Ceará é o único estado onde uso de cigarro cresceu entre estudantes, diz IBGE
Pesquisa investigou o tabagismo inclusive observando uso de itens como os "vapes" entre os estudantes.
Na contramão da tendência de queda observada em quase todo o Brasil, o Ceará apresentou um dado atípico no consumo de tabaco por estudantes. O Estado foi o único onde a experimentação de cigarros entre escolares registrou alta, de 17,6% para 18,7%, num período de cinco anos.
Os dados constam na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada nesta quarta-feira (25) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo reúne informações sobre a saúde de adolescentes de 13 a 17 anos em escolas públicas e privadas do País.
Enquanto o Ceará registrou esse aumento, o Brasil como um todo viu a taxa de experimentação de cigarro cair de 22,6% em 2019 para 18,5% em 2024. Estados como Amapá, Paraná e Rio de Janeiro apresentaram reduções significativas, evidenciando que a trajetória cearense é um ponto fora da curva estatística do País.
Ainda assim, os percentuais mais altos encontrados para a experimentação do cigarro em 2024 foram os do Acre (28,9%) e do Mato Grosso do Sul (27,7%).
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A PeNSE 2024 pesquisou o tabagismo através de quesitos que abordam a idade da experimentação e o uso recente de cigarro, narguilê, cigarro eletrônico (vape, pod ou e-cigarrette) e outras formas de consumo do tabaco, além do modo de obter o produto e da exposição indireta.
Segundo o estudo, o consumo de tabaco, álcool e outras substâncias psicoativas, iniciado em idade precoce e mantido ao longo da vida, constitui fator de risco para Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT), incluindo as cardiovasculares e respiratórias, diabetes e câncer.
Veja o ranking nacional do percentual de escolares de 13 a 17 anos que já fumaram cigarro alguma vez:
- Acre - 28,9%
- Mato Grosso do Sul - 27,7%
- Mato Grosso - 24,8%
- Distrito Federal - 24,1%
- Goiás - 23,2%
- Roraima - 23,1%
- Tocantins - 22,6%
- Rondônia - 22,4%
- Minas Gerais - 21,9%
- Paraná - 21,7%
- Rio Grande do Sul - 21,1%
- Santa Catarina - 21%
- Espírito Santo - 20%
- Amazonas - 19,7%
- Ceará - 18,7%
- Brasil - 18,5%
- São Paulo - 17,9%
- Pernambuco - 17,7%
- Pará - 17,5%
- Alagoas - 16%
- Rio de Janeiro - 15,9%
- Amapá - 15,4%
- Paraíba - 14,2%
- Maranhão - 13,8%
- Rio Grande do Norte - 13,5%
- Sergipe - 12,8%
- Piauí - 12,7%
- Bahia - 12,3%
Rede pública lidera consumo
A análise detalhada mostra que a experimentação no Ceará é mais prevalente entre alunos da rede pública de ensino, com 20% - mais do que o dobro do percentual da rede privada (9,6%). De forma geral, os meninos tiveram maior índice de prova do que as meninas: 20,7% contra 16,7%.
Nacionalmente, o indicador de experimentação foi de 19,8% nas escolas públicas, contra 11,5% nas privadas, o que também reflete a desigualdade socioeconômica no acesso e na exposição ao tabagismo.
Outro ponto de atenção é a facilidade de acesso ao produto proibido para menores. No levantamento nacional, 36,4% dos alunos que fumaram conseguiram comprar os cigarros diretamente em lojas, bares, botequins ou bancas de jornal. No Ceará, esse índice foi de 29,4%.
Apenas 3,1% dos alunos relataram ter a venda recusada, em todo o País. Já no Estado, o percentual foi menor ainda: 2,7%.
“Esses resultados demonstram uma dificuldade generalizada de aplicação da lei, que impede a sua comercialização para menores de 18 anos de idade”, alerta o IBGE.
Uso precoce
A precocidade da exposição também é um fator de risco mapeado no Ceará e no Brasil. Cerca de 9,4% dos estudantes brasileiros experimentaram cigarro pela primeira vez aos 13 anos ou menos, sendo de 9,3% para os meninos e 9,5% para as meninas.
No contexto cearense, esse indicador era de 9,7%, sendo de 11,4% para os meninos e 7,9% para as meninas. Em relação à rede escolar, os alunos da rede pública apresentaram uma exposição precoce ao tabaco (10,3%), superior aos da rede privada (4,8%).
Já em relação ao uso atual do cigarro, pesquisado através do consumo nos 30 dias anteriores à pesquisa, os resultados da PeNSE 2024 revelaram uma redução nacional de 6,8% em 2019, para 5,6% em 2024. Porém, no Ceará, o índice cresceu de 5,7% para 5,9%.
Avanço dos vapes
O IBGE ressalta que a adolescência é caracterizada pela maior suscetibilidade à influência dos pares e engajamento em comportamentos de risco. Logo, os jovens “são particularmente suscetíveis a iniciar uso de tabaco, um hábito que frequentemente persiste até a vida adulta”.
A pesquisa levanta a hipótese de que o uso intenso das redes sociais pelos adolescentes esteja mudando seus hábitos de consumo, como o aumento do uso de cigarros eletrônicos - ou vapes, como são mais conhecidos.
No Brasil, é proibido fabricar, vender, importar, divulgar ou distribuir todos os tipos de dispositivos eletrônicos para fumar (DEF) desde 2009. Essa proibição foi mantida recentemente, pois a Resolução RDC nº 855/2024 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforçou a proibição de seu uso em recintos coletivos fechados.
Apesar da proibição, o IBGE mostra que alguns dados sugerem que pode ter surgido novo aumento no consumo com o tabaco, “uma tendência notoriamente proeminente entre os adolescentes, em grande parte devido à sua exposição a ambientes online que promovem os cigarros eletrônicos através de publicidade direcionada”.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertou que a indústria do tabaco está produzindo novos produtos e tecnologias com o objetivo de promover a dependência em tabaco, como os vapes, sachês de nicotina e tabaco aquecido. Por isso, “governos precisam agir de forma mais rápida e mais firme na implementação de políticas comprovadas de controle”, indica a instituição.
Prevenção do tabagismo
No Ceará, a manutenção do hábito de fumar em níveis ascendentes coloca a saúde pública em alerta para futuras doenças crônicas associadas ao tabaco, já que “a experimentação de substâncias na adolescência é preditora de abuso de substâncias”, diz o IBGE.
“O consumo entre adolescentes é um problema relevante de saúde pública, associado a impactos negativos físicos, psicológicos, sociais e econômicos, incluindo pior desempenho acadêmico, violência, acidentes e prejuízo ao desenvolvimento cognitivo e emocional”
Evidências indicam que medidas de promoção da saúde implementadas desde a infância e adolescência reduzem a morbimortalidade populacional. Estima-se que 70% das mortes prematuras em adultos estejam associadas a comportamentos iniciados na adolescência.
Os resultados da PeNSE ajudam a orientar políticas públicas e ações voltadas ao bem-estar e à qualidade de vida dos estudantes brasileiros.