“Gente preta não é piada”, diz trancista sobre comentário de Rodolffo a João no BBB21

Nathalia Arruda e professora Izabel Accioly comentam a situação envolvendo os participantes do programa

Legenda: Nathalia Arruda de Sousa é idealizadora da ProAfro Collab, espaço colaborativo voltado para o enaltecimento da beleza negra
Foto: Helene Santos

A mais recente discussão no Big Brother Brasil 21 envolve a questão afro. O cantor Rodolffo comparou o cabelo do professor João Luiz à peruca entregue no último Castigo do Monstro, quando o sertanejo vestiu uma fantasia de homem das cavernas.

Ontem (5), a questão voltou à tona no Jogo da Discórdia. Na ocasião, João disse que Rodolffo “joga sujo” e expôs o comentário do cantor sertanejo que o afetou. 

“O Rodolffo chegou a fazer uma piada, comparando a peruca do monstro da pré-história com o meu cabelo. Tocou em um ponto muito específico, porque o jogo pode ser, sim, de coisas que a gente vive aqui dentro, mas também tem que ser um jogo de respeito”, desabafou.

Nas redes sociais, os usuários repercutiram o caso, alguns a favor de João, outros apoiando Rodolffo. Nomes famosos, a exemplo de Elza Soares, Giovanna Ewbank e Lucy Alves, foram algumas das celebridades que aplaudiram a fala do professor de geografia.

“João, você me representa, cara. Hoje vou te acolher em meus braços quando sonhar. Te amo”, publicou a cantora Elza Soares.

Por sua vez, o jogador de futebol Neymar, telespectador assíduo do programa, comentou: “Qualquer brincadeira é um chororô danado”.

Ao Verso, a professora Izabel Accioly – mestra em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – explica que o fato de algumas pessoas não conseguirem perceber qual é o problema da situação significa que estão diminuindo a dor de alguém.

“Nesse caso específico, essa dor é causada pelo racismo”, diz. “A situação sofrida pelo João nos revela que ainda há uma dificuldade muito grande em perceber o racismo recreativo como algo maléfico. É muito comum que as pessoas digam, ‘ah, foi só uma brincadeira’.  Entretanto, isso que para alguns é só uma brincadeira, para outros está ofendendo profundamente”.

Segundo ela, o comentário de Rodolffo é considerado racista porque constrói uma ideia de que os cabelos lisos – tipo geralmente associado às pessoas brancas – representam o belo, enquanto o cabelo crespo, muito mais presente, fenotipicamente, no povo negro, é o feio. 

“Assim, vai-se construindo ideias dicotômicas – do branco bonito/negro feio; branco bom/negro mau. E essa questão vai implicar em, por exemplo, numa baixa auto-estima nas pessoas negras. Infelizmente, isso ainda é muito presente na nossa cultura”, lamenta.

Legenda: "A situação sofrida pelo João nos revela que ainda há uma dificuldade em perceber o racismo recreativo como algo maléfico", percebe Izabel Accioly
Foto: Arquivo pessoal

Longo caminho 

A professora também comenta que, apesar de, nos últimos anos, ter acontecido uma valorização dos cabelos crespos, ainda é perceptível que há um longo caminho a percorrer.

“Toda essa situação no programa simboliza isto: que ainda há muito, muito, muito trabalho a ser feito no sentido de educar e desmistificar essa ideia”, defende.

Izabel expressa a preocupação de perceber esse tipo de acontecimento no reality porque, conforme fala, “fica parecendo que o racismo é entretenimento”, algo equivocado.

“Racismo não é entretenimento. As situações que ocorrem ali – inclusive de homofobia também, de bifobia – não deveriam existir para entreter as pessoas. Aquilo ali deveria ser combatido”.

Logo se, por um lado, a estudiosa sente que, pelo fato de o programa ter uma grande visibilidade, o público tenha acesso ao que está acontecendo e tente refletir  a respeito, por outro percebe que tais reflexões carecem de aprofundamento.

“Fico feliz pela repercussão e pelas pessoas estarem discutindo isso, mas me pergunto até que ponto essa discussão vai fundo e faz com que realmente os espectadores se engajem para a vida deles”, questiona.

Legenda: Professora e estudiosa defende que racismo não é entretenimento
Foto: Arquivo pessoal

Aceitação da transição

Trancista e idealizadora da ProAfro Collab – espaço colaborativo localizado no bairro Bonsucesso, em Fortaleza, voltado para o enaltecimento da beleza negra – Nathalia Arruda de Sousa aprofunda o debate ao perceber que o processo de transição capilar é o maior obstáculo que os seus clientes enfrentam ao decidir assumir os fios naturais. 

“É, de fato, um caminho longo e complicado a aceitação das texturas naturais em transição. Com a ajuda das tranças, cabelos orgânicos, laces e wigs, o processo fica mais fácil. Ainda assim, muitos clientes desistem no meio por conta de críticas e os tais ‘comentários sem intenção de machucar’”, conta.

Legenda: Nathalia Arruda e Kathleen Alves são sócias e donas da ProAfro Collab
Foto: Helene Santos

Para ela e as pessoas envolvidas na ProAfro, é uma missão incentivar o processo da transição para todos os clientes e acompanhar cada passo, até chegar o dia do corte total da química. 

“Por mais que estejamos em 2021, que a informação esteja aí, que os tempos tenham mudado, nossa sociedade foi construída em cima de pilares racistas. Esse problema é estrutural. É uma violência diária e está nos pequenos detalhes. O cabelo crespo ainda é visto como feio, sujo, ruim e mal cuidado, assim como tranças e dreads”, complementa.

Exercício de resistência

Desta feita, Nathalia compreende que esse tipo de impressão ainda é reproduzida porque as pessoas insistem em disfarçar o racismo, alegando “falta de informação “ ou “só opinião”. 

Legenda: "Pro povo negro, sempre foi negado o lugar de ‘beleza’", afirma Nathalia Arruda
Foto: Helene Santos

“Ter cabelo afro é um exercício diário de resistência. Pro povo negro, sempre foi negado o lugar de ‘beleza’, consequência de uma herança de desumanização desses corpos. Sendo assim, para nós, que sempre tivemos nossos traços animalizados e marginalizados, passar por todo esse processo, aceitar-se e amar nossos cabelos, é um ato revolucionário de afirmação de quem se é”, destaca.

“O que aconteceu com o João é a realidade de muitos. O Big Brother expõe essa problemática para 60 milhões de pessoas e evidencia o cansaço de inúmeras que são diariamente desrespeitadas. Isso ensina o que já deveria ter sido a aprendido há anos: gente preta não é piada”.

Signo de afirmação

Quando indagada sobre como o cabelo pode ser encarado como um símbolo de afirmação, Izabel Accioly sublinha que vivemos em uma sociedade de supremacia branca. Portanto, nela se constrói uma ideia de que tudo relacionado ao povo negro – das simples características biológicas, a exemplo do nariz largo, pele escura e cabelo crespo – é visto como feio, indesejável, ruim. 

“A partir do momento em que a gente rompe com essa ideia mentirosa de que nós somos feios, que somos indignos de sermos considerados belos, passamos a nos afirmar politicamente. E afirmar a própria raça passa também por uma questão de valorização estética, de olhar os nossos traços e aprender a valorizá-los, na gente e no nosso povo”, considera.

Legenda: A partir dos anos 2010 até a década atual, Izabel Accioly observa que mais pessoas estão afirmando seus cabelos naturais, fazendo a transição capilar
Foto: Helene Santos

Ela ainda contextualiza que, no Brasil, sobretudo entre as décadas de 1980 e os anos 2000, havia uma grande predominância de pessoas negras de cabelo crespo ou cacheado alisando os fios. A partir dos anos 2010 até a década atual, o movimento parece contrário: mais pessoas estão afirmando seus cabelos naturais, fazendo a transição capilar.

“Por que isso é importante? Porque é um caminho de reconexão com quem nós somos. Aceitar o seu cabelo natural representa parar de negar o seu pertencimento étnico-racial e começar a desenvolver uma consciência racial. Tem muitas pessoas que começam a entender-se negras depois que param de alisar o cabelo, por exemplo. É um processo de entendimento muito importante”.

Nessa seara, a professora destaca um tipo específico de corte de cabelo, o chamado black power, afirmando que ele faz referência a um tipo de corte que se popularizou em meados da década de 1970, nos Estados Unidos, por meio do movimento dos Panteras Negras. A longevidade dessa dinâmica estética otimiza o entendimento que o que o povo negro está afirmando agora já vem sendo afirmado há muito tempo. 

“Algumas pessoas falam assim, ‘nós precisamos dar voz ao movimento negro’. O movimento tem voz e está falando há décadas. Precisam é dar ouvidos para esse movimento e entenderem que nós não somos piada para ninguém”, brada.

Entenda o caso

Após comentário de Rodolffo no programa, João Luiz confidenciou a Camilla de Lucas seu lamento. “Esse tipo de situação não era uma situação que eu tinha vivido aqui dentro em momento algum. Então, quando aconteceu, eu fui para um lugar na minha cabeça que eu não imaginei que precisaria acessar”, disse o professor.

Mais tarde, no mesmo dia, durante uma festa ao vivo no programa, a cantora Ludmilla comentou sobre o assunto indiretamente. 

Em determinado momento, ela afirmou: “A próxima música que eu vou cantar é uma música que fala de uma coisa que o mundo tá precisando. Respeita o nosso funk, respeita a nossa cor, respeita o nosso cabelo!“. No mesmo instante, Camilla de Lucas gritou e abraçou João.

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