Um ano depois, a pandemia alterou a forma de produzir arte?

Sem atividades presenciais nos últimos doze meses, artistas precisaram repensar as possibilidades criativas para levar seus trabalhos até o público. Historicamente marcado pela interação entre artistas e plateia, o teatro abraçou outras linguagens, como o audiovisual

Escrito por Antonio Laudenir , laudenir.oliveira@svm.com.br
Momento de produção do e-book
Legenda: Momento de produção do e-book "Cenas do Confinamento/Escenas del Confinamiento". Objetivo da obra é manter a área teatral em atividade durante a pandemia com textos em português e espanhol. Organização recebeu 325 textos (216 em português e 120 em espanhol) de autores e autoras de vários países da América Latina, Europa e Estados Unidos

Dois anos atrás, Diego Lucena entregou “O Submerso". Primeiro trabalho solo do músico cearense, o disco foi concebido num contexto avesso dos dias atuais. Na última sexta-feira (12), o guitarrista lançou a faixa inédita “wat u gonna do today?”. O “single” é um aperitivo do novo álbum, previsto para final de 2021.  

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O processo de compor, gravar e lançar em meio a uma crise sanitária é diferente? “Teria sido algo mais ‘estruturado’, com certo grau de planejamento”, argumenta o realizador. São 12 meses de uma situação inédita para toda uma geração.

O isolamento social, exigência necessária à não proliferação do vírus, impactou diretamente o processo criativo de artistas e produtoras. Em contrapartida, o público também testemunhou estas ressignificações no consumo cultural.

Lucena adverte que a canção sugere a influência do momento. O termo em inglês (“O que você vai fazer hoje?”) é uma consequência deste tempo. Com isso, a pandemia adentra como tema e reflexão do debate. A música questiona o cenário indigesto.  “Todos os dias acabam sendo muito parecidos para quem está no ‘home office’”, define o compositor. 

Capa do single  “wat u gonna do today?”: tempo de produção ampliado na pandemia
Legenda: Capa do single “wat u gonna do today?”: tempo de produção ampliado na pandemia
Foto: Natália Marques

No entanto, o nível técnico de gravação (captação e edição) do novo trabalho foi semelhante ao de “O Submerso”. Mesmo considerando que o tempo agora está mais “dilatado”, os recursos técnicos à mão pouco mudaram. “Foi diferente mais pelo fato de ser sozinho mesmo o processo”, completou Diego Lucena. 

Palco experimental 

Em outras linguagens artísticas, aspectos criativos e tecnológicos não careceram de mudanças. Ao longo de 2020, a internet desencadeou o fim de algumas fronteiras. No caso do teatro, sem o calor do público, como foi possível driblar esta lacuna? Segundo a atriz, diretora e dramaturga Maria Vitória, o online era um território até debatido no campo da produção. Nada equiparado à intensidade de hoje.  

Antes ferramenta, com a pandemia, o virtual tornou-se muito mais que um “braço” estratégico. “Protelei o virtual durante um bom tempo. A pandemia me obrigou a mudar isso. Não ser só o braço, mas a própria coisa, ali, materializada virtualmente. E sempre me colocando em xeque nas criações”, detalha.  

Maria Vitória percorre os trilhos e as trilhas da artista chilena Violeta Parra (1917-1967). Pensada originalmente para o contexto anterior à pandemia, websérie  estreia primeiro capítulo no dia 27 de março
Legenda: Maria Vitória percorre os trilhos e as trilhas da artista chilena Violeta Parra (1917-1967). Pensada orginalmente para o contexto anterior à pandemia, websérie estreia primeiro capítulo no dia 27 de março
Foto: Repordução/Instagram

Sua próxima montagem, com estreia marcada para 27 de março, sinaliza completamente com o contexto digital. “Esse solo sobre Violeta Parra foi idealizado bem antes da pandemia. Foi imaginado para rua. Pensei em desistir, mas me questionei: ‘Não sei quando isso vai acabar’. Decidi retomar a ideia de estrear no momento previsto anteriormente”, assume a realizadora.  

Sem uma definição do retorno pleno das atividades presenciais, a urgência de “reinventar” tornou-se outro árduo cotidiano para quem labuta profissionalmente com a arte. “Tenho que lidar com essa outra linguagem do audiovisual. Nesse momento não tenho outra forma. Tenho que aprender”, completa Maria Vitória. 

Acesso reduzido 

O impacto da Covid-19 no acesso a manifestações culturais é uma preocupação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Ainda ano passado, a instituição divulgou o estudo “Cultura em Crise, uma Guia de Políticas para um Setor Criativo e Resiliente”. Entre os debates propostos, constam análises das consequências econômicas geradas pela crise e  medidas de governos para socorrer o setor em vários países.    

Em todo o mundo, a Unesco aponta uma estimativa de 30 milhões de empregos concentrados na cultura. Com a pandemia, espetáculos passaram a ser realizados com o suporte online. A pesquisa adverte que 46% da população global vive sem acesso à internet. O resultado. Muita gente sem cultura e artistas sem o contato da plateia. 

“A transmissão e o acesso a conteúdo criativo tornaram-se indispensáveis para lidar com as condições adversas do isolamento imposto em resposta à crise da Covid-19", detalha o texto. Entre outros títulos acadêmicos, a agência da ONU recorre ao trabalho “The COVID-19 recovery will be digital: A plan for the first 90 days” (algo como “A recuperação do COVID-19 será digital: um plano para os primeiros 90 dias”).  

O trabalho acima identificado estabelece a seguinte estimativa. O novo coronavírus encurtou cinco anos de avanços no espaço de três meses. “O bloqueio mundial conduziu nossas interações sociais e nosso consumo de cultura quase inteiramente para o espaço digital”, explica a tradução. Outra discussão urgente reside na remuneração dos artistas.  

"A transição digital não reverteu essa tendência, muito pelo contrário. Os valores pagos pela exploração das obras nas principais plataformas digitais são muito menores do que os gerados pela venda de mídia física. Como resultado, mais do que nunca, o salário está se tornando a principal fonte de renda. Em uma pandemia, parar todas as atividades, significa interromper todos os salários”, alerta outro eixo da publicação desenvolvida pela Unesco. 

Ganho inspirador 

“Comecei a olhar com o pensamento mais crítico e criativo para o audiovisual”, situa a atriz e produtora Jéssica Teixeira. Embora já tenha trabalhado com cinema, a pandemia aprofundou estas perspectivas.  

“Foi uma grande mudança. Tudo foi pensado de forma diferente. Direção de arte, iluminação, figurino. Tudo passou por uma reinvenção. Afinal, agora, as pessoas não vão mais ver ali no palco, o lugar distante, com a luz do teatro. Verão por meio de uma câmera. Então há um recorte e uma fotografia muito clara. No teatro, o público escolhe para onde olhar. Acabei como artista e produtora tendo o olhar mais voltado às tecnologias e para o audiovisual”, estipula.  

Cena do documentário
Legenda: Cena do documentário "Pudesse Ser Apenas Um Enigma"
Foto: Reprodução/YouTube

Em agosto passado, os frutos dessa constante reflexão (e experimentação) dos suportes a permitiu revistar o espetáculo solo "E.L.A". Realizada em 2019, esta obra passou pelo exercício de desconstrução durante a pandemia. A pesquisadora cearense participou do “Projeto de Desmontagem” do Sesc (SP). Em codireção com o cineasta Pedro Henrique, a atriz lançou o documentário “Pudesse ser apenas um enigma”. 

Realizada totalmente à distância, a criação adentra e resgata o processo de produção e estudos contidos em "E.L.A". O filme está disponível pelo canal Sesc Pompeia no YouTube. “Esse modo de criação e produção mudou bastante. Sinto um engrandecimento. Não tem mais como voltar desse ganho”, finaliza Jéssica Teixeira.  

Produção coletiva

Integrante do Grupo Teatro de Caretas, cientista social e mestra em artes, Vanéssia Gomes confirma que suas atividades enquanto atriz, diretora, produtora e professora se modificaram. No caso da sala de aula, as atividades remotas foram possíveis imediatamente. Contudo, a criação e produção teatral ficou paralisada.  

"Não conseguir ter os espaços para o convívio e a presença que são o princípio do trabalho teatral, causou um choque que foi difícil imaginar soluções. O contato com outros artistas e a possibilidade do diálogo sobre os desafios criaram ideias", resgata.  

Outro pondo de vista recai acerca da individualidade da artista. Superar o isolamento físico, transformando-o em espaço de criação, reservou outra dificuldade. "Ainda tínhamos todos os medos em ficarmos doentes. Então o contexto não era/não está sendo fácil". 

Dentre os projetos realizados neste período, Vanéssia destaca dois. O primeiro trata da organização de um concurso de dramaturgia que envolveu outros docentes como André Carreira (UDESC - Santa Catarina) e Narciso Telles (UFU - Minas Gerais). Ao todo, 55 autores e autoras de diversas nacionalidades (Brasil, Peru, Espanha, Argentina, Chile, entre tantos) produziram o livro "Cenas do Confinamento" (Ele pode ser lido aqui). 

A entrevistada divide outra realização coletiva. "Vivi junto a outras colegas do teatro, algo que nos fez antes de atuar, pensar nas câmeras, criar ambientes, observar e escolher ambientes em casa, trabalhar com os sons do cotidiano familiar, recriar a forma de atuar.  A necessidade imediata de se gravar foi algo que mais transformou minha forma de trabalho, digo isso porque já tinha a experiência de câmera devido aos trabalhos com cinema e vídeo, mas agora era absolutamente diferente, porque era eu sozinha gravando, e dialogando pela internet com as outras atrizes e com o diretor”, conclui Vanéssia Gomes. 

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