Cearense filho de costureira é aprovado em duas universidades nos EUA

Vinícius Félix conseguiu bolsa integral equivalente a 400 mil dólares e vai estudar em Stanford.

Escrito por
Geovana Almeida* geovana.almeida@svm.com.br
(Atualizado às 14:57)
Cearense filho de costureira é aprovado em duas universidades nos EUA
Legenda: Vinícius também foi aprovado em duas universidades federais brasileiras.
Foto: Arquivo Pessoal.

Ex-aluno de escola pública e filho de costureira, Vinícius Félix, de 19 anos "sonhou o impossível" e deve, em breve, viver um grande sonho. Natural de Paraipaba, no interior do Ceará, ele conquistou bolsas de estudos em duas universidades americanas, Stanford e Williams College, e partirá para os Estados Unidos para estudar pelos próximos quatro anos.

"Sonhar realmente é um alívio muito grande para a alma", resume a sensação pós-aprovação.

Vinícius recebeu a notícia da aprovação nas duas universidades em março. Após alguns dias pensando, decidiu estudar em Stanford, a terceira melhor universidade do mundo.

O momento da aprovação foi capturado em um vídeo que viralizou na internet. Na cena emocionante, uma tia e duas primas de Vinícius celebram o momento junto ao jovem. 

Uma rotina com 8 horas diárias de estudo 

Aluno de escolas públicas durante toda a vida, Vinícius cursou o ensino médio na EEEP Flávio Gomes Granjeiro - escola pública profissionalizante de Paraipaba, a cerca de 100 km de Fortaleza. 

Em 2024, concluiu o 3º ano com um diploma de Técnico de Informática. Na sequência, obteve uma aprovação na Universidade Federal do Ceará (UFC), no curso de Engenharia de Software, e outra na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), em Ciência da Computação.

Após uma conversa marcante com a mãe, percebeu que, apesar das aprovações no País, um sonho ainda maior poderia ser alcançado: estudar Tecnologia fora do Brasil. 

Cearense filho de costureira é aprovado em duas universidades nos EUA
Legenda: Vinícius estudou em escolas públicas do Ceará.
Foto: Arquivo Pessoal.

Para isso, decidiu abdicar das vaga nas universidades no Brasil e passar um ano se dedicando aos vestibulares americanos. "Essa foi a decisão mais difícil que eu fiz na minha vida até agora", conta, em entrevista ao Diário do Nordeste.

Durante o ano de 2025, o jovem conta que "correu contra o tempo". Estudava cerca de oito horas diárias para a prova do SAT, o principal exame de admissão para universidades nos EUA  conhecido como "Enem americano" — enquanto aprendia inglês "do zero". "Além disso, eu me dedicava também a projetos sociais e programas internacionais para manter o meu perfil rodando entre pessoas da área", relembra.

O estudante ainda fazia aulas com uma mentoria online voltada para aqueles que desejam se inscrever nos processo seletivos americanos.

O primeiro da família a alcançar uma vaga no ensino superior

Ser chamado de "filho de costureira" é sinônimo de orgulho para Vinícius. Apesar dos recursos limitados, a mãe nunca deixou que faltasse nada em casa, enquanto o filho se dedicava 100% aos estudos. "Eu usava isso como um objetivo para quebrar o que eu via como um ciclo de deficiência na questão educacional na minha família", conta o jovem. 

O pai de Vinícius não chegou ao ensino médio. Para a matriarca da família, a possibilidade de alcançar o ensino superior desapareceu quando ela parou de estudar, aos 14 anos. Depois de muito tempo, conseguiu concluir o supletivo.

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Mas Vinícius diz que a maior pressão pelo sucesso nos estudos vinha dele próprio: "Era como se eu sentisse uma 'síndrome do impostor' de realmente não me achar suficiente para passar em uma universidade americana".

Vinícius é criador de ONG 

Apesar da insegurança, alcançar feitos internacionais já fazia parte da rotina do adolescente. Em 2020, quando tinha 13 anos, Vinícius criou o Instituto Terra Alien, uma ONG que atua ampliando o acesso à ciência e a oportunidades educacionais para outros estudantes.

Inicialmente, a instituição produzia conteúdos para a educação infantil, como vídeos no Youtube e posts no Instagram. "Depois a gente foi crescendo e expandindo para trabalhar com todas as idades, até pessoas adultas", conta o criador do programa. 

Os monitores do Terra Alien são voluntários e produzem aulas, mentorias e até alimentam um site com questões de vestibular, o "Space Questions". A plataforma é um dos principais braços da ONG e tem um banco com mais de 30 mil questões, além de um programador de agenda de estudos e um portal com notícias educacionais — tudo completamente gratuito e idealizado por Vinícius. 

Em 2025, o Terra Alien lançou a primeira edição da "Olimporama" — uma olimpíada própria que abrange conhecimentos nas áreas de Linguagens, Ciências Humanas, Ciências da Natureza e Matemática.

Com inscrição gratuita, a "Olimporama" tem provas divididas entre cinco níveis de conhecimento, com modalidades para crianças e adolescentes. "Para este ano, a gente tem ainda mais projetos voltados para línguas, tecnologia, para vestibular e outras olimpíadas", adianta Vinícius. 

A gente já impactou mais de 20 mil vidas em 10 países, tanto aqui na América Latina quanto em países que falam português na África, por exemplo.
Vinícius Félix
Estudante sobre o Instituto Terra Alien

Mesmo com o acúmulo de obrigações, Vinícius seguiu apoiando o projeto durante o ano de estudos para as provas americanas. Mas precisou duplicar o número de voluntários para suprir as necessidades dos alunos. "Assim podemos continuar esse trabalho, atrair mais voluntários jovens que queiram atuar em causas sociais e continuar prosseguindo a nossa missão", finaliza.

O que Vinícius vai estudar nos EUA?

Conhecido como "application", o processo para inscrição em uma universidade estadunidense é dividido em várias etapas. Cada faculdade tem suas obrigatoriedades, mas para Vinícius foi necessário o envio de: 

  • Histórico escolar dos quatro últimos anos
  • Portfólio com atividades extracurriculares
  • Documentos com recomendações de professores e diretores
  • Redações suplementares explicando porque deseja estudar na instituição
  • Teste de proficiência em inglês
  • Prova de SAT, conhecido como o 'enem americano', para avaliar leitura, escrita e matemática
  • Cinco premiações durante o tempo escolar

Cearense filho de costureira é aprovado em duas universidades nos EUA
Legenda: Vinícius durante a Mostra Brasileira de Foguetes (MOBFOG) - 2024.
Foto: Arquivo Pessoal.

O jovem foi aprovado em Ciências da Computação, na Williams College, em Massachusetts e Symbolic Systems, em Stanford, na Califórnia. E Vinícius escolheu ir para Stanford estudar "Symbolic Systems", ou "Sistemas Simbólicos". O curso é um programa de graduação exclusivo daquela universidade. "É um curso que abrange ciência da computação, psicologia, filosofia, estatística e matemática em um só", resume Vinícíus. 

Além do curso em si, o local influenciou para a escolha: a terceira melhor faculdade do mundo está no chamado "coração do Vale do Silício", em Palo Alto, na Califórnia — principal polo global de tecnologia e inovação atual. 

Esse curso é para quem busca entender como a tecnologia funciona e como é possível usar ela para criar coisas. Eu sempre sonhei em trabalhar com isso, e agora posso estar no ambiente central da tecnologia mundial.
Vinícius Félix
Estudante cearense

Para os estudos, Vinícius conquistou bolsa integral, que inclui acomodação, alimentação e um valor de auxílio mensal para compras particulares do estudante. "Eles também vão pagar minha passagem de avião de ida e volta ao Brasil, uma vez ao ano", conta.

Cearense filho de costureira é aprovado em duas universidades nos EUA
Legenda: Carta de aprovação para Stanford.
Foto: Arquivo Pessoal.

Segundo ele, a "tuition" de Stanford — valor cobrado pela instituição de ensino para custear todos esses direitos aos alunos pagantes — gira "em torno de 400 mil dólares", pelo período de quatro anos. 

Conseguir a bolsa integral era uma obrigatoriedade para tornar o sonho possível, visto que o valor estava completamente fora do orçamento da família de Vinícius. "A gente teve que reduzir alguns gastos até para pagar R$ 600 necessários para realizar o exame de SAT, na época de inscrição", comenta. 

Enquanto a maioria dos jovens enxerga ansiedade e medo na transição do ensino médio para o ensino superior, Vinícius conta que conseguiu encontrar segurança e paciência.

"Mesmo que eu não tivesse passado em universidades americanas, eu sabia que ainda teria um perfil de liderança forte e um bom currículo com 19 anos. Então, mesmo eu perdendo a batalha, eu não perderia ela totalmente", conta o jovem. 

As aulas em Stanford iniciam em setembro, durante o outono americano. Até lá, o cearense diz que segue sem acreditar que vai viver uma realidade completamente diferente até 2030, quando concluirá o curso.

"A maior recomendação que eu posso dar para todos os jovens que vêm da mesma realidade que eu é que eles sonhem grande", finaliza. 

*Estagiária supervisionada pelas jornalistas Dahiana Araújo e Mariana Lazari. 

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