Dia dos Namorados: a quarentena está mudando as relações amorosas?

Segundo psicóloga, o período é propício para cultivar o autoconhecimento e ressignificar aspectos importantes dos relacionamentos, como a individualidade dos sujeitos e os momentos de encontro

Escrito por
Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Luandell Lucena e Ray Queiroz têm registrado momentos do cotidiano do casal durante a quarentena
Foto: Reprodução/Instagram

Durante uma pandemia mundial, que exige a todos o isolamento social como forma de prevenção do contágio e que mudou todos os nossos hábitos cotidianos, é inevitável considerarmos que a maneira como nos relacionamos também vai se modificar. A convivência intensa e integral dentro do lar potencializa aspectos positivos e negativos que envolvem um relacionamento. Já para quem se encontra distante fisicamente, a falta que o outro faz nunca esteve tão aflorada. Em ambos os casos, a saída é única: respeito, empatia, autoconhecimento e muito diálogo.

De acordo com a psicóloga Priscila Diniz, a maior dificuldade do momento tem sido lidar com a falta de controle da situação. Inevitavelmente, as incertezas geram impactos nas relações e intensificam particularidades já existentes nelas, sejam elas boas ou ruins. Cabe ao casal, então, analisar conjuntamente as questões que o contornam.

“Um fator muito importante é a cumplicidade. Ela é fundamental para que você consiga lidar com aquilo que o outro tem e que pode não agradar muito, mas que fica potencializado neste período. Estar junto é respeitar a individualidade e o tempo do outro, exercitar a paciência, ter empatia. Empatia é eu me colocar no lugar do outro, olhar e sentir como esse outro. É um exercício diário”, explica Priscila.

Para quem está vivendo a quarentena em uma dinâmica de convivência excessiva, um conjunto de negociações e concessões tem se tornado imprescindível. Luandell Lucena e Ray Queiroz, ambos de 27 anos, namoram há um ano e seis meses. Apesar de já morarem juntos antes do período de isolamento, o relacionamento experimentou diversos desafios a fim de encontrar o equilíbrio no cotidiano compartilhado.

“Cada um tinha seu espaço fora de casa e agora não. Resolvemos dividir as tarefas mas quando um ou outro fura essa tarefa, a gente acaba se desentendendo. Costumamos brigar mais por isso, eu sou mais preguiçoso e ele é mais ativo”, conta Luandell. 

Legenda: Por meio do diálogo e compreensão, Luandell Lucena e Ray Queiroz aprenderam na quarentena a respeitar melhor suas individualidades
Foto: Reprodução/Instagram

Entretanto, Ray afirma que depois de tanto tempo juntos, eles começaram a entender a necessidade de cada um e decidiram transformar essa situação em uma produção criativa. “Chega um momento que queremos ficar sozinho. Começamos a perceber isso e temos nos permitido mais esse espaço. Dentro desse isolamento, decidimos fazer pequenos filmes registrando esses momentos de dor, alegria, tédio, raiva. Encontramos essa solução para nos distrair e produzir algo, mas tudo no nosso tempo, devagar”.

Estar presente

Além de exercer a própria individualidade - o que pode significar tirar um tempo para tomar um café sozinho, ler um livro ou ligar para algum amigo - é também de fundamental importância definir momentos de encontro. Assistir um filme juntos, cozinhar algo diferente ou até mesmo apenas conversar, mas com interesse e sensibilidade, “torna o casal mais íntimo, mais unido, mais cúmplice”, como declara a psicóloga.

Para Ana Cecília Coelho e Kauê Queiroz, a quarentena serviu como um “test-drive” para o desejado casamento, após quase cinco anos de namoro. Segundo o engenheiro, “dividir o home office, respeitar o tempo do outro e encontrar formas de lazer têm sido pontos mais desafiadores”. Porém, o diálogo e companheirismo se fazem sempre presentes, de forma a trazer reflexões tanto pessoais quanto coletivas. 

Legenda: Namorados há quase cinco anos, Kauê Queiroz e Ana Cecília Coelho resolveram passar a quarentena juntos para experimentar a convivência diária
Foto: Reprodução

“Em alguns momentos durante o dia conversamos, damos risadas e trocamos carinho. Isso deixa a rotina mais leve. Quando um tem um dia mais difícil, o outro tenta acalentar. Estamos tentando lidar com os desafios com parceria e empatia. Talvez um dos maiores aprendizados tem sido a importância do respeito e do diálogo. Não sabemos como vai ser o futuro, mas seguimos tentando aproveitar a companhia um do outro”, complementa.

Perto mesmo longe

A responsabilidade afetiva e a capacidade de ouvir o outro também são elementos vitais para o casal que está separado nestes tempos complicados. A saudade presente nesse hiato indeterminado entra em debate com as necessidades individuais de cada um, mas com respeito e empatia é possível encontrar um bem-estar no meio do caminho.

Mesmo já namorando à distância há 10 meses, o namoro de quase três anos de Eloá Bessa e Matheus Serrano sentiu a intensificação da falta de contato físico decorrente do período de quarentena. “Ele precisou mudar de cidade para estudar e passamos a nos ver mais ou menos duas vezes por mês. A separação física talvez não tenha sido tão sentido por questão de costume, mas sim, a duração dessa distância. Antes podíamos programar quando se ver, agora está tudo meio incerto”, relata a arquiteta.

Legenda: Eloá Bessa e Matheus Serrano namoram há dez meses à distância
Foto: Reprodução

O contato diário ganhou novos formatos com a distância. Para se sentir mais próximo, além da troca de mensagens e das ligações por vídeo chamada, o casal combina de assistir o mesmo filme ou até mesmo mandar uma comida gostosa para a casa um do outro.

Para lidar da melhor maneira com esta fase, o autoconhecimento se faz mais do que urgente. “Acho que o que mais mudou foi olhar pra dentro de si, enxergar o que de fato te faz um ser individual e como você pode se relacionar com alguém de forma leve e complementar. Assim, quando estivermos juntos, saberemos aproveitar bastante esses momentos, pois a qualquer instante pode ter algo que nos impeça de estar juntos por tempo indeterminado”, conta.

Priscila Diniz faz questão de sempre reafirmar que o objetivo principal das relações amorosas é a evolução do ser: “A ideia é que os relacionamentos possam evoluir com o crescimento dos sujeitos. É de dentro para fora. Então, se eu tenho um bom relacionamento comigo mesma, eu vou ter um bom relacionamento com meu parceiro e essa relação vai evoluir. Quem estiver aberto e consciente, vai aprender as lições que essa quarentena traz, como o respeito, a empatia e a paciência”.

 

Assuntos Relacionados