Tramas densas e identidade desconhecida marcam a literatura de Elena Ferrante

Italiana segue gerando curiosidade na comunidade literária. Para pesquisadora brasileira, além de um retrato da condição feminina, Ferrante elabora um plano de fundo que aborda fortes questões históricas

Legenda: O amadurecer feminino a partir de temas que tocam a percepção de si na infância, as relações conjugais, as angústias da maternidade e o envelhecimento
Foto: Talita Hoffmann / Editora Claraboia

Qual foi a última vez que você entrou em uma livraria, leu a sinopse de um livro e o comprou apenas pelo interesse da narrativa sugerida na contracapa? Alguma vez você indicou trabalhos literários sem citar o autor? No mercado literário, um nome ou assinatura consagrada confere certo peso nas vendagens

Contudo, e se a mente por detrás da história deliberadamente escolher o anonimato? A identidade de quem escreve é suporte fundamental para uma publicação? Os questionamentos feitos agora são breves se comparados ao universo de mistérios que cercam uma escritora italiana.

As poucas informações que temos são a origem napolitana, o prazer exaustivo da escrita e o pseudônimo que há muito gera curiosidade na comunidade literária: Elena Ferrante. Afora o debate em torno da real identificação, o mérito é das obras densas, as personagens complexas e a escrita cortante da literata.

Autora de três breves romances, “Um amor incômodo” (1992), “Dias de abandono” (2002) e “A filha perdida” (2006), Ferrante consolidou seu espaço na seara literária com “A Amiga genial”, entregue em 2011. O título é a primeiro peça do conjunto de romances que compõem a conhecida “tetralogia napolitana”, completada por “História do novo sobrenome” (2012), “História de quem vai e de quem fica” (2013) e “História da menina perdida” (2014).

De acordo com a psicanalista e crítica literária, Fabiane Secches, que em abril deste ano publicou o estudo “Elena Ferrante, uma longa experiência de ausência”, a recepção crítica é certeira ao enaltecer a tetralogia. “A meu ver formam uma única obra, é considerada a obra prima da autora até aqui. É um divisor de águas na carreira de Ferrante tanto do ponto de vista editorial quanto literário”, diz.

Amizade

Os quatro livros condensam uma única obra. Todavia, é por “A amiga genial” que o percurso de Lenu e Lila começa a ser traçado. Devido ao sumiço da melhor amiga, Elena Greco é impelida a compartilhar com os leitores a história de amizade com Rafaella Cerullo, que vai dos sete anos de idade até a velhice. 

Ambientada em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950, a narrativa expõe os conflitos internos e externos que começam ainda na infância e adolescência, tema central do primeiro título da tetralogia. São situações acompanhadas de uma relação também ambígua de amor e rivalidade entre as duas.

Em uma Itália marcada pela violência e pela opressão, Lila e Lenu tornam o afeto em fator codependente de um doloroso, porém inevitável, processo de desenvolvimento. “Gosto de como ela constrói essa formação espelhada da relação de intersubjetividade que se estabelece entre as duas protagonistas: uma se constitui sempre em relação à outra, por identificação, projeção, como opostas, semelhantes ou complementares”, relata Fabiane. 

Nápoles é inspiração e pano de fundo dos conflitos encarados pelas personagens de Elena Ferrante
Legenda: Nápoles é inspiração e pano de fundo dos conflitos encarados pelas personagens de Elena Ferrante
Foto: Talita Hoffmann / Editora Claraboia

Além de um retrato da condição feminina, Ferrante elabora um plano de fundo que aborda fortes questões históricas, como os vestígios do fascismo e ascensão de um comunismo radical no pós-guerra. Por sua vez, a desigualdade social se torna quase como um personagem em suas tramas, determinante à construção de protagonistas cujos desejos fluem entre querer fugir do lugar de onde vieram e, ao mesmo tempo, ter o impulso de retornar às origens.

“As protagonistas de Elena Ferrante transitam sempre por espaços sociais diferentes. Em geral, nascem pobres e depois ascendem socialmente, carregando para sempre as marcas da classe da origem. Tentam escapar do lugar de onde vieram, mas estão sempre presas a ele. É uma relação de atração e repulsa, familiar e inquietante”, explica a pesquisadora.

Universo 

Os dissabores do amadurecer feminino em temas que tocam a percepção de si na infância, as relações conjugais, as angústias da maternidade e o envelhecimento. Estes são assuntos frequentes no repertório imaginado por Ferrante. Nas palavras de Fabiane, “não recorre a simplificações, idealizações, arranjos esquemáticos. Suas personagens não são heroínas exemplares. Ao contrário, embora por vezes atinjam feitos notáveis, são permeadas de dilemas, inseguranças e contradições”.

Na crueza de um estilo modernista, a escritora cria uma ambientação comum para todas as suas histórias, fazendo com que a imersão em suas publicações seja, no melhor dos termos, febril. Em setembro de 2020, chegou ao Brasil pela Intrínseca “A vida mentirosa dos adultos”. O lançamento habita este mesmo universo compartilhado. 

Entretanto, traz uma diferença. Giovanna, a protagonista adolescente da trama, é filha de professores e cresce na parte mais abastada de Nápoles, na contramão das outras personagens. Apenas após ser assolada por um comentário infeliz vindo do pai, a jovem passa a ter consciência do próprio corpo, da sua cidade e da complexidade das relações familiares.

Todos os romances já citados ganharam adaptações para o cinema ou para a TV, mostrando, mais uma vez, a relevância das obras que, mesmo quando curtas, são ricas em significados. Ademais, foram publicados outros dois livros da italiana: “Frantumaglia - caminhos de uma escritora” (coletânea de cartas e entrevistas) e o infantil “Uma noite na praia”. Esse, uma espécie de spin-off do trabalho “A filha perdida”.

Para Fabiane Secches, fenômenos de recepção como o de Elena Ferrante são difíceis de explicar (e isso é algo bom). 

“Talvez uma soma de elementos, entre os quais: a qualidade da escrita, a construção das personagens, a ambivalência de suas obras. E também, claro, o espírito do tempo, a repercussão em torno do pseudônimo e o contraste da ausência da autora como figura pública num mundo em que costumamos ver o oposto — excesso de presença”, finaliza a estudiosa.

Talita Hoffmann.
Legenda: As ilustrações de Talita Hoffman foram feitas para compor o livro de Fabiane Secches, lançado pela Editora Claraboia

Elena Ferrante, uma longa experiência de ausência
Fabiane Secches
Editora Claraboia
2020, 261 páginas
R$49,90

Para começar a ler Elena Ferrante

A amiga genial

É o primeiro livro da tetralogia. Em “A amiga genial” inicia a história de Lenu e Lila, duas amigas que crescem juntas e acabam tomando caminhos diferentes, porém sempre levando a outra dentro de si. Temas como o empoderamento feminino através do estudo, a luta de classes e a naturalização da violência são, ainda, condutores da trama.

Dias de abandono

Após 15 anos casada, com dois filhos, um cachorro e uma vida inteira construída, Olga é arrebatada pelo anúncio súbito do fim do casamento. O motivo? Seu marido se apaixonou por uma mulher mais nova. Em “Dias de Abandono”, a dor da rejeição é escancarada e seguida por um mergulho existencial, violento e corajoso, no sentido de se redescobrir fora de um relacionamento.

A vida mentirosa dos adultos

Se crescer é um processo complicado para todos, ele se torna ainda mais conturbado para uma garota de 12 anos que ouve palavras horríveis direcionadas a ela pelo próprio pai, pessoa a quem mais admira. O livro retrata a passagem da infância à adolescência, sempre acompanhada de questionamentos sobre si e sobre o mundo ao redor.

 

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