exige força física, mas também solidariedade.

“Buscamos conversar com a família e com o responsável que está ali para termos essa sensibilidade, podermos fazer primeiro um exame, e depois passar todos os trâmites que o SVO disponibiliza”, explica Jair. 

Ele sabe que cada chegada deles simboliza uma despedida. Por isso, antes do transporte, orienta, acolhe e tenta oferecer segurança em meio ao luto. “A gente busca tratar da melhor forma para que a gente possa, vamos dizer assim, abraçar a família. É o mínimo ali pra gente poder confortar, oferecer esse serviço e trazer uma segurança para ela”.

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A convivência com a morte, diz, nunca é simples, mas o tempo ensina a lidar com o peso dela. “Hoje nós já estamos mais acostumados”, confessa. “A princípio, era uma sensação… eu não vou dizer que seria agradável, né? Porque a morte não é agradável a ninguém aqui nesse plano”. 

Ainda assim, o cuidado com o outro continua sendo o que o move. “É ter simpatia, é ter empatia de lidar com aquela situação. Porque, quer queira, quer não, nós também temos família, temos amigos, temos parentes”.

Um homem de scrubs verdes, identificado como Jair Cleudon, está ao ar livre, abrindo a porta traseira de um veículo do Serviço de Verificação de Óbito (SVO). A porta tem o logo do Governo Federal/Ministério da Saúde e a identificação do serviço.
Legenda: Jair é o primeiro contato das pessoas com o Serviço de Verificação de Óbito, ainda nas residências.
Foto: Thiago Gadelha.

Se Jair acolhe com gestos e palavras, a assistente social Carmen Silva Soares, há 18 anos no SVO, faz isso com escuta e orientação. É ela quem recebe as famílias após a chegada dos corpos. Orienta sobre documentação, auxílio para sepultamento e, quando possível, doação de órgãos, especialmente as córneas.

Em 2024, o SVO firmou uma parceria com o Banco de Olhos do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), único público no Estado. Todos os óbitos encaminhados para o Serviço, a partir de hospitais ou residências, passaram a contar com uma equipe do Banco para captação do tecido, após entrevista e aprovação da família. Em agosto deste ano, foram feitas as primeiras captações.

“Se tiver dentro do perfil, a gente aborda a família, pergunta se ela deseja”, explica Carmen. “Eu digo: ‘você pode ajudar até duas pessoas, porque tem gente na fila de espera’”.

Parar o pranto

Em um ambiente em que a dor é constante, Carmen aprendeu a encontrar equilíbrio entre empatia e força. “A gente muda, a gente fica mais forte pra atender a família. Porque se a gente ficar muito sentimental…”, reflete ela, que diz chorar assistindo novelas. 

Há casos, porém, que ainda a comovem. “Tem gente que nem sabe que existe assistência. Diz logo: ‘Onde é que eu vou sepultar o meu parente? No meu quintal?’ Aí eu explico: não precisa ser no seu quintal, nem pode. A Prefeitura concede um auxílio. Muitos querem deixar o corpo aqui porque não têm onde velar”.

A assistente social Carmen Silva, uma mulher de meia-idade vestida com roupa verde, está sentada atrás de uma mesa, interagindo com uma pessoa que está fora do enquadramento. Ela gesticula com uma caneta e há uma placa de Feliz Dia do Assistente Social ao fundo.
Legenda: Carmen Silva diz que se tornou mais forte emocionalmente para atender ao público do SVO.
Foto: Thiago Gadelha.

O auxílio-funeral municipal fornece o serviço de sepultamento de pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, que inclui traslado do corpo, urna funerária e ornamentação, dentre outros serviços funerários. 

O benefício eventual é concedido em hospitais, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e no próprio SVO. Nos hospitais e UPAs, o familiar pode procurar o setor de serviço social, que realiza o contato com a funerária credenciada que realiza o serviço. 

Para ter acesso, é preciso apresentar documentos como identidade e comprovante de endereço da pessoa que faleceu, identidade do solicitante, declaração ou atestado de óbito e encaminhamento do auxílio-funeral.

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profissionais atuam no SVO de Fortaleza, entre diversas equipes e especialidades.

Entender os diversos fins

O trabalho no SVO vai além da dor: também é ciência e aprendizado. José Rubens Costa Lima, doutor em Biotecnologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e epidemiologista do Núcleo de Estudos e Pesquisas (Nuep/SVO), vê nas mortes uma oportunidade de compreender melhor a vida.

“De fato, o interesse é a gente tentar reconhecer como foi a vida e tentar entender o processo da morte”, explica. “Fazer as associações para tentar fazer a melhor descrição possível e historiar isso: quando começou, quando evoluiu, como foi esta morte – quão confortável, quão precoce, quão inconveniente”.

Ele lembra que, ao longo da história, foi o estudo das causas da morte que transformou a medicina empírica em ciência formal. “A medicina se transforma muito quando surge a patologia. O estudo da morte com profundidade foi o que transformou a medicina em ciência verdadeira”, afirma. 

“A gente vê por dentro, né? Depois de tudo que aconteceu, a gente vai poder correlacionar. Então, isso dá um entendimento muito maior da vida”, entende.

Pessoas trabalhando em um escritório, aparentemente administrativo de uma unidade de saúde (SVO). O médico José Rubens, um homem mais velho de camisa polo escura e óculos, sorri enquanto está sentado a uma mesa, olhando para a câmera. Outras pessoas estão focadas em seus monitores de computador.
Legenda: O interessante da morte é entender como foi a saúde em vida do paciente, afirma o médico José Rubens.
Foto: Thiago Gadelha.

Aprender com a morte

Apesar da rotina entre as mesas frias de necrópsia e os relatórios técnicos, o médico patologista Sami Gadelha, diretor técnico do SVO, também encontra espaço para ter nós na garganta. Embora analise diversos corpos no dia a dia, ainda há casos que o tocam de maneira particular.

“Pela minha história de vida, fico particularmente sensível quando lido com pessoas que têm algum tipo de neurodivergência ou transtorno cognitivo, porque eu sou autista e tenho um filho autista”, compartilha. “Essas autópsias sempre me deixam um pouco mexido porque você sempre pensa que poderia ter sido você ou seu filho”.

Um caso, em especial, o marcou: o de um jovem autista não verbal que morreu por apendicite. “Ele não conseguia explicar pro pai dele o que estava sentindo. Quando muito, ele falava ‘barriga dodói’, mas o pai não conseguia entender. São pessoas que faleceram simplesmente porque não conseguiram comunicar direito o que estavam sentindo”, relata.

Uma sala de óbitos hospitalar com paredes verde-claras, onde se veem dois corpos cobertos por lençóis brancos em macas de transporte. Uma funcionária de scrubs verdes, parcialmente fora de foco, caminha no primeiro plano, à direita.
Legenda: Conviver com os mortos diariamente ajuda profissionais a dar outros sentidos para a vida.
Foto: Thiago Gadelha.

As estatísticas do trabalho também o fizeram refletir e mudar perspectivas sobre a própria vida. “Como eu tenho 39 anos, tô vendo gente mais nova que eu morrendo de infarto, aí voltei pra academia”, confessa, com bom humor.

Entre a observação científica e o acolhimento humano, os profissionais do SVO lidam diariamente com a finitude e, ao mesmo tempo, com o desejo da continuidade. Mas o que importa mesmo para eles, segundo o motorista Jair Cleudon, é tratar o outro

“Como se fosse comigo, né? Como se fosse um parente meu".

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