Elmano e Cid iniciam reuniões em meio a disputa de PT e PSB por hegemonia no Ceará
Governador e senador combinaram de se encontrar uma vez por semana até o início de abril para resolver impasses nas chapas proporcionais.
O período da janela partidária, que vai até o dia 4 de abril, é um dos mais sensíveis da articulação política paras as eleições deste ano. Durante 30 dias, deputados estaduais e federais podem trocar de partido sem risco de perda de mandato. No Ceará, esse movimento já começou a produzir efeitos relevantes na oposição e, principalmente, dentro da base governista.
Em conversa com jornalistas em Brasília, na semana passada, o senador Cid Gomes (PSB) revelou que acertou com o governador Elmano de Freitas (PT) uma prioridade para o momento: concentrar esforços na montagem das chapas proporcionais para 2026.
Seria natural os dois líderes buscarem a organização dos partidos, mas tem algo mais estratégico nesta jogada: Cid quer que Elmano, pré-candidato à reeleição, seja o “magistrado” em busca de “equilíbrio de forças” entre os dois maiores partidos da base. Ambos vão buscar a hegemonia nas urnas.
O peso das chapas proporcionais
A lógica é simples e decisiva. Quem monta as chapas mais competitivas tende a eleger mais deputados, e isso se traduz em poder político pelos quatro anos seguintes.
No caso da Assembleia Legislativa do Ceará, por exemplo, PT e PSB devem eleger as maiores bancadas da Casa, ou, no mínimo, figurar entre os três partidos mais fortes do parlamento estadual a partir do ano que vem.
Esse detalhe não é trivial. Existe, historicamente, um acordo informal de que a maior bancada indica o presidente da Assembleia.
O debate que agora ocorre nos bastidores sobre filiações e chapas proporcionais pode definir, na prática, quem terá o controle político do Legislativo estadual no próximo ciclo administrativo.
A referência de Cid: o desempenho do PDT
Ao explicar sua posição, Cid tem sido direto. O objetivo dele é fortalecer o PSB, tomando como referência o desempenho do antigo partido ao qual era filiado.
Em 2022, o PDT elegeu 13 deputados estaduais e cinco federais no Ceará. É esse patamar que o senador diz querer alcançar agora sob a bandeira do PSB. A estratégia aponta no sentido de garantir musculatura política suficiente para influenciar o próximo ciclo administrativo.
Quando o foco se volta para a Câmara dos Deputados, o peso político cresce ainda mais. No sistema brasileiro, as cadeiras federais têm impacto direto na distribuição de recursos, no acesso ao governo central e na capacidade de articulação nacional dos partidos.
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O papel de Elmano como mediador
Ao relatar o acordo com o governador, Cid utilizou uma expressão peculiar: pediu que Elmano atuasse como um “magistrado” nas discussões entre os partidos da base.
Nos bastidores, o senador tem manifestado incômodo com movimentos de lideranças ligadas ao governo, sobretudo do PT, para atrair quadros políticos que já orbitam dentro da própria base governista. Para Cid, isso gera tensão no processo de acomodação partidária.
A proposta, portanto, é estabelecer uma mesa permanente de negociação entre PSB e PT, com reuniões semanais ao longo dos próximos 30 dias. O objetivo é identificar divergências, mediar conflitos e evitar disputa por filiações que comprometa a unidade do grupo.
Uma disputa silenciosa dentro da base
Esse tipo de articulação é comum em períodos de janela partidária. Todos os partidos buscam montar chapas competitivas para maximizar suas chances eleitorais.
No caso do Ceará, porém, o processo ganha um ingrediente adicional: uma disputa silenciosa por hegemonia entre PT e PSB dentro do próprio campo governista.
No fundo, o que está em jogo não é apenas o desempenho eleitoral de 2026. A corrida por deputados estaduais e federais também definirá quem terá mais peso na condução política do governo, na ocupação de espaços institucionais e na definição dos rumos do grupo nos próximos quatro anos e na sucessão de 2030.
A janela partidária dura apenas um mês. Mas as decisões tomadas nesse curto período podem moldar o tabuleiro político cearense por muito mais tempo.