Cármen Lúcia vota para condenar Bolsonaro, enfatiza tese de golpe e reforça competência do STF
Com voto da ministra, Primeira Turma formou maioria pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro
A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, votou para condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e os outros sete réus da chamada “trama golpista” por todas as acusações da Procuradoria-Geral da República (PGR). No voto apresentado na tarde desta quinta-feira (11), a magistrada defendeu a tese de golpe e reforçou a competência do STF para julgar a ação penal.
A posição de Cármen foi responsável por formar maioria pela condenação dos oito réus da chamada “trama golpista” na Primeira Turma do STF, acompanhando Alexandre de Moraes e Flávio Dino. Por sua vez, a posição é divergente do voto apresentado por Luiz Fux.
Atual placar pela condenação na Primeira Turma do STF
Após fazer explanações sobre a defesa da democracia e rejeitar preliminares dos advogados dos réus, a ministra abordou os méritos da ação penal e defendeu a condenação dos réus por organização criminosa. Para a ministra, o núcleo liderado por Bolsonaro protagonizou um plano de ataque às instituições democráticas e ficou comprovada a violência e a grave ameaça.
"Acho e já antecipo que fez prova cabal de que o grupo liderado por Jair Messias Bolsonaro, composto por figuras-chave do governo, das Forças Armadas e de órgãos de inteligência, desenvolveu e implementou plano progressivo e sistemático de ataque às instituições democráticas com a finalidade de prejudicar a alternância legítima de poder nas eleições de 2022, minar o livre exercício dos demais Poderes constitucionais, especialmente do Poder Judiciário"
Com o voto da ministra, já há maioria pela condenação de Bolsonaro e outros sete réus do "núcleo 1" da tentativa de golpe orquestrada em 2022 por cinco crimes:
- Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito;
- Tentativa de golpe de Estado;
- Participação em organização criminosa armada;
- Dano qualificado;
- Deterioração de patrimônio tombado.
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Análise das condutas individuais
No final do voto, Cármen Lúcia passou para a análise da conduta de cada réu na trama golpista, detalhando a comprovação das participações deles.
Acerca de Jair Bolsonaro, a ministra defendeu que a PGR comprovou a atuação do ex-presidente na condição de "líder da organização criminosa". Nesse sentido, pontuou uma série de práticas, como instrumentalização do estado, cooptação de militares, planejamento de atos de neutralização e instigação das manifestações.
"O que mais se alega é que não há formalmente assinatura. Até onde a gente tem algum conhecimento da história, realmente passar recibo no cartório não é exatamente o que acontece nesses casos. Ele não foi tragado, ele é o causador, o líder da organização"
A magistrada também detalhou as provas que pesam contra os outros sete réus da “trama golpista”. Com isso, condenou ambos por todos os crimes denunciados pela Procuradoria-Geral.
MORAES DEFENDE TESE DE GOLPE
Durante a parte do voto de Cármen sobre organização criminosa, o ministro Alexandre de Moraes pediu para se manifestar. O magistrado apresentou vídeos de Bolsonaro e apoiadores do ex-presidente
Moraes também reforçou a figura de Bolsonaro como líder da organização criminosa. “Está fartamente comprovado que a liderança criminosa, além dessa grave violência, armamento pesado, forças especiais... as forças especiais acabaram ficando com o estigma, em virtude de alguns componentes que atravessaram o rubicão para práticas delituosas. Mas elas são importantes para o Exército. Agora, quem bolou todo esse discurso... quem executou tudo foi o próprio líder, Jair Messias Bolsonaro.”
Após mostrar o vídeo de Bolsonaro, Moraes defendeu, ainda, que a decisão dos ministros valerá para todos os tribunais. "Algum de nós permitiria, falaria que é liberdade de expressão, se o prefeito insuflar o povo contra o juiz da comarca? Qual recado queremos deixar para o Poder Judiciário brasileiro?”, questionou.
REJEIÇÃO DE PRELIMINARES
No início da manifestação, a ministra rejeitou as preliminares de parcialidade e suspeição, ao defender que os pontos já teriam sido decididos no plenário do STF. "Sempre entendi que a competência é do Supremo Tribunal Federal. Não há nada de novo pra mim”, pontuou Cármen Lúcia, divergindo do voto apresentado por Fux.
A decana também rejeitou a preliminar sobre a anulação do acordo de delação premiada de Mauro Cid. Cármen Lúcia também refutou a alegação de cerceamento de defesa, descartando a configuração de um possível "document dump" ou “soterramento de documentos”, algo que foi alegado pelas defesas dos réus e acolhido no voto de Fux.
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DEFESA DA DEMOCRACIA
Antes do voto em si, a ministra começou fazendo uma introdução sobre o ambiente processual e o impacto do julgamento para a história do país. "O que há de inédito, talvez, nesta ação penal, é que nela pulsa o Brasil que me dói. A presente ação penal é quase um encontro do Brasil com o seu passado, o seu presente e com o seu futuro.”
No voto, a ministra também falou sobre a importância de atuar pela defesa da democracia. “Por mais que se cuide de produzir instrumentos ou vacinas constitucionais para se imunizar a sociedade, o Estado, de aventuras ditatoriais, em nenhum lugar do mundo, menos ainda aqui, se tem imunidade absoluta", frisou.
Durante esse trecho da leitura do voto, o ministro Flávio Dino pediu aparte para se pronunciar. Cármen Lúcia concedeu, mas brincou com o magistrado. "Nós mulheres ficamos dois mil anos caladas, nós queremos ter o direito de falar", respondeu.
A ministra também condenou os “ataques destrutivos” do 8 de janeiro, afirmando que os atos não foram um “acontecimento banal, depois de um almoço de domingo”. Com isso, enfatizou o pedido por punições.
“O inédito e infame conjunto de acontecimentos havidos ao longo de um ano e meio para inflar, instigar por práticas variadas de crimes, quando haveria de ter uma resposta no direito penal”, salientou.
Relembre quem são os réus do ‘núcleo crucial’ da trama golpista
- Jair Bolsonaro: ex-presidente da República;
- Alexandre Ramagem: ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin);
- Almir Garnier: ex-comandante da Marinha;
- Anderson Torres: ex-ministro da Justiça e ex-secretário de segurança do Distrito Federal;
- Augusto Heleno: ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI);
- Paulo Sérgio Nogueira: ex-ministro da Defesa;
- Walter Braga Netto: ex-ministro de Bolsonaro e candidato a vice na chapa de 2022;
- Mauro Cid: ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.
O que está em julgamento?
O STF julga a ação penal 2668, que trata da denúncia oferecida pela PGR. São acusados 31 réus, divididos em quatro núcleos:
- Núcleo 1: envolve oito réus, incluindo Bolsonaro, e é considerado o núcleo "central" ou "crucial" da articulação golpista.
- Núcleo 2: conta com seis réus que são acusados de disseminar informações falsas e ataques a instituições democráticas.
- Núcleo 3: é formado por dez réus associados a ataques ao sistema eleitoral e à preparação da ruptura institucional.
- Núcleo 4: sete réus serão julgados por propagação de desinformação e incitação de ataques às instituições.