Privatização do BEC completa uma década

Marco do desenvolvimento e da bancarização dos cearenses, o Banco do Estado do Ceará teve a privatização efetivada há dez anos, quando o Bradesco passou a controlar agências, contas e funcionários da instituição estatal

Escrito por Armando de Oliveira Lima - Repórter,

Negócios

Impossível, em toda a história do Brasil, conceber o desenvolvimento de um Estado sem a participação efetiva do governo. Da mesma forma, é difícil imaginar que isso se dê sem um agente bancário que oferte crédito aos setores produtivos. Este modelo, efetivado logo após a grande depressão de 1930 e modernizado desde o término da 2ª Guerra Mundial, também fez parte da história cearense e teve no Banco do Estado do Ceará (BEC) o suporte creditício para a política econômica local. Com 42 anos de atuação, o BEC foi responsável pelo financiamento de projetos, por bancarizar boa parte da população cearense, e toda identificação rendeu ao País o mais demorado processo de privatização da história.

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Foram necessários 11 anos para que a iniciativa privada pudesse ter a chance de controlar a estrutura do banco estatal cearense. Desde o anúncio em dezembro de 1994, pelo então governador Tasso Jereissati, do interesse de repassar a administração do BEC, até maio de 2006, quando o Bradesco concretizou a transferência da marca e tomou posse de todas as contas - incluindo a do Estado e seus servidores -, muita negociação política, campanhas de mídia contra e a favor, caravanas pelo Interior e Região Metropolitana aconteceram. Entre 2001 e 2006, a guerra judicial travada entre sindicalistas e o governo federal fez com que o processo fosse paralisado por nove vezes.

Só a decisão do Supremo Tribunal Federal - por oito votos favoráveis e três contra - em 15 de dezembro de 2005 fez com que o leilão do BEC fosse autorizado. Seis dias depois, por um lance de R$ 700 milhões - correspondente ao maior ágil (28,98%) visto nos leilões dos bancos estatais -, o Bradesco arremata as 70 agências - 20% das que existiam no Ceará - e passa a controlar cerca de 280 mil contas e os 866 funcionários ativos que o BEC possuía na época.

Origem desenvolvimentista

Idealizado em um período de grande expectativa de crescimento do País, o Banco do Estado do Ceará foi criado em 23 de junho de 1964 pelo então governador Virgílio Távora, juntamente com outras duas instituições de amparo à economia - a extinta Companhia do Desenvolvimento do Ceará (Codec) e a Superintendência do Desenvolvimento Econômico e Cultural (Sudec), o que se tornou o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece).

O período brasileiro no qual aconteceu o chamado "milagre econômico", na década seguinte, também favoreceu o BEC. A expansão no Interior e na carta de produtos consolidou o banco junto à população cearense.

O marco deste período foi a inauguração da sede, a 23 de junho de 1973 em Fortaleza, no prédio até hoje conhecido como o BEC dos Peixinhos. Localizado entre as ruas Barão do Rio Branco e Pedro Pereira, a fachada da agência, projetada pelo arquiteto Neudson Braga, conta com uma parede onde os animais são desenhados em azulejo. Quando o Centro era o maior polo de compras, as famílias sempre dedicavam um tempo para admirar a fachada e aquário do BEC.

Nessa época, um conglomerado foi construído, com a carteira de Câmbio, a BEC Corretora de Seguros, a BEC Crédito Imobiliário, a BEC Distribuidora, a BEC Financeira e a carteira de Open Market. Na segunda metade dos anos de 1970, o banco cearense possuía agências pelo Nordeste, em Natal, João Pessoa e Recife, além da capital federal, Rio de Janeiro e São Paulo.

Mas os baques acumulados pela derrocada da economia nacional durante os anos de 1980, efeito da abertura do mercado brasileiro e da globalização econômica aliados a três planos econômicos mal sucedidos fizeram a proposta original de atuação do BEC padecer.

Altos e baixos

Com isso, o banco sai do modelo de conglomerado e passa ao de múltiplo, pelo qual atua em diversas frentes como uma única instituição financeira. Os anos seguintes foram marcados pela intervenção do Banco Central (BC), o qual deu início ao saneamento das finanças da instituição e, pouco mais tarde, o retorno ao controle do Estado do Ceará. Entre 1993 e 1994, no governo de Ciro Gomes, o BEC foi classificado entre os 50 maiores banco do País e o 12º de menor taxa de risco da América Latina.

Porém, escândalos de empréstimos não-pagos fizeram a saúde financeira do BEC desaparecer, e uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi criada para investigar um rombo calculado em R$ 900 milhões, mas não obteve sucesso e acabou sem resultados e, consequentemente, punições. No fim do século passado, em maio de 1999, o BEC volta ao controle da União em troca de um empréstimo de R$ 954 milhões para o governo do Estado do Ceará - segundo o qual aplicou o recurso para sanar problemas na previdência.

Novamente o BC passa a estar à frente da instituição bancária cearense e desenvolveu uma gestão que rendeu quatro anos consecutivos de lucro ao BEC, fazendo dele um dos mais cobiçados bancos estatais do mercado brasileiro em um período no qual as privatizações eram regra no governo federal. Sob protestos de sindicatos, Ordem dos Advogados e sociedade civil, o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2002/2006) deu continuidade ao processo iniciado em seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), e finalizou a privatização do banco cearense em dezembro de 2005.

Em maio do ano seguinte, o Bradesco assumiu toda a herança do BEC. Dez anos depois, economistas, Sindicato dos Bancários e ex-funcionários do BEC relembram e analisam o papel da instituição no desenvolvimento econômico do Ceará.

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