De onde vêm os senadores eleitos pelo Ceará desde a redemocratização
Ao longo de 40 anos, perfil de parlamentares cearenses seguiu reflexos do cenário da esfera política nacional.
Em 2026, o eleitorado irá às urnas para escolher os novos representantes que ocuparão dois terços das cadeiras do Senado Federal. Pelo estado do Ceará, ao menos 14 nomes se apresentam hoje como pré-candidatos para a disputa do cargo.
Nessa lista, constam lideranças políticas com anos de trajetória, como o deputado Eunício Oliveira (MDB), que já presidiu o Senado, e o líder do Governo Lula, o deputado José Guimarães (PT); e nomes que nunca exerceram qualquer mandato, tanto na oposição como na ala governista, como o pré-candidato do Novo, General Theóphilo e o secretário da Casa Civil, Chagas Vieira (sem partido).
O atual cenário de disputa por uma vaga no Senado traz similaridades com pleitos de anos anteriores, que elegeram, por vezes, candidatos para o primeiro cargo político da vida.
Os dois senadores que encerram mandato de oito anos em 2026 ilustram esse cenário: Eduardo Girão (Novo) fecha o primeiro mandato político, enquanto Cid Gomes (PSB) acumula a atuação no Senado com os cargos de prefeito, presidente da Assembleia Legislativa e governador do Estado.
A seguir, o PontoPoder separou os principais destaques sobre os senadores eleitos pelo Ceará desde a redemocratização brasileira. Confira.
Ceará no Senado
Desde o período de redemocratização, iniciado em 1985, os nomes que compõe as bancadas cearenses nas Casas Legislativas do Brasil vêm seguindo uma relação com o contexto em que o estado e o País se encontram. As características se tornam, então, voláteis ao cenário político brasileiro vivido no momento.
parlamentares cearenses já assumiram cadeiras no Senado desde as eleições de 1986, com apenas 13 deles tendo ocupado cargos políticos antes de chegar à Casa, conforme levantamento realizado pelo PontoPoder.
Ao todo, uma maioria esteve filiada ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) durante o período de mandato, seguido de perto por parlamentares do Partido Democrático Trabalhista (PDT).
Ambas as siglas já possuíram força, sendo uma especialmente ligada à situação cearense, enquanto a outra repercutia em cenário nacional. Nas eleições de 2022, entretanto, esses partidos não conseguiram eleger novos representantes do Ceará dentro do Senado.
Com um total de três cadeiras na Casa, a bancada atual é ocupada por políticos de siglas distintas: Cid Gomes (PSB) e Eduardo Girão (Novo), que encerrarão o mandato após o pleito previsto para esse ano, e Augusta Brito (PT), suplente de Camilo Santana (PT), eleito ao cargo em 2022 e atual ministro da Educação.
A representação, entretanto, é recente. Para o Partido Socialista Brasileiro (PSB), esta é apenas a segunda cadeira cearense ocupada desde a redemocratização, enquanto Augusta representa o terceiro cargo do Partido dos Trabalhadores (PT) pelo Ceará. Girão é o primeiro do Novo a atuar no Senado pelo estado.
Eleições de 1986
O primeiro pleito pós Ditadura Militar ocorreu em 1986 e preencheu duas cadeiras do Senado para cada unidade federativa. À época, o político cearense Virgílio Távora (PSD) já ocupava a primeira das três vagas. Inicialmente, a formação ficou do seguinte modo:
- Virgílio Távora (PSD), com metade do mandato concluído;
- Cid Saboia de Carvalho (PMDB), iniciando o mandato em 1987;
- Mauro Benevides (MDB), iniciando o mandato em 1987.
Ambos são advogados, jornalistas e professores. Entretanto, apenas Benevides já havia tido contato com outros cargos políticos antes de chegar a senador. O mdbista começou a vida política como vereador mais de 30 anos antes, seguindo com quatro mandatos consecutivos de deputado estadual.
Ele também chegou a presidir o Senado entre 1991 e 1993, e foi quem conduziu o rito processual do impeachment aplicado ao então presidente Fernando Collor de Melo.
Além dos dois parlamentares, juntaram-se ao Congresso dois representantes do antigo Partido da Frente Liberal (PFL), que viria a se tornar o União Brasil anos mais tarde.
Afonso Sancho, agropecuarista e banqueiro, assumiu o lugar de Virgílio Távora após o falecimento do então senador, enquanto Alacoque Bezerra, a primeira cearense a representar o estado na Casa, foi sua suplente durante um período de licença.
Ambos empresários, eles, assim como Saboia, não possuíam contato anterior com cargos políticos. A passagem dos três na política se resumiu àquele período de mandato.
O ‘tri’ do PSDB
A chegada dos anos 90 trouxe uma virada de chave para a representação partidária do estado no Senado. Durante o pleito desse ano, com apenas uma vaga aberta, deu-se início ao que se tornaria uma tri-conquista eleitoral para o PSDB.
A cadeira foi ocupada Beni Veras, administrador e professor que esteve ao lado de Saboia e Benevides pelos próximos quatro anos. Mais tarde, ele também seria eleito vice-governador do Ceará.
Chegado 1994, a bancada cearense passou a ser representada exclusivamente pelo PSDB, que também ocupou as duas cadeiras disponíveis no Congresso. Lúcio Alcântara, médico e professor, e Sérgio Machado, economista e empresário, foram as figuras eleitas.
Enquanto Machado já havia exercido um mandato como deputado federal, a carreira de Alcântara era mais extensa. O médico foi prefeito de Fortaleza durante os anos finais da Ditadura Militar, seguindo com dois mandatos na Câmara dos Deputados e um período como vice-governador do estado antes de, enfim, assumir no Senado.
Após sua participação no Congresso Nacional, ele retornou ao estado como governador em 2003. Durante sua campanha à reeleição, entretanto, Alcântara foi derrotado por Cid Gomes (PDT, até então).
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Quatro anos depois, em 1998, Luiz Pontes ingressou no Senado, neste que seria o último período com parlamentares cearenses exclusivamente do PSDB. Além de empresário, a figura pública já havia cumprido mandatos como deputado estadual e federal.
As suplências deste período, assim como Veras, não possuíam a mesma bagagem política dos senadores eleitos, apesar de compartilharem do mesmo partido. Reginaldo Duarte e Luiz Girão, ambos empresários e filiados à sigla predominante, atuaram apenas na Casa durante a carreira política.
Por fim, em 2002, apesar da bancada cearense ter deixado de ser exclusivamente composta pelo PSDB, um nome importante na política do estado foi eleito pelo partido: Tasso Jereissati.
Três vezes governador do Ceará, esse seria o primeiro de dois mandatos do empresário, sendo o segundo conquistado em 2014. Ele assumiu ao lado de Patrícia Saboya (PSB, até então), a primeira e única mulher eleita pelo estado para o Senado. Antes de participar da Casa, a pedagoga foi vereadora e deputada estadual.
À época, a predominância do PSDB também era um retrato da escolha popular para o Executivo, com Fernando Henrique Cardoso (FHC) assumindo a função de chefe de Estado entre 1995 e 2003. A queda da força política ocorreu simultaneamente ao fortalecimento do PDT no Ceará.
Adormecido pela última década, o PSDB passa a ressurgir no estado durante a preparação para o pleito eleitoral de 2026, agora com o ex-governador cearense, Ciro Gomes, na presidência da sigla.
Novos partidos e o crescimento PDTista
Em 2006, o fortalecimento do PDT veio a partir da mudança de partido da então senadora Patrícia Saboya, junto à suplência de Flávio Torres, fundador da sigla no Ceará. Esse foi o único cargo político que o professor exerceu.
A outra vaga deste pleito foi destinada a Inácio Arruda, o único parlamentar a representar o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) na bancada cearense até hoje. O político já havia exercido o cargo de vereador, deputado estadual e, por duas vezes, federal.
Já o Partido dos Trabalhadores (PT) fez sua estreia na Casa em 2010, mesmo pleito que elegeu Dilma Rouseff para o primeiro mandato como presidente da república. José Pimentel, advogado piauiense, bancário e quatro vezes deputado federal, foi a figura eleita no pleito.
Junto a Eunício Oliveira, atual presidente do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), e Patrícia Saboya, eles representaram o estado na Casa. Também já tendo atuado na Câmara dos Deputados, Eunício chegou a presidir o Senado entre 2017 e 2019.
Nas eleições de 2018, os dois parlamentares que conseguiram uma cadeira no Congresso foram completamente distintos, sendo Cid Gomes (PDT, até então) um conhecido rosto cearense – duas vezes deputado estadual, duas vezes prefeito de Sobral, três vezes governador do Ceará - e Eduardo Girão (Podemos, até então) um rosto novo, que jamais havia exercido um cargo político.
Na suplência, participaram três parlamentares, onde apenas Chiquinho Feitosa (Democráticos, até então), substituto de Tasso, já possuia alguma experiência no Congresso, tendo atuado como deputado federal. Prisco Bezerra e Júlio Ventura, ambos do PDT e substitutos de Cid, atuaram apenas no Senado.
2022 e o PT em três frentes
A configuração da Casa após as últimas eleições se procedeu da seguinte maneira:
- Cid Gomes, agora filiado ao PSB e com metade do mandato concluído;
- Eduardo Girão, agora filiado ao Novo e com metade do mandato concluído;
- Augusta Brito (PT), suplente do então senador eleito Camilo Santana (PT).
Mais uma vez, o reflexo da esfera presidencial ecoou no cenário Legislativo, com a eleição do segundo parlamentar petista desde a redemocratização, Camilo Santana, que está licenciado do cargo para cumprir atividades como ministro da Educação.
A campanha do político foi sustentada pelo então candidato à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e repercutiu pelo alto índice de aprovação de seu governo no Ceará. Além do Senado, Camilo foi capaz de conquistar o cargo de governador para seu aliado, Elmano de Freitas (PT).
Sua suplente, Augusta, segue em atuação neste ano e já esteve em cargos políticos anteriores ao Senado. Por duas vezes, a enfermeira foi prefeita de Graça, município próximo à Serra da Ibiapaba, e exerceu dois mandatos como deputada estadual.
Para 2026, no campo governista, as especulações de candidatura ao Senado estão nos deputados federais José Guimarães (PT), Luizianne Lins (PT), Eunício Oliveira (MDB), Júnior Mano (PSB) e Moses Rodrigues (União Brasil), no ex-senador Chiquinho Feitosa (Republicanos), no então parlamentar Cid Gomes (PSB), no ex-vice-governador Domingos Filho (PSD) e no chefe da Casa Civil Chagas Vieira.
Com a recente quebra entre os irmãos Ferreira Gomes, a oposição ventila nomes como o General Theophilo (Novo), o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União), o deputado estadual Pastor Alcides (PL), o ex-deputado federal Capitão Wagner (União Brasil) e a vereadora Priscila Costa (PL).
*Estagiária sob supervisão da jornalista Jéssica Welma.