Carla Lemos, palestrante do Digital Pensando Moda, fala sobre moda e feminismo

Evento promovido pelo DFB Digifest 2020 convida grandes nomes do segmento para discutir moda sob a ótica do design, da comunicação e da sustentabilidade. Em entrevista ao Verso, carioca Carla Lemos detalha importantes questões

Legenda: Carla Lemos é autora do livro "Use a Moda a Seu Favor" e acredita numa moda ligada ao bem-estar das mulheres
Foto: Vitor Fernandes

Como afirmou a pesquisadora Ruth Joffily, em seu livro "O jornalismo e produção de moda" (1991), "a moda é, inegavelmente, um fenômeno cultural, desde os seus primórdios. É um dos sensores de uma sociedade. Diz respeito ao estado de espírito, aspirações e costumes de uma população".

Por ser aspecto importante para a economia, para a sociedade e para cada indivíduo pessoalmente, o passado, o presente e o futuro da moda têm sido tema de inúmeras discussões. Para compartilhar conhecimento e educação sobre esse universo, o DFB Digifest 2020 promove o projeto "Digital Pensando Moda" que, em parceria com o Senac Ceará, convida grandes nomes da categoria para participar de palestras e oficinas online gratuitas sobre moda autoral no país.

Visto que os eventos e a produção de moda ao redor do globo tiveram que ser adaptados em função das medidas de isolamento social, o ciclo de discussão do #DPM migra para o ambiente virtual e propõe reflexões sobre os novos rumos do segmento nos âmbitos da comunicação, do design e da sustentabilidade.

A capacidade de mutação e adaptação é uma característica marcante deste efêmero império. É para tratar sobre o tema, sob um viés preocupado com causas feministas e ambientais, que Carla Lemos apresenta a palestra "Comunicando a Moda Agora".

A editora chefe do Modices, um dos veículos digitais pioneiros na produção de conteúdo de moda original, alimenta a discussão sobre como a comunicação de moda mudou e ainda vai mudar. Em entrevista ao Verso, Carla expressa opiniões sobre a funcionalidade das roupas e das marcas e dos comunicadores para com seus consumidores.

Para você, qual é o papel da moda em uma sociedade?

O papel da moda em uma sociedade é refletir o seu tempo. É refletir a sua população, a sua cultura, os seus valores. A própria história do Brasil está muito relacionada à moda e ao papel da moda na sociedade. Como eu falo no meu livro "Use a moda a seu favor", a moda tem um grande poder e tem também uma grande responsabilidade. Por ter esse poder, ela foi usada durante muito tempo na cultural ocidental como instrumento de limitação e controle, especialmente sobre nós, mulheres. E controlar a roupa das mulheres é controlar sua identidade, seus sentimentos, sua sexualidade, seu pensar. A moda pode ter esse papel libertador, que é o que a gente tem buscado agora, mas ela foi usada durante muito tempo para oprimir. Estamos neste momento de ressignificação, principalmente ao ver que a moda atinge tantas outras coisas, como a questão ambiental, do excesso de produtos, dos insumos, dos químicos, do consumo exagerado. Os papéis são múltiplos e durante muito tempo a moda foi colocada com uma coisa menor e fútil. Está na hora de darmos à moda sua devida importância.

Como você percebe o mercado e a comunicação de moda no Brasil atualmente?

A comunicação de moda reflete todo o mercado, até porque a comunicação feita hoje, em 2020, ainda reflete o tempo de Luís XV. Ele usava de muitos adjetivos, contratava pintores para retratar a estética e despertar desejo em outras cortes. Ele queria que as pessoas comprassem as roupas em uma estação e que, na seguinte, não pudessem usar as mesmas roupas. Ainda não saímos desse ciclo super elitista. Mas isso não funciona mais. O planeta e as mulheres não aguentam mais. Temos jornadas contínuas no trabalho, nas tarefas domésticas e tantas outras que temos que assumir. A moda precisa acompanhar isso. Antes da pandemia, as vitrines só retratavam looks de passeio e de festa, sendo que as mulheres passam a maior parte do seu dia trabalhando. A moda é feita para mulheres mas é dominada por homens em suas áreas de comando, que não estão preocupados com essas coisas.

Devemos repensá-los? Como fazer isso?

Precisamos mudar o ensino e a produção de moda. O estilo de vida e a rotina das mulheres mudaram e a moda ainda não oferece autonomia total. Quantas ainda relatam dificuldades para vestir certas roupas, pois precisam de ajuda ou não conseguem fechar sozinhas. As roupas não têm bolso, você precisa usar uma outra peça. Por mais que exista o mito de que mulheres levam muitas coisas, a febre das pochetes está aí para desmistificar isso. Nos últimos anos, a análise de coloração pessoal tem sido um 'hit', porque as mulheres estão querendo olhar mais para si e entender o que funciona para elas. E quem está oferecendo esse tipo de informação são as consultoras de imagem, não são as marcas. Essa é uma das provocações que eu vou trazer na minha palestra: qual é o valor que as marcas estão dando para os seus produtos? Se leva tanto tempo para construir uma peça, tanto tempo de criação, de modelagem, aprovação, confecção, para você fazer só uma foto, postar uma vez no Instagram e acabou. Precisamos valorizar esse trabalho. A pandemia serviu para mostrar que não precisávamos de todas aquelas roupas, precisamos de roupas melhores e bem pensadas, assim como uma comunicação de moda melhor e bem pensada.

O planeta e as mulheres não aguentam mais. Temos jornadas contínuas no trabalho, nas tarefas domésticas e tantas outras que temos que assumir. A moda precisa acompanhar isso.

Quais são suas expectativas para o mundo pós-pandemia?

Minha principal expectativa é a conscientização das consumidoras, porque só com as mulheres adquirindo consciência e exigindo é que as marcas vão mudar e atender essas mulheres. É fazer as marcas pararem de olhar para fora e começarem a olhar para dentro. As marcas precisam olhar para as suas comunidades, para os locais onde elas vendem. As marcas também precisam oferecer instrução para as pessoas conseguirem fazer com que suas roupas durem mais. Com o ritmo das mulheres, de jornadas contínuas, não adianta você produzir roupas que precisem ser lavadas à mão. Que mulher, em 2020, tem tempo ainda de ficar lavando roupa à mão? É jogar na máquina e a roupa que lute para ficar limpa.

Quais tendências você enxerga nesse futuro-presente?

As tendências que eu enxergo são inúmeras. Da moda voltar à sua essência de ser funcional, de ser prática, de servir à vida das mulheres, de ajudar as pessoas a viverem melhor. Estética é bom, a gente adora uma roupinha bonita, mas não adianta mais ter uma roupa bonita se ela não serve à nossa necessidade de vida. A moda precisa ter esse alinhamento e a tendência é isso. Eu acho que o futuro são as funcionalidades, entender o ritmo de vida das mulheres.

As tendências que eu enxergo são inúmeras. Da moda voltar à sua essência de ser funcional, de ser prática, de servir à vida das mulheres, de ajudar as pessoas a viverem melhor. 

O que te move?

A liberdade. Como Nina Simone já falava: "a liberdade é não ter medo". As mulheres foram ensinadas a ter medo de tudo, inclusive de se vestir. Ensinaram que a gente devia ter medo de todas as coisas: medo de ficar cafona, medo de ficar gorda, medo de ficar baixa, medo de ficar esquisita. O que me move é o poder que a comunicação tem de desconstruir e o poder que a moda tem de fazer com que a pessoa consiga se expressar no modo como ela se veste. Isso provoca mudança. A moda e a comunicação são muito poderosas e eu quero usar elas a favor das nossas realizações e do nosso bem-estar. Tem uma frase da Naomi Wolf que faz muito sentido para mim: "podemos nos vestir bem para o nosso prazer mas devemos defender os nossos direitos em voz alta". Questionar a moda ajuda a questionar um monte de outras coisas. É um estopim.

Programação

Sábado (11) 
15h - Bate-papo "Criando Moda para o Futuro", com Alexandre Herchcovitch e Eduardo Motta 
18h - Oficina "Consertos e Ajustes no Vestuário", com Ariane Morais 

Domingo (12) 
15h - Palestra "Comunicando a Moda Agora", com Carla Lemos e Eduardo Motta 
18h - Oficina "Bordado Moderno", com Edenísia Figueredo. Inscrições pelo site.