Qual o impacto para oposição no Ceará se a federação União Progressista apoiar o Governo Elmano
PontoPoder analisa como possível adesão da nova aliança à base aliada ameaça o palanque oposicionista.
Os projetos eleitorais no Ceará para 2026 disputam, há meses, quem ficará com o comando da federação União Progressista, formada pela junção do União Brasil e do Progressistas (PP). O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve julgar o registro da federação nesta quinta-feira (26), o que deve acelerar a definição sobre quem terá o comando da sigla no Estado.
Atualmente, a federação está "rachada" no Ceará, dividida entre uma ala que defende o alinhamento com o governador Elmano de Freitas (PT) e outra que busca permanecer na oposição. O cenário é de disputa direta pelo controle estadual.
De um lado, estão nomes como os deputados federais Moses Rodrigues (União) e AJ Albuquerque (PP), além do secretário Zezinho Albuquerque (PP), que defendem a entrada na base. Do outro, o ex-deputado Capitão Wagner, atual presidente do União Brasil no Ceará, e o ex-prefeito Roberto Cláudio, presidente da legenda em Fortaleza, tentam manter a sigla no campo oposicionista.
Recentemente, o governador intensificou a ofensiva ao reunir-se com a ala governista da federação, afirmando respeitar as divisões internas, mas sinalizando que a posição da maioria deve prevalecer.
Em paralelo, a vice-governadora Jade Romero anunciou sua saída do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) para se filiar a um dos partidos da nova federação, reforçando o movimento em direção ao governo.
Recentemente, o deputado federal Danilo Forte, uma das lideranças de oposição do União Brasil deixou as fileiras do partido. O político, no entanto, não anunciou seu destino.
Mas, na terça-feira (24), a deputada federal Fernanda Pessoa, que era vice-presidente estadual do União Brasil e aliada do Governo Elmano, deixou a agremiação para se filiar ao Partido Social Democrático (PSD), marcando uma baixa no agrupamento da federação que defende a composição com o governo.
O PontoPoder ouviu cientistas políticos para explicar qual o impacto da eventual adesão da federação União Progressista ao Governo Elmano para a oposição cearense.
O que está em jogo
A União Progressista é vista como uma peça estratégica devido ao seu enorme peso eleitoral. Nacionalmente, a junção das siglas detém a maior fatia do Fundo Eleitoral (quase R$ 1 bilhão) e o maior tempo de propaganda gratuita no rádio e na televisão.
Para a oposição, perder esse apoio significa não apenas a redução de recursos financeiros, mas também a perda de um tempo valioso de exposição para contrapor a gestão estadual.
Segundo a professora da Universidade de Fortaleza (Unifor) e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mariana Dionísio de Andrade, "o que está em jogo é muito concreto e passa por três dimensões interligadas: a sobrevivência da aliança, o conflito interno de identidade da federação e o tamanho do prêmio em disputa".
Conforme observou a especialista, o PP já integra a base de Elmano no Ceará, mas o União Brasil possui alas opostas. "Ao mesmo tempo em que Moses Rodrigues sinaliza forte apoio à candidatura de Elmano, em que Jade Romero se descompatibiliza do MDB para se juntar à federação União Progressista; Capitão Wagner, líder do União Brasil, encabeça o coro de oponentes", disse.
Já a socióloga e cientista política Paula Vieira, pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem), da Universidade Federal do Ceará (UFC), analisou que "o Governo Elmano, ao se aliar com a União Brasil, está consolidando uma aproximação que veio do ano passado para cá". A menção da estudiosa se refere à aproximação do petista com nomes como Moses Rodrigues.
Capilaridade política
Vieira diz visualizar um possível capilaridade para o chefe do Executivo estadual em um ano como 2026, de formação de palanques. "Com isso, ele consegue capitanear um representante que tem sua base eleitoral num determinado território do estado do Ceará, a região Norte, que é onde o Moses Rodrigues tem maior inserção", pontuou.
Vieira também observa uma possível contrapartida para a federação União Progressista, que poderá ter Jade Romero concorrendo à Vice-Governadoria novamente, uma vez que Elmano de Freitas já indicou preferência por ela na composição de chapa para o pleito que se aproxima.
A cientista política Cleris Albuquerque, doutoranda em Políticas Públicas pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e integrante do Grupo de Pesquisa do CNPq Democracia, Partidos e Políticas Públicas da mesma instituição, considera que a migração da "federação para a base governista pode ser um diferencial estratégico para a reeleição de Elmano de Freitas".
"Uma possível ida da federação para a base governista não apenas enfraqueceria a oposição, mas diminuiria significativamente as possibilidades de alianças mais robustas para Ciro Gomes"
União é 'espinha dorsal' da oposição
A cisão da federação no Ceará se deve muito à divisão no União Brasil, já que o Progressistas integra o Governo do Ceará atualmente e faz parte do bloco de situação no Legislativo estadual.
Nas palavras de Mariana Dionísio, "o União Brasil não é apenas um partido grande, é a espinha dorsal da oposição organizada no Ceará". "A sigla elegeu oito deputados nas eleições de 2022, sendo quatro federais e quatro estaduais. Isso representa presença legislativa concreta, com poder de agenda, de voto e de articulação de palanques municipais", explicou.
"Trazer esse partido para a base ou neutralizá-lo seria, do ponto de vista da engenharia eleitoral, um movimento quase definitivo para 2026. Além disso, é preciso lembrar que a falta de consenso entre os integrantes do União Brasil é algo de muito interessante para a base governista"
Paula Vieira pontua que houve, considerando o resultado eleitoral em Fortaleza, na última eleição, uma percepção da direita de que há uma força junto ao eleitorado da Capital e passou a planejar uma capilarização para o interior.
“A direita no Ceará se expressa principalmente no espaço urbano, mas ele não é suficiente para eleger um governador. É necessário o interior, por isso há essas grandes alianças com os partidos políticos”, argumenta a pesquisadora, ressaltando a participação do União Brasil nesse processo.
“A legenda, ao se aproximar do Governo Elmano, está se distanciando então dessa possibilidade de frente ampla local”, continuou, afirmando que isso representa, por exemplo, menos tempo de rádio e TV durante o horário eleitoral e uma redução no montante disponível para financiamento da campanha.
Clerislânia Albuquerque pondera que a "tensão entre alas não é por acaso". Na explicação dela, há um curto prazo de tempo e incertezas que permeiam a aliança entre os partidos. E as indefinições, como lembrou, também ocorrem a nível nacional.
Neste momento, pelo que destacou, há reflexos no Ceará como: a perda da identidade da federação, dúvidas quanto ao alinhamento a longo prazo e os efeitos da janela partidária numa possível migração de parlamentares para outros partidos.
Revés no palanque
No início do mês, Capitão Wagner havia assegurado que a federação estaria confirmada no palanque de oposição, apoiando a eventual candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao Governo do Estado em 2026. Contudo, a investida governista e a participação de membros da federação em cargos no governo estadual colocam essa sinalização em xeque.
Para Mariana Dionísio, "o retorno de Ciro Gomes ao PSDB foi articulado como um recomeço, mas o partido que Ciro encontrou não é o mesmo que o projetou". Diminuto, sem fundo eleitoral robusto e sem bancada expressiva, a sigla tucana, na análise da docente, depende de uma equação que "sempre dependeu de aliados".
"E os dois mais importantes eram exatamente o PL e o União Brasil. Ciro tem o apoio de Capitão Wagner, mas não o apoio integral do União Brasil. No caso do PL, embora haja a iniciativa de André Fernandes em prol de Ciro Gomes, em troca do apoio a Alcides Fernandes para o Senado, Ciro está longe de conquistar unanimidade na legenda", declarou, se referindo às divergências com a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro.
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"O PSDB do Ciro sem PL e sem União Brasil é um candidato com nome forte, mas sem estrutura. E eleição majoritária no Ceará, como a história demonstra, não se ganha só com nome. Se ganha com máquina, com coligação, com capilaridade municipal, e são exatamente esses ativos que estão em disputa agora, com o relógio da janela partidária correndo", afirma Mariana.
Impactos para as lideranças da oposição
Paula Vieira classifica a situação da oposição como "um pouco complicada", caso o governo tenha êxito na atração da federação. O ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (União), seria um dos maiores prejudicados. De acordo com a cientista social, ele "foi para o União Brasil já nessa intenção de se candidatar como oposição". "Ele tinha como certo que, localmente, o União Brasil seria oposição ao Governo Elmano, mas isso não se consolidou", destaca.
"Então, para as eleições, tanto ele, como o Capitão Wagner, vão estar numa situação um pouco complicada, porque se a federação que o União Brasil está resolver apoiar o Elmano, essas duas figuras que têm sustentado uma oposição vão ficar um pouco à parte desse processo"
Albuquerque, entretanto, diz perceber "um comportamento mais observador" de Roberto Cláudio e Capitão Wagner. "Caso a ida da federação para a base governista se confirme e a articulação com o PL não aconteça, o que resta para o PSDB é formar alianças com partidos menores", sugere, ao tratar sobre o futuro político da oposição.
Para Capitão Wagner, o alinhamento da federação com o governo poderia significar a perda de controle sobre o partido e seus recursos, o que prejudicaria tanto suas pretensões políticas quanto as de seus aliados.
O plano da oposição de apresentar um palanque unificado em torno de Ciro Gomes ficaria seriamente comprometido, forçando uma reorganização estratégica diante da perda de uma de suas principais engrenagens partidárias, apontam as especialistas.
Mariana Dionísio afirma que, entre Wagner e Roberto, o segundo é "o que tem a perder mais imediatamente com uma adesão da federação ao governo". "Porque ele acabou de fazer uma aposta pública e custosa", discorreu, mencionando a troca do PDT pelo União, no "contexto de reorganização oposicionista".
"No caso do Capitão Wagner, o caso é radicalmente diferente, porque, para ele, a identidade política é a oposição. Sua trajetória inteira foi construída com base no antipetismo, e uma eventual adesão da federação ao governo Elmano não apenas inviabiliza seus planos eleitorais, mas destrói a narrativa que o fez relevante", acrescenta Dionísio.
Vieira aponta que ambos teriam que "pensar em novas possibilidades". "Essa realmente é um grande uma grande questão para essas duas figuras", refletiu. "Junto com eles, temos então o fator Ciro, que está, até então, se propondo candidato, como sendo esse representante da frente ampla", frisou.
Clerislânia Albuquerque pontua que "os caminhos que a federação seguir aqui, no Ceará, podem refletir no âmbito nacional, principalmente na eleição presidencial, em um possível realinhamento de alianças".